Khamenei ameaçado?

Irã · 17/06/2009 - 09h58 - 70 Comentários

Tem notícia grande, hoje, circulando fortemente dentro e fora do Irã: o aiatolá Akbar Rafsanjani teria convocado a Assembléia dos Especialistas, na cidade seminário de Qom. O alto-clero que se reúne apenas duas vezes por ano jamais faz encontros extraordinários.

É esta assembléia, presidida por Rafsanjani, que elege o Velayat-e-Faghi, o Guardião da Lei Islâmica que foi o aiatolá Ruhollah Khomeini e hoje é Ali Khamenei. Ela também pode, em teoria, censurá-lo, reverter suas decisões e até demovê-lo do cargo. Em teoria. Ninguém jamais cogitou isto – e nunca é demais ressaltar.

Mas a assembléia também não faz encontros extraordinários. E, no entanto, está fazendo um.

Contexto é importante, aqui: em seu tempo, Ruhollah Khomeini foi tido como o maior grão-aiatolá do xiismo. Ele foi alçado a esta posição de respeito após a morte do grão-aiatolá Sayyed Hossein Boroujerdi, um dos mais influentes teólogos xiitas da história. Em teoria, todo grão-aiatolá é igualmente importante. Mas uns terminam sendo mais respeitados do que outros por seus pares, por conta de seu trabalho intelectual, sua capacidade de inspirar.

Ali Khamenei não é nenhum Khomeini. Muito menos um Boroujerdi.

Talvez o grão aiatolá mais respeitado por seus pares, atualmente, seja o iraniano Ali al-Sistani, que vive no Iraque. Em Qom, há alguns considerados de porte intelectual maior do que Khamenei. Mas Khamenei era o favorito de Khomeini e, após sua morte, ninguém quis questionar seu último desejo e o indicou como seu sucessor.

A figura do Velayat-e-Faghi é uma invenção que nada tem a ver com a tradição xiita. É uma tese moderna, revolucionária até, de Khomenini. Um grão-aiatolá é escolhido para representar o Imame (há quem escreva imã) Desaparecido que um dia voltará a reinar sobre a Terra. Espécie de messias xiita. O clero, que no máximo aconselhava os governantes, passou a ser o governo.

Mas o xiismo não é uma Igreja Católica e, embora em teoria o Velayat-e-Faghi converse com o anjo Gabriel de vez em quando – muita gente falava isso sobre Khomeini – o clero é pragmático. Khamenei não é um papa. Não é intocável. E tem seus inimigos.

O mais provável é que a convocação da Assembléia dos Especialistas em Qom seja um blefe de Rafsanjani. Não pretendem destituir Khamenei. Não pretendem nem censurá-lo. Pretendem apenas lembrá-lo que não é por seu talento, é por indicação de Khomeini, que ele virou o Faghi.

Religião, no fim das contas, é só desculpa. Rafsanjani está jogando política pesada.

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