O Irã que poderia ter sido, o Irã que existe

Irã · 21/06/2009 - 06h40 - 73 Comentários

Ontem, publiquei aqui no Weblog uma cena de morte em vídeo. Em seis anos de existência, tenho quase certeza de que foi a primeira vez. É uma cena que me ofende, me deprime. Tenho certeza de que causa a mesma sorte de reação em vocês.

Publiquei por um motivo: a quantidade de vozes, aqui e alhures na rede, dizendo que era exagero. Que nada demais ocorria no Irã.

Sim, tem sido uma cobertura com informação incerta e a temperatura sempre alta. Não há como fazer diferente. Não há como ter informação mais certa. O governo do Irã está fazendo tudo o que pode para que informação não circule enquanto desce o cacete. Ditaduras são assim.

Alguns me acusam de não estar cobrindo, estar torcendo. Perdoem: não inventei a ditadura iraniana. Não tomei a decisão de proibir os iranianos de se manifestarem. Tampouco optei por abrir fogo.

Não adianta matar o mensageiro.

Tampouco adianta cobrar manifestações pró-Ahmadinejad. Não sei se elas ocorrem. Se elas ocorrerem, tenho certeza de que ninguém está morrendo por dizer que prefere ele.

Não, não acho que Mir Hossein Mousavi seja o melhor para o Irã. Quando foi premiê, muita gente foi fuzilada no país. Mas acredito que o grupo político que ele representa, dos reformistas, é melhor para os iranianos do que os conservadores, representados por Ahmadinejad. Sim, o ideal é que não exista ditadura. Só que entre uma ditadura que permite alguma liberdade individual no modelo chinês e outra que proíbe mulheres de entrarem num estádio de futebol ou apedreja quem faz sexo antes do casamento, fico com Mousavi contra Ahmadinejad.

Sim, os EUA têm culpa. O Irã ideal era um em que Mohammad Mossadegh pudesse ter governado sem que um golpe com influência estrangeira o tivesse apeado do poder para implantar a ditadura do xá.

Tem graça quem defende o xá achando que ele é o oposto dos aiatolás. Foi Reza Pahlavi quem deu poder ao clero. Não houvesse a ditadura do xá, não teria havido a tremenda multiplicação de mesquitas, a evangelização das massas nos bolsões pobres urbanos que culminou com a Revolução Islâmica.

Pois é: se Mossadegh tivesse continuado seu governo. Teria sido possível mesmo sem a CIA interferindo? Quem há de saber? Havia instabilidade política. De repente, mesmo que ele caísse, outro premiê o sucederia e o xá continuaria quieto em seu lugar.

Não importa porque não aconteceu. O Irã ideal não existe, o que existe é este que está aí. Não adianta brigar comigo ou achar que minha ‘torcida’ deturpa os fatos. O que está acontecendo é simples. Tem gente infeliz por lá. E o governo quer tratar essa infelicidade na base do porrete. Em geral, funciona. Nos últimos dias a turma está enfrentando.

Povo que se levanta contra um governo opressor merece respeito em qualquer lugar do mundo.

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