No Irã, tem início uma semana de indecisão

Irã · 22/06/2009 - 09h08 - 7 Comentários

Depois do sábado sangrento e de um domingo relativamente calmo, a semana começa no Irã. Na sexta-feira, o aiatolá Khamenei havia prometido levar polícia às ruas e repreender os manifestantes que ousassem questionar o governo. Cumpriu sua promessa. As manifestações continuarão?

Um dos caminhos cogitados pela oposição é o de greve geral. Eles sempre retornam aos dias da Revolução Islâmica. Quando o xá respondeu com a polícia, ficou mais difícil levar gente à rua. Mas instauraram uma greve. Se os estudantes, impetuosos por serem jovens, continuam saindo apesar do risco de morte, não bastam apenas eles. Uma greve tem a qualidade de inviabilizar o país se arriscar a vida.

Mas há um protesto marcado para hoje: uma vigília com velas em homenagem aos mortos simbolizados pela jovem Neda Agha-Soltani, jovem com algo entre 26 e 27 anos cuja morte foi filmada por duas câmaras diferentes. Neda já é verbete na Wikipedia, tem página memorial no Facebook e é assunto recorrente no Twitter – hashtag #neda.

neda

Oficialmente, informa a polícia do Irã, 457 pessoas foram presas no sábado e 13 morreram. Também oficialmente, o número de mortos desde as eleições é de 17 (incluindo os 13).

São, não custa reforçar, os números oficiais.

Tenho uma fonte que me informa que só na prisão de Evin, localizada no noroeste de Teerã, há entre 1.500 e 2.000 novos presos. Desde os tempos do xá, é para lá que vai a maioria dos presos políticos. Akbar Rafsanjani andou por lá. Assim como o professor Abbas Milani, frequentemente consultado por aqui. Não posso dar muitos detalhes sobre como minha fonte tem essa informação: mas os gritos de tortura têm sido ouvidos por todos os presos.

Outra informação que recebi fala de 50 mortos na província Sistan-Baluchistan. É onde vive a minoria étnica balúchi, que tem um longo histórico de rejeição ao governo central. Lá, foi batalha aberta, com AK-47s. Uma terceira informação é que na província de Shiraz – de onde, diz a lenda, veio a uva que faz o melhor vinho – o exército regular anda demonstrando insatisfação em ter ordens para virar-se contra o povo.

Não tenho como atestar pelas informações no parágrafo acima: listo porque parecem coerentes. Tem muito analista de primeira viagem que não entende o Irã falando do ‘interior conservador’ que teria votado em peso em Mahmoud Ahmadinejad. O Irã não é como os EUA ou como o Brasil onde pode-se falar de uma grande população mais ou menos homogênea que divide a mesma língua e a mesma cultura, com variações regionais. Não existe um ‘interior conservador’ que funcione e pense de uma maneira igual.

O interior iraniano de verdade é composto por azeris como Mousavi (24% da população), gilanis (8%), mazandaranis (8%, Reza Pahlavi era), curdos (7%), árabes (3%), balúchis (2%), lurs (2%), turcomenos (2%), além de outras minorias como judeus, georgianos, assírios, ciganos, hazaras, cazaques, cada qual lá com seu 1%. O povo persa compõe apenas metade da população do país e cada minoria tem sua pauta política, não raramente em oposição ao governo central. E, como muitos já falaram, é improvável e certamente inédito que, por exemplo, os azeris tenham oficialmente votado em peso contra seu candidato.

É igualmente possível que o exército regular, ou que a polícia, hesite em partir contra a população. Há alguns depoimentos parecidos com os de minha fonte. Mas não custa lembrar que é com a Guarda Revolucionária e com a milícia basiji que o regime conta para fazer a repressão.

Ainda sobre o assunto:

  1. Eleições no Irã e, quem sabe,
    o início do fim de Ahmadinejad
    Os iranianos estão deixando suas casas, hoje, para votar. Em jogo estão as cadeiras na Majlis, o parlamento do país,...