Em busca de uma solução iraniana

Irã · 23/06/2009 - 08h18 - 219 Comentários

A notícia publicada aqui, ontem, de que Akbar Rafsanjani teria em mãos um documento pedindo a anulação das eleições e assinado por 40 membros da Assembléia dos Especialistas não saiu em nenhum outro veículo iraniano. A fonte original é o site PeikNet, que pertence a gente que, nos tempos do xá, era do Tudeh, o Partido Comunista do Irã. O PeikNet arranja documentos inéditos com alguma frequência e, neste caso, eles apresentaram o documento inteiro. Mas também é verdade que o PeikNet publica tudo o que tem em mãos, sem se dar ao trabalho de checar.

A essas alturas, acho que a notícia é falsa. Desculpem.

Roger Cohen, do New York Times, esteve com Mehdi Rafsanjani, filho do aiatolá Rafsanjani. O filho informa que seu pai está trabalhando nos bastidores para conseguir a anulação das eleições perante o Conselho dos Guardiães. Cohen reconhece que o Conselho é leal a Khamenei, mas o fato de que já reconheceu que há discrepâncias nos resultados de 50 cidades que afetam 3 milhões de votos num universo total de 40 milhões é um grande passo.

Ali Larijani, presidente da Majlis, o Parlamento, criticou o Conselho dos Guardiães na IRIB, a tevê do governo. “A maioria do povo está certa de que o resultado das eleições é diferente do que foi anunciado oficialmente.” Larijani é leal ao aiatolá Khamenei – e isto faz diferença. Ex-presidente da IRIB, ele também criticou a tevê estatal por não noticiar aquilo que o povo vê na rua: que a maioria dos protestos foram pacíficos.

Que fique claro: não foram críticas veementes. As fissuras aparentes no regime são discretas.

Um dos rumores que não cedem é o de que o comandante da Guarda Revolucionária em Teerã, Ali Fazli, se recusou a cumprir ordens de partir contra os manifestantes e, dependendo da fonte, foi afastado do cargo ou preso.

O governo está preocupado, evidentemente. Mas a opressão de sábado certamente conteve o ímpeto dos manifestantes. Há relatos – alguns confiáveis – de levantes por parte de minorias étnicas. Há preocupação, muita preocupação, com a história da menina Neda. Dentro do país, chamam-na de ‘Joana D’Arc do Irã’. Na tradição muçulmana, um morto deve ser lembrado em cerimônias religiosas no terceiro, nono e trigésimo dia. Segunda-feira, o governo proibiu a família de Neda de celebrá-la publicamente.

É uma proibição quase ofensiva. Para quem tiver interesse, não custa indicar a entrevista da BBC com o noivo de Neda.

Mas o que realmente está acontecendo no Irã? Segue aqui a tirada de Gary Sick, um dos analistas que mais citei nesta última semana e meia, com algumas décadas estudando o país:

Não esperem um vencedor e um perdedor claros num período curto de tempo. A Revolução Iraniana teve início em janeiro de 1978 e o xá só deixou o país em janeiro de 1979. E esta é considerada uma das mais rápidas derrubadas de um regime com estrutura estável da história. Ao longo daquele ano, houve longas pausas e períodos de calma que, muitos imaginaram, indicava que a revolta popular havia morrido. Isto não é 100 metros rasos. É uma maratona. Resistência é no mínimo tão importante quanto velocidade.

Provavelmente não haverá vencedor ou perdedor claros. Os políticos iranianos são espertos. Preferem xadrez a futebol e uma ‘vitória’ pode ser, na verdade, uma solução negociada na qual todos saiam aparentemente bem. A atual liderança provavelmente cometeu um erro ao partir para a demonstração de força, mas se ela concluir que não há como vencer, vai partir para uma saída negociada. Que acordo seria esse, neste momento, é impossível dizer. Mas provavelmente significará concessões disfarçadas por uma aparência pública de que o regime está unido.

Sick estava dentro da Casa Branca quando acompanhou a Revolução que o aiatolá Khomeini liderou.

O Weblog, evidentemente, continuará a acompanhar atento e diariamente o Irã. Mas, ao menos por enquanto, vou diminuir o ritmo dos vários updates por dia.

Ainda sobre o assunto:

  1. Golpe à iraniana Em pelo menos 30 cidades iranianas, mais de 100% dos eleitores foram às urnas. Em Yazd, 141% dos eleitores votaram....
  2. Bomba iraniana em seis meses? Há uma mudança de discurso no ar – uma daquelas na qual deve-se prestar atenção. Numa entrevista em árabe para...
  3. A linha dura iraniana já perdeu
    (Mesmo que Ahmadinejad continue presidente)
    A melhor análise para se ler das muitas publicadas ontem é a do professor Abbas Milani, na New Republic. O...