É golpe ou não é golpe? Entre
Ahmadinejad e Mousavi no Irã

Irã · 15/06/2009 - 07h10 - 37 Comentários

Informação de dentro do Irã está difícil de conseguir.

Alguns de vocês questionam a existência de uma fraude eleitoral. Juan Cole argumenta de forma mais convincente do que eu que a fraude é nítida: o histórico eleitoral do Irã tem sido, constantemente, o de eleger reformistas quando um número muito grande de eleitores vai às urnas. Ahmadinejad em 2005 é a exceção, não a regra. Naquele ano, houve boicote eleitoral, um índice de abstinência dos eleitores elevado. Em 2009, foi o contrário.

Também historicamente, a província de Tabriz vota em sua minoria étnica. Sempre aconteceu. A exceção é esta última eleição – onde os habitantes de Tabriz teriam votado pesadamente em Ahmadinejad contra seu concidadão, Mir Hossein Mousavi.

Alguns argumentam que o Irã é religioso demais, portanto é natural que votem em Ahmadinejad. É o tipo de argumento que não tem pé nem cabeça. Mousavi foi premiê indicado pelo aiatolá Khomeini, nos anos 80. Suas credenciais religiosas são impecáveis. Aliás, ninguém sai candidato à presidência, no Irã, sem aprovação do aiatolá Khamenei. São todos religiosamente ‘puros’.

Como argumenta Gary Sick, acreditar na eleição escorreita de Ahmadinejad é acreditar que o Ministério do Interior, no Irã, desenvolveu uma tecnologia mágica que permite a contagem manual de dezenas de milhões de cédulas em todo o país em algumas horas. Jamais a contagem de votos, no Irã, durou apenas uma madrugada e parte da manhã.

Mais: durante a madrugada e a manhã de sábado, vários líderes oposicionistas foram presos. Por quê? A polícia já estava nas ruas quando, espontaneamente, a população as tomou. Mensagens de texto em celulares foram bloqueadas na noite de sexta-feira, quase que imediatamente após as urnas serem fechadas. Por quê? Quando o sábado amanheceu, Facebook, YouTube e vários sites estavam inacessíveis. Os jornais da oposição, censurados.

O regime se antecipou, cerceando os meios de comunicação, prendendo líderes oposicionistas, antes e simultaneamente ao anúncio dos resultados. Por quê?

Porque eles sabiam o que estavam fazendo. É assim que se faz um Golpe de Estado. O regime não reagiu à resistência. Se antecipou a ela porque já a previa.

A questão importante não é esta. Muito provavelmente, Mahmoud Ahmadinejad ocupará a presidência do país nos próximos quatro anos. O que não está muito claro, neste momento, é o que originou o golpe dentro do golpe. Que tipo de medo domina a linha dura iraniana? Qual a profundidade do racha interno do clero iraniano?

Independentemente de acreditar ou não que houve golpe, é importante perceber que a briga real não está se dando nas ruas. As ruas – sejam os milhares pró-Mousavi apanhando da polícia ou os milhares pró-Ahmadinejad celebrando a vitória – são a parte visível desta história.

A parte invisível são os reais bastidores do poder. Jamais, na história da Revolução Islâmica, um líder supremo foi desafiado como ocorreu neste fim de semana. Muitos no clero ainda não tomaram partido nesta briga. Compreender isso é compreender a chave do que ocorre no país. As ruas apenas refletem o que é, na verdade, um conflito interno do regime.

Como sairá desta crise o regime dos aiatolás? Se sair mais frágil ou instável, se sair mais paranóico, também sairá mais perigoso.

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