Liveblogging: O domingo no Irã

Irã · 14/06/2009 - 08h13 - 138 Comentários

18h30 – Sobre a história que publiquei às 13h15, uma mensagem do professor Milani: Não creio que as coisas tenham acontecido exatamente desta forma. Bem antes das 2h, quase que imediatamente após as urnas terem sido fechadas, já havia gente o declarando vencedor. É verdade que, durante a madrugada e no início do dia seguinte, muitos reformistas importantes foram presos. Alguns foram soltos pouco depois.

Nos comentários, o American Turkey já havia apontado o mesmo.

Essas histórias são sempre impossíveis de confirmar por inteiro. Em geral, vamos pelas beiradas: confirmando a prisão, por exemplo, ou os horários. Ainda não descobri se Kalantari estava entre os presos.

15h20 – Gente – é noite no Irã, em toda rede está contada a história do comício de Ahmadinejad, amanhã haverá uma marcha de Mousavi. Sua mulher falou mais cedo: eles vão resistir.

Tenho que correr atrás do discurso de Bibi Netaniahu em Israel, e preciso pegar o carro para voltar para o Rio. (Estou na serra.) Amanhã promete ser um dia agitado.

13h15 – Essa história me chegou por outra fonte. Essa pessoa ouviu de quem estava presente ao evento:

Representantes (entre eles, meu amigo) de todos os candidatos compareceram ao Ministério do Interior, logo após o fechamento das urnas, para acompanhar a apuração dos votos. Tudo ia muito bem até umas 2h da manhã. Nesse momento, Mousavi estava em primeiro, com 8 milhões de votos, Karroubi em segundo (ele disse não lembrar quantos votos) e o Ahmadinejad em terceiro, com 5 milhões. De repente, uma multidão de meganhas do “Etellad” (Ministério da Informação) adentrou o recinto, prendeu metade do pessoal que estava presente e expulsou o resto de dentro do prédio. Entre os presos, estaria o ex-ministro da Agricultura dos governos Rafsanjani e Khatami, o político reformista Issa Kalantari, que estava apoiando o Mousavi. Veja se você consegue confirmar essa história com uma de suas fontes. Se tiver algum fundamento, é uma boa pista.

Estou tentando confirmar ao menos algum dos detalhes, como por exemplo a prisão de Kalantari.

13h – Um amigo jornalista me escreve: As coisas estão loucas por aqui. Acabei de chegar da coletiva do Ahmadinejad, ele se anunciou ‘presidente de todos os iranianos’. Dois quilômetros à frente, em frente à Universidade de Teerã, caos. Milicianos armados e a polícia jogavam gás lacrimogêneo e batiam com bastões elétricos nos estudantes, que respondiam com pedras. Acho que estes não o consideram seu presidente.

Vários líderes reformistas, incluindo Mohammed Reza, o irmão do Khatami, foram presos ontem à noite. Ele foi solto, já, mas dúzias permanecem na prisão.

Acesso à Internet vai e vem, celulares funcionam e deixam de funcionar toda hora. Twitter, YouTube e Facebook estão inacessíveis há dois dias. No mais, tudo vai bem. Estou tentando trabalhar sem tomar uma cacetada da polícia.

12h50 – Mais um grão-aiatolá vem à frente: Yousef Sanei, reconhecido membro do clero reformista, declarou a presidência de Ahmadinejad ilegítima do ponto de vista religioso.

10h55 – Há uma nova carta circulando atribuída a Mousavi. Ele comunica que pediu oficialmente a anulação da eleição. Pede que os protestos continuem sem violência. Que as pessoas continuem a vestir verde. Ele se esforça para deixar claro que o objetivo não é mudança de regime mas impedir o que ele chama de trapaça.

10h40 – A experiente repórter Christian Amanpour perguntou a Ahmadinejad, durante a coletiva, se ele garantia a segurança de Mousavi. O presidente foi, voltou, enrolou, não respondeu.

9h55 – A carta de Mousavi traduzida para o português.

9h50 – Há uma linha de argumentação correndo a rede que vai assim: Ahmadinejad ganhou. Quem esperava uma vitória de Mousavi só olhou para a classe média alta de Teerã e achou que ali havia representatividade do voto popular. Juan Cole tem o contra-argumento melhor estruturado.

Em 1997, 70% da população votou no reformista Mohammad Khatami. Em 2000, os reformistas venceram as eleições parlamentares também por larga margem. Em 2001, Khatami recebeu 78% dos votos em sua reeleição. Em todas as eleições passadas os indícios são de que os conservadores tinham algo entre 20 e 25% dos votos no país. Há uma única exceção: o pleito que levou ao poder Mahmoud Ahmadinejad, em 2005.

Houve um contexto para aquela eleição. Os reformistas não conseguiram tocar nenhuma das reformas que a população queria, trazendo mais liberdades para os dois mais importantes grupos demográficos no Irã: jovens e mulheres. Havia desilusão. Houve boicote, um dos mais baixos índices de comparecimento às urnas. Ainda assim, Ahmadinejad só venceu apenas no segundo turno, numa disputa dura com Akbar Rasfanjani.

A história eleitoral do Irã em nada aponta para uma vitória acachapante de Ahmadinejad.

9h15 – A BBC informa que pelo menos 100 líderes oposicionistas, incluindo o irmão do ex-presidente Mohammad Khatami, estão presos por incitação à revolta.

Em entrevista coletiva à imprensa estrangeira, Mahmoud Ahmadinejad acusou os jornalistas de se recusarem a aceitar um resultado legítimo. “40 milhões participaram das eleições. Como vocês podem colocar em dúvida?” Um grande comício de vitória está programado para a tarde de hoje.

8h40 – Do Anônimo da Pérsia, nos comentários abaixo: Mousavi continua preso. Não vão deixar ele falar. Pau comendo solto nas imediações da Fatemi Square.

Corre a informação de que há um protesto marcado para a praça Vali-Asr, hoje, ao meio-dia. A campanha Mousavi pede que ninguém vá. Ele não estará lá. A polícia estará.

8h30 – Terei prazer em tê-los por aqui ao longo do dia. Mas, para quem lê inglês, há outras fontes de informação na rede. Os sites Tehran Bureau e niacINsight, por exemplo. Tanto o New York Times quanto o Huffington Post estão fazendo um liveblogging também. Apenas, no caso do HuffPost, atenção: tenho tomado, aqui, cuidado em explicar quando uma informação é segura e quando não é. Eles publicam um bocado do que lêem – e nem tudo que lemos na web é necessariamente verdadeiro. Não há maldade – é só que num mundo em que a informação foi suspensa, só sobram os boatos. Alguns são verdadeiros. Nem todos. Outro blogueiro acompanhando a agitação iraniana é Andrew Sullivan.

Mas uma das melhores fontes segue sendo o Twitter. As duas hashtags a acompanhar são #iranelection e #mousavi. Vale aqui, no entanto, a mesma ressalva: nem tudo é verdade. O Twitter oficial da campanha de Mousavi é o @mousavi1388. Com o sistema ao menos parcialmente suspenso dentro do Irã, no entanto, é difícil saber que está atualizando os microposts. Aparentemente, alguém de fora do país.

Ao longo do dia, manterei contato sempre que possível com meus amigos em Teerã e com o professor Milani. Se tudo der certo, teremos por aqui também o Anônimo da Pérsia.

8h10 – Bom dia.

Ao longo do dia de ontem, mesmo comentaristas que não se furtam à apologia eventual de Mahmoud Ahmadinejad – como Juan Cole e Robert Fisk – reconheceram que todos os indícios de fraude estão no ar. O primeiro passo para um Golpe de Estado é controlar o acesso do público e da oposição às fontes de informação. O desaparecimento ao longo de todo sábado dos principais líderes oposicionistas como o aiatolá Akbar Rafsanjani e os candidatos à presidência Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi indicam este curso.

A comunicação por texto via telefones celulares foi suspensa, no país, desde a noite da eleição. Redes sociais na internet foram sendo cortadas ao longo do dia. O próprio acesso à rede nos locais onde jornalistas estrangeiros se encontram foi cortado em vários momentos. A imprensa anti-Ahmadinejad foi pesadamente censurada.

Os iranianos foram arrancados do mundo – o aiatolá Ali Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad deram um golpe de Estado.

Informação vinda de dentro do Irã continua difícil de ser acessada. É um momento novo na Revolução Islâmica. Se há um padrão que os aiatolás sempre seguiram foi o de respeito às eleições que eles permitiam ocorrer. Os candidatos que podem disputar sempre foram filtrados, mas mesmo com cartas marcadas, o jogo tinha regras. É evidente, pelos protestos que ocorreram até o fim da madrugada nas principais cidades, que um bom naco do povo iraniano não reconhece a legitimidade das eleições. Em seu blog, Bruno Mota reforça a impressão de que os dados estatísticos apontam para uma fraude em larga escala. O fato de que Karroubi praticamente não teve votos em sua província natal e que Mousavi perdeu feio na sua reforçam a análise unânime entre todos os analistas.

O regime dos aiatolás, quando surpreso há alguns anos pela vitória estrondosa do moderado Mohammad Khatami, permitiu que ele assumisse o governo. Impediu quase todas suas reformas no parlamento, é verdade. Mas era um jogo de regras conhecidas com a aparência de democracia. Neste momento em que os EUA buscam o diálogo, em que o povo iraniano parecia querer colocar um moderado disposto a este mesmo diálogo na presidência, o núcleo duro do regime achou melhor não.

Nas ruas de Teerã, o povo grita ‘Morte ao Ditador’. É o grito da Revolução Islâmica de 1979. Era dirigido ao xá. Agora, é a Ahmadinejad. Mousavi, não custa lembrar, foi o primeiro premiê iraniano sob o aiatolá Khomeini. Ele era primeiro-ministro no tempo em que o aiatolá supremo atual foi presidente. Os dois têm uma longa história de desavenças, ambos sempre a serviço da Revolução. O racha é interno. A linha dura deu um golpe dentro do golpe.

Que ninguém espere uma revolta popular no estilo Rússia, em 1992, a que permitiu a Boris Yeltsin subir em cima dos tanques e assumir o controle do país. Os aiatolás têm total controle do aparato repressivo e dos meios de comunicação – os generais soviéticos não tinham mais. Khamenei e Ahmadinejad provavelmente sairão vitoriosos desta. Não quer dizer que não venha por aí um banho de sangue. Pode ocorrer. Será um dia tenso.

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