No Irã, tem início uma semana de indecisão
Depois do sábado sangrento e de um domingo relativamente calmo, a semana começa no Irã. Na sexta-feira, o aiatolá Khamenei havia prometido levar polícia às ruas e repreender os manifestantes que ousassem questionar o governo. Cumpriu sua promessa. As manifestações continuarão?
Um dos caminhos cogitados pela oposição é o de greve geral. Eles sempre retornam aos dias da Revolução Islâmica. Quando o xá respondeu com a polícia, ficou mais difícil levar gente à rua. Mas instauraram uma greve. Se os estudantes, impetuosos por serem jovens, continuam saindo apesar do risco de morte, não bastam apenas eles. Uma greve tem a qualidade de inviabilizar o país se arriscar a vida.
Mas há um protesto marcado para hoje: uma vigília com velas em homenagem aos mortos simbolizados pela jovem Neda Agha-Soltani, jovem com algo entre 26 e 27 anos cuja morte foi filmada por duas câmaras diferentes. Neda já é verbete na Wikipedia, tem página memorial no Facebook e é assunto recorrente no Twitter – hashtag #neda.

Oficialmente, informa a polícia do Irã, 457 pessoas foram presas no sábado e 13 morreram. Também oficialmente, o número de mortos desde as eleições é de 17 (incluindo os 13).
São, não custa reforçar, os números oficiais.
Tenho uma fonte que me informa que só na prisão de Evin, localizada no noroeste de Teerã, há entre 1.500 e 2.000 novos presos. Desde os tempos do xá, é para lá que vai a maioria dos presos políticos. Akbar Rafsanjani andou por lá. Assim como o professor Abbas Milani, frequentemente consultado por aqui. Não posso dar muitos detalhes sobre como minha fonte tem essa informação: mas os gritos de tortura têm sido ouvidos por todos os presos.
Outra informação que recebi fala de 50 mortos na província Sistan-Baluchistan. É onde vive a minoria étnica balúchi, que tem um longo histórico de rejeição ao governo central. Lá, foi batalha aberta, com AK-47s. Uma terceira informação é que na província de Shiraz – de onde, diz a lenda, veio a uva que faz o melhor vinho – o exército regular anda demonstrando insatisfação em ter ordens para virar-se contra o povo.
Não tenho como atestar pelas informações no parágrafo acima: listo porque parecem coerentes. Tem muito analista de primeira viagem que não entende o Irã falando do ‘interior conservador’ que teria votado em peso em Mahmoud Ahmadinejad. O Irã não é como os EUA ou como o Brasil onde pode-se falar de uma grande população mais ou menos homogênea que divide a mesma língua e a mesma cultura, com variações regionais. Não existe um ‘interior conservador’ que funcione e pense de uma maneira igual.
O interior iraniano de verdade é composto por azeris como Mousavi (24% da população), gilanis (8%), mazandaranis (8%, Reza Pahlavi era), curdos (7%), árabes (3%), balúchis (2%), lurs (2%), turcomenos (2%), além de outras minorias como judeus, georgianos, assírios, ciganos, hazaras, cazaques, cada qual lá com seu 1%. O povo persa compõe apenas metade da população do país e cada minoria tem sua pauta política, não raramente em oposição ao governo central. E, como muitos já falaram, é improvável e certamente inédito que, por exemplo, os azeris tenham oficialmente votado em peso contra seu candidato.
É igualmente possível que o exército regular, ou que a polícia, hesite em partir contra a população. Há alguns depoimentos parecidos com os de minha fonte. Mas não custa lembrar que é com a Guarda Revolucionária e com a milícia basiji que o regime conta para fazer a repressão.
Ainda sobre o assunto:
- Eleições no Irã e, quem sabe,
o início do fim de Ahmadinejad Os iranianos estão deixando suas casas, hoje, para votar. Em jogo estão as cadeiras na Majlis, o parlamento do país,...



Os melhores vinhos sem assemblage são os feitos de Pinot Noir. Depois vem o resto…
Em Isfahan os protestos também têm sido diarios
Meu receio é que durante/entre os protestos e como já comentaram anteriormente, algum acordo seja feito entre as lideranças políticas e um “centrão” governe o país e os sacrifícios pessoais e a dor dos pais e pessoas próximas não sirva para nada. Mesmo porque tais lideranças tem passados que os condena.
Que pode acontecer com Neda, mais ou menos como aqui, quando no 1º de maio nem se fala mais em Santo Dias e a preocupação é assistir aos shows e sorteio de apartamentos e automóveis. Talvez tenha seu nome em alguma pracinha e para os “companheiros” polpudas aposentadorias, indenizações e a consciência limpa.
muito bela. tem-se que torcer para que um batalhão do exército fique em dúvida….
Existem duvidas quanto a uva Shiraz (tal como ela e’ chamada na Australia, Africa do Sul, etc.)ser originaria do Ira. Na Franca, resto da Europa, EUA e America do Sul ela e’ chamada de Syrah. E o famoso vinho Shirazi (elaborado na cidade iraniana) era branco.
Mais detalhes em http://en.wikipedia.org/wiki/Shirazi_wine
È pena que Barbara Tuchman já não esteja mais entre nós. Ela poderia fazer “A Marcha da Insensatez II ” com os últimos acontecimentos. Quando eu soube que a polícia passou a reprimir a bala os manifestantes, foi a primeira coisa que me veio á mente. mais uma vez, a insensatez dos governantes vai por tudo a perder.
Análises ampelométricas recentes já mostraram que a Syrah, do sudoeste francês, é autóctone da região, acabando a com lenda da uva trazida da Pérsia.