Liveblogging: Fraude no Irã

Irã · 13/06/2009 - 05h27 - 230 Comentários

22h50 – Informação do Twitter oficial de Mousavi: Povo iraniano: Mousavi não os abandonou, ele está em prisão domiciliar impetrada pelo Ministério da Inteligência.

Quando o líder da oposição é preso, já não dá para chamar mais nem de meia democracia. O Golpe de Estado é oficial.

22h25 – Vários blogs e gente no Twitter informam que Mousavi, o segundo candidato oposicionista Mehdi Karroubi e o ex-prefeito de Teerã Gholamhossein Karbaschi foram presos. Não custa lembrar: as notícias, segundo me informam de Teerã, são difíceis de confirmar mesmo de lá. Boatos correm a cidade. E os protestos continuam noite adentro:

20h35 – Mousavi não é o único candidato que acusa fraude eleitoral. Mehdi Karoubi está a seu lado, e sua campanha está se comunicando com quem tem acesso à Internet via Twitter. Dois twits traduzidos (via New York Times):

O grupo de Karoubi acredita que se ninguém resistir agora, os políticos nunca mais poderam contar com qualquer apoio do povo.

Tomar decisões é difícil, estamos numa situação difícil, qualquer protesto deve ser cuidadosamente calculado.

20h30 – A Wikipedia está listando o 13 de junho em sua página de Golpes de Estado.

O site Tehran Bureau apresenta uma carta que informa ser a tradução para o inglês de uma carta de Mir Hossein Mousavi à população. Trecho: Aproveito esta oportunidade para fazer honra às emoções da nação iraniana e lembrar a todos que o Irã, este ente sagrado, pertence ao povo, não aos fraudadores. Fiquem alertas. Os traidores dos votos da nação não temem se esta Casa Persa arder em chamas. Nós continuaremos com nossa onda verde de racionalidade inspirada pelos ensinos religiosos e nosso amor pelo profeta Maomé. Vamos enfrentar as mentiras que mancham a imagem da nação.

Se a carta for confirmada, a intenção é de resistir.

18h10 – O estatístico Nate Silver, que cobriu brilhantemente as eleições dos EUA e acertou todas suas previsões, analisou os números do gráfico a respeito das eleições no Irã. Ele acha que tais números não provam nada. Nem que houve fraude, nem o contrário.

Em seu blog, por outro lado, o professor Juan Cole, especialista em xiismo, vê outros indícios de fraude. Mir Hossein Mousavi, oficialmente, perdeu até em sua província natal, onde seus comícios foram intensos. Ahmadinejad recebeu mais de 50% dos votos em Teerã – onde ele não tem essa popularidade. Mehdi Karoubi, o terceiro colocado, também teria ido muito mal em sua província natal. Ahmadinejad venceu por mais ou menos o mesmo percentual em todas as províncias. E o governo, por praxe, costuma esperar três dias para validar as eleições. Sempre espera que quem tem dúvidas quanto aos resultados venha à frente manifestá-las. Desta vez, não: apressaram-se todos.

17h45 – Anônimo da Pérsia: obrigado pelos updates =)

17h40 – Um grupo de funcionários do Ministério do Interior, que tem a responsabilidade de supervisionar as eleições, em carta aberta: como funcionários dedicados, com experiência na gerência e supervisão de várias eleições como as que levaram ao poder Khamenei, Rafsanjani e Khatami, anunciamos nossa impressão de que a décima eleição presidencial não foi correta.

16h20 – Aos matemáticos de plantão, mais uma explicação a respeito dos votos. Dar um parecer definitivo a respeito deste gráfico está além das minhas capacidades… mas, ao menos, esta versão é em inglês. Vou puxar aqui pra cima a análise de quem desejar fazê-la.

16h13 – Do Anônimo da Pérsia, nos comentários: Acabo de voltar das ruas, onde passei por mais de três horas. O norte de Teerã está virado numa praça de guerra. Várias barricadas nas ruas e jovens enfrentando a polícia com pedras e coquetéis molotov. Vi pelo menos um carro incendiado. Dezenas de caçambas de lixo incendiadas. Bancos, lojas, estações de ônibus, sinais de trânsito e telefones públicos depredados por todo lado.

16h05 – Ponham dúvidas na história aí embaixo de que Mousavi foi preso. Ele não apareceu em público, ainda, mas segundo o professor Milani – meu analista preferido – o site que originou a notícia não é confiável e ninguém mais confirma a informação.

15h10 – Mousavi preso! Ele estava a caminho da casa do aiatolá Khamenei. Há notícias ainda não confirmadas de que Rafsanjani renunciou a todos seus cargos. Atenção: todas informações a confirmar. Há caos em Teerã.

15h05 – As ruas de Tabriz e Urmiye estão ocupadas por protestos, assim como as de Teerã. Há notícias de que alguns aiatolás pediram que as eleições sejam anuladas, mas meus links a este respeito são em persa. Estou buscando quem me dê notícias. Se for verdade, será a primeira vez que o clero desafia frontalmente o aiatolá supremo desde a revolução de 1978.

Cantos nas ruas: “Morte ao ditador, Morte a Ahmadinejad”

14h15 – A telefonia celular acaba de ser cortada em Teerã. Ninguém fala ao telefone na capital

14h06 – O que gritam as pessoas que protestam no Irã? “Onde está meu voto?”

14h05 – A internet, alimentada por cidadãos iranianos que conseguem driblar o bloqueio imposto à rede no país, apresenta uma cobertura melhor sobre os protestos nas ruas do país do que a grande imprensa. Aqui, fotos no Flickr.

13h40 –focos de incêndio por toda capital, enquanto manifestantes pró-Mousavi lançam fogo em pneus nas ruas.

13h35 – Como se faz uma fraude: o gráfico compilado por iranianos mostra como a diferença entre Ahmadinejad e Mousavi se mostrou constante durante todo o processo de apuração dos votos. O presidente jamais foi um pouco à frente em uma região, nem Mousavi jamais piorou um pouco. Não. A milagrosa uniformidade matemática.

13h30: Nas ruas de Teerã, ainda há pouco. (O verde é a cor da campanha Mousavi.)

13h20 – Tem um tipo de gente que não entendo. Quando a polícia invade a USP e desce o cacete nos estudantes, acham um absurdo. E é mesmo. Mas quando as universidades do Irã são fechadas, todas as redes sociais da internet censuradas, SMS bloqueado, imprensa de oposição suspensa e a polícia desce o cacete nos estudantes que tinham esperanças de mais liberdade, no Irã, aí é a polícia que está certa. Lógica impecável.

12h40 – O aiatolá Ali Khamenei foi à televisão iraniana dizer que a eleição de Ahmadinejad foi ‘intervenção divina’. Talvez. Todos esperavam uma entrevista coletiva do candidato derrotado Mir Hossein Mousavi. Ele não apareceu e policiais informaram que a coletiva não ocorreria. Ninguém sabe onde está Mousavi. Assim como ninguém sabe onde está seu principal apoiador, o aiatolá Akbar Rafsanjani.

A informação é de que estão ambos reunidos para planejar um contra-ataque político.

Neste exato momento, metade do Estado iraniano já apoiou o resultado da eleição: Khamenei e o Conselho dos Guardiães. Mas os dois importantes conselhos liderados por Rafsanjani permanecem em total silêncio.

Rafsanjani, o segundo homem mais poderoso do país, tem duas escolhas. Se decidir enfrentar a fraude, terá de bater de frente com o aiatolá Khamenei. Neste momento, o regime iraniano terá rachado. Rafsanjani tem apoio no clero. A dúvida é: será apoio suficiente para se bater com o Guardião da Lei Islâmica, senhor supremo, Ali Khamenei? Talvez não. Mas não custa lembrar: Khamenei não inspira o respeito que seu antecessor, Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, inspirava. Em um dos comentários abaixo, o Anônimo da Pérsia designou Rafsanjani a um ‘José Sarney iraniano’. É uma ótima comparação porque, entre outras, mostra sua habilidade de permanecer no poder. É uma raposa política.

Nas ruas, segundo a correspondente do jornal espanhol El País, as pessoas encontram dificuldades de enviar SMSs, suspensos ao menos parcialmente pelo governo para evitar organização de protestos.

Também nas ruas, a repórter da Newsweek apanhou da polícia enquanto tentava acompanhar uma marcha até o comitê eleitoral de Mousavi. Perto dela, um rapaz sangrava.

7h30 – As universidades do Irã foram fechadas e os exames, suspensos. Todas reuniões públicas nas ruas estão proibidas até que o resultado oficial das eleições seja anunciado. Durante a madrugada, a polícia dissipou o início de agrupamento de militantes em frente ao comitê de Mousavi. A milícia islâmica-conservadora Basij, fundada pelo aiatolá Khomeini, ocupou tanto o prédio do Ministério do Interior, que fiscaliza as eleições, quanto o comitê de Mousavi.

5h27 – Os indícios começam a confirmar que o grupo de Mahmoud Ahmadinejad promoveu uma fraude eleitoral de larga escala nas eleições de ontem.

Troquei emails ao longo da madrugada com Abbas Milani, analista iraniano. Seu comentário: Com exceção dos sites próximos a Ahmadinejad, todos falam de irregularidades maciças. O grupo do presidente anunciou sua eleição muito antes de a contagem de votos poder determinar qualquer coisa próxima disso. Eles decidiram garantir a eleição com uma vitória atordoante, deixando a oposição com duas únicas opções: ou partir para o racha, acusando a fraude frontalmente, ou se encolher. É um dia negro para o Irã.

Outra fonte com quem troquei mensagens está no Irã, mas por motivos profissionais pede para que não publique seu nome. Estão todos chocados nas ruas. Um assessor de Mousavi chamou o resultado de um ‘golpe de estado eleitoral’. O grupo de Mousavi diz que o órgão responsável pelas eleições espelhou os resultados, apresentando os números de Mousavi como os de Ahmadinejad e vice-versa. Mousavi falará à imprensa logo mais, vamos ver o que acontece.

Nos comentários do post abaixo, nosso informante local, Anônimo da Pérsia, diz que a conversa sobre fraude já ocupa as ruas de Teerã, mas o clima está calmo. Ainda é preciso esperar para ver se a oposição decidirá por uma escalada do conflito interno descrito no post abaixo ou se deixará passar.

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