A coragem de Khamenei,
a ausência de Ahmadinejad

Irã · 19/06/2009 - 00h09 - 29 Comentários

Publiquei uma informação errada por aqui, ontem: Ahmadinejad não está mais na Rússia, voltou ao Irã na terça-feira à noite. Mas está desaparecido. Constitucionalmente, ainda exerce o mandato de presidente da República. Mas enquanto o povo vai às ruas, só se ouve silêncio da Presidência. É um presidente ausente. Ele aguarda enquanto quem tem poder realmente – o aiatolá Khamenei de um lado, o alto-clero em Qom do outro – toma as decisões.

Mir Hossein Mousavi também não tem poder, não custa lembrar. Ele não parece controlar as multidões. Apenas as acompanha. Não é um político carismático, embora representa a oposição reformista fraudada. Como um surfista, Mousavi acompanha a onda tentando permanecer sempre na crista. Se fizer tudo direito, segue o cálculo, quando a onda estourar ele sai intacto – quiçá sai presidente.

Via seu Twitter oficial e Facebook, Mousavi pediu ontem aos iranianos que não comparecessem à oração comandada pelo aiatolá Khamenei, hoje, na Universidade de Teerã. Alguns minutos depois, a ordem de que faltassem foi renegada. Ninguém sabe o que houve. Se a ordem foi dada e alguém pensou melhor. Se Twitter + Facebook foram hackeados. Se alguém de dentro da oposição tentou boicotar os pedidos de não confrontamento e não violência de Mousavi.

Pois acontece que as rezas tradicionais de sexta serão tocadas pelo aiatolá Khamenei na Universidade de Teerã. Ontem, no parlamento, estourou briga física entre deputados pró-Ahmadinejad e os da oposição. A oposição quer que o governo entregue os nomes dos basij, milicianos fundamentalistas, que invadiram e mataram estudantes no campus da universidade durante o último fim de semana. Os basij que até alguns dias baixavam o cacete no povo sem máscara, começaram a cobrir os rostos. Têm medo.

Khamenei não tem medo. Em um momento de extrema impopularidade, entrará na Universidade de Teerã, estará entre os estudantes, para rezar com eles.

Pelo menos um analista, Gary Sick, lembra que aqui está um momento que se parece de todo com o período pré-revolucionário de 1979. As manifestações ocorrem de forma igual, os silêncios, os gritos de Alaho Akbar durante a noite, o regime com baionetas à mão. Mas há uma diferença fundamental: nem Rafsanjani, muito menos Mousavi, têm o carisma que o aiatolá Khomeini tinha. E por mais que Ahmadinejad tenha sido incompetente no comando do governo, por mais que Khamenei não seja Khomeini, nenhum dos dois é odiado como era o xá, após 32 anos de governo.

Se isto quer dizer que nada indica uma revolução, ainda assim o governo está frágil. Algo está para acontecer. O que será?

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  5. E começou a dança das cadeiras no Irã:
    Khatami, Mousavi, Karroubi, Ahmadinejad
    Se política às vezes consegue ser bem complicado numa democracia, no Irã é bem pior. A essas alturas, é quase...