Khamenei joga duro um jogo arriscado

Irã · 19/06/2009 - 09h39 - 84 Comentários

20h20 – Tanto Mehdi Karoubi quando Mir Hossein Mousavi, dois dos candidatos à presidência do Irã, já têm resposta oficial para a imposição do aiatolá Khamenei: querem a anulação das eleições e a convocação de novo pleito. A notícia foi dada pela Press TV, órgão oficioso do governo iraniano. Quando Khamenei impõe e dois candidatos da oposição se recusam a obedecer, a autoridade do líder supremo se foi. O fato de que a desobediência foi publicada num órgão oficioso dá mostras de que não são apenas os líderes políticos que o ignoram. Terá que encontrar uma maneira de reimpor-se.

12h25 – O blog dot life, da BBC, traz o gráfico que mostra a redução brusca de banda da Internet no Irã. Segundo Craig Labovitz especialista em segurança da Arbor Networks, o país devia estar tentando ganhar tempo para instalar filtros como os chineses, que permitem controlar palavras-chaves usadas na rede.

12h05 – Gholamhossein Karbaschi, ex-prefeito de Teerã e chefe de campanha de Mehdi Karoubi falou à BBC em persa há pouco. Confirmou que a oposição marchará, não importa o que diga o grande líder. Disse que ninguém acusa o regime de ter fraudado as eleições. Apenas que alguns, dentro do regime, a fraudaram. As informações são de @iranbaan, traduzidas do persa pela turma do Niac.

11h25 – @persiankiwi, um dos usuários do Twitter que tem se mostrado mais consistentes de dentro do Irã, anuncia a convocação para uma grande passeata em Teerã, amanhã, às 16h (8h30, hora de Brasília – sim, o fuso no Irã é quebrado). O usuário anuncia que Mousavi, Karoubi e Khatami estarão presentes. Se confirmado, o regime rompeu.

11h10 – Me permita apresentar-lhes Mohsen Namjoo. Apesar dos cabelos grisalhos, ele não tem 30 anos ainda. Vive na Suíça, no exílio auto-imposto faz dois anos. É um músico que tem causado espécie no Irã: ele retorna à estrutura da poesia persa clássica para falar de temas contemporâneos (numa má comparação, mais ou menos como Vinicius de Moraes voltou aos sonetos de Camões para falar de seu tempo). Curiosamente, o persa clássico era uma língua que ia direto ao ponto, estrutura direta; o persa moderno é cheio de floreios e muitos apostos. Meus amigos iranianos, quando me apresentaram ele, o descreveram como o Bob Dylan do Irã.

Também aprendemos sobre um país antenando os ouvidos para aquilo que seus jovens ouvem. E esta atualização vem porque alguns dentre os iranianos no exílio vêm distribuindo o clip de Someday, música popzinha chata da iraniana-canadense e segunda colocada no Miss World de alguns anos atrás Nazanin. Propaganda de segunda qualidade. Tem coisa bem melhor na música persa.

10h30 – O site da Foreign Policy tem a lista do lado negro do alto-clero iraniano: os ultra-conservadores, alguns à direita de Khamenei.

10h15 – Boa reportagem da Al Jazeera sobre a disputa Khamenei, Rafsanjani.

9h55 – O Google pôs no ar seu sistema de tradução do persa para o inglês. Não custa lembrar, já que a confusão tem sido feita, árabes são minoria étnica no Irã: 3% da população, para ser exato. O povo é em maioria persa, turco ou curdo. E a língua oficial do país é o persa (farsi), que se escreve com caracteres arábicos, mas não é árabe.

9h39 – O aiatolá Khamenei falou – e não há concessões. Ahmadinejad foi eleito sem dúvidas, diz. Gente na rua, só se for para celebrar a reeleição. O resto terá que se ver com a lei.

Ahmadinejad estava silenciosamente presente no auditório da Universidade de Teerã. Mousavi não estava.

Politicamente era a decisão mais esperta de Khamenei? Os próximos dias dirão. Ele tenta reimpor sua autoridade sobre o país.

O aiatolá Khomeini tinha por estilo jamais se colocar uma quina. Tinha, como bons políticos costumam ter, sempre mais de uma saída. Jamais se comprometia totalmente com um lado. Khamenei acaba de fazer o contrário. Se der certo e o povo não for mais à rua por medo, isolou e matou um levante. Terá sido impressionante.

Se o povo for às ruas hoje, amanhã, depois, Khamenei estará encurralado. Terá que enviar às tropas para a matança. Ou perderá completamente o controle e sai desmoralizado.

Mas os líderes oposicionistas também têm um problema. Mousavi, Kheroubi, qualquer um deles não pode falar mais ao público sem que este seja um desafio frontal ao líder supremo. A aposta fica cara.

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