A vitória de Ahmadinejad
Números atualizados às 5h – A se confirmar os resultados oficiais, os conservadores liderados por Mahmoud Ahmadinejad venceram por larga margem a disputa contra o progressista Mir Hosssain Mousavi, no Irã. Com 77% das cédulas contadas, Ahmadinejad tem 65,24% dos votos. Nas contas iniciais, 70% dos eleitores foram às urnas, uma participação recorde.
O resultado contraria todas as análises, seja de estrangeiros, seja de iranianos. O país estava rachado, todos pareciam concordar – e os candidatos, em seus debates televisionados, fizeram questão de marcar a polarização. O interior conservador, religioso e pobre, fechado com Ahmadinejad. Os centros urbanos, de maioria jovem, da classe média esmagada por uma das maiores inflações do mundo, se alinhou com Mousavi.
A política do Irã, não custa lembrar, vai para além dos estereótipos. O homem mais poderoso do país não é o presidente – é o Velayat-e-Faghi, o Guardião da Lei Islâmica que foi o aiatolá Ruhollah Khomeini e hoje é Ali Khamenei.
O presidente tampouco é o segundo mais poderoso. Este, hoje, é o aiatolá Akbar Rafsanjani, que ocupa dois dos cargos mais influentes da República. Rafsanjani é presidente da Assembléia de Especialistas, que elege o Velayat-e-Faghi e tem a missão de supervisionar as decisões do líder. Ele também preside o Conselho de Discernimento, órgão que paira sobre os três poderes. Em teoria, o Conselho pode anular quaisquer decisões do Parlamento e mesmo do presidente.
Por trás da briga Ahmadinejad e Mousavi, existe uma briga entre Khamenei e Rafsanjani. Alguns descrevem a disputa como uma disputa religiosa. Khamenei defende uma visão mais restrita do Islã, Rafsanjani é um político mais pragmático. Rafsanjani lidera também uma das famílias mais ricas do país – rica, sim, enriquecida durante a Revolução. É uma família mafiosa e corrupta. E, sim, pragmática. Ainda assim, boa parte dos teólogos de Qom, a cidade seminário de onde veio Khomeini, tem se posto ao lado de Mousavi e seu padrinho, Rafsanjani. Eles temem que o populismo de Ahmadinejad, seu ultra-conservadorismo nos costumes e a incompetência econômica alienem a tal ponto a classe média urbana que o regime não resista. Apostar em Rafsanjani e Mousavi, portanto, é uma aposta do clero na sobrevivência do regime.
Khamenei, o aiatolá supremo, evidentemente não concorda.
Se Ahmadinejad não é pessoalmente corrupto – e não é – seu governo foi. Não apenas emplacou o braço mais corrupto da Guarda Republicana, como trata as coisas do governo com displicência. Até dois meses atrás, o homem responsável por tocar as eleições, Mojtaba Samareh-Hashemi, era também seu chefe de campanha. Não ocorreu a ninguém que os dois cargos eram evidentemente incompatíveis. Quando deixou o governo para se dedicar à campanha exclusivamente, o fez porque as ruas pareciam estar se agitando em nome de Mousavi. Era preciso se dedicar exclusivamente.
Deu certo? Mousavi ainda está calado. Mas já reclamou que faltaram cédulas, que seus fiscais não tiveram acesso a várias sessões, que eleitores não conseguiram votar. Flórida 2000 versão iraniana? Ou uma vitória limpa de Ahmadinejad? Os próximos dias serão interessantes.
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Provavelmente, fraude. De qualquer modo, eleição no Irã é teatro para ocidentais, quem manda sempre são os mulás. “Reformistas”, bobagem.
Até acho melhor a vitória do Amadinehjad, assim como prefiro o Hamas ao Fatah. Ao menos são mais honestos e dizem realmente o que pensam, ao contrário dos equivocadores “moderados”.
Parece que , uma vez mais, o ocidente entendeu o que quis dos números pré-eleitorais. E/ou que a tal onda jovem não era tão renovadora assim. Ou talvez que não tenha visto renovação suficiente no Mousavi. Com toda a falta de transparência no processo eleitoral , não vejo muito espaço para uma megafraude nessa altura do campeonato.
E pra não perder a visita: do jeito que estão as coisas em Brasília, talvez fosse o caso de importar a idéia de um Conselho de discernimento,não ?
Para mim, pareceu bem natural…
Eu não sei como é a demografia iraniana, mas duvido que hája mais gente na classe média que nas classes mais baixas. Se Ahmadinejad tem mais apelo entre os pobres, é natural que ganhe. Claro, ele pode ter mais apelo mas não ter o suficiente e tal, mas o simples fato de se anunciar uma eleição tão concorrida já daria a entender que ele ganharia, eu acho.
De qualquer forma, acho que quem acertou a aposta - mesmo não a tendo feito - foi Gustavo Chacra, e com uma teoria bem curiosa.
Ahmadinejad deveria, no seu discurso de “”vitória”", agradecer especialmente ao bush e, fundamentalmente, a israel, que lhe deram esta eleição de bandeija - em especial após aquele massacre cometido contra os palestinos na faixa de gaza.
nunca entendi a posição do bush quanto ao irão.. quando tinha aquele presidente moderado, aberto ao diálogo com o mundo ocidental…. o mesmo não recebeu nenhum apoio dos países ocidentais, e ainda recebeu o belo incentivo de “eixo do mal”. simplesmente não dá para entender.. será que convêm a israel e aos estados unidos ter um lunático na presidência iraniana? porque na minha opinião eles fazem o seu jogo.
o interior e a faixa mais pobre do eleitoral votam no bush, no Ahmadinejad … e no lula também, claro! nada como pousar de amigo do povo e inimigo das elites.
ué otávio! e a vitória de Obama? E seu discurso de paz e amor no Cairo? Não adiantou?
ah claro, tudo é culpa de BUSH e de ISRAEL.
Suspiros…
O Moussavi já foi chorar as pitangas para o Khamenei, pedindo a recontagem dos votos. Todo mundo aqui em Teerã está falando em fraude, mas está tudo calmo na rua. Vários sites foram bloqueados, inclusive o da BBC.
pimentel, analistas do ocidente erram com frequência, sim. Mas, neste caso, deu tudo ao contrário do que os analistas iranianos estavam imaginando.
dev/nul: 68% da população é urbana, 77% da população é alfabetizada, a idade média é de 27 anos, segundo o índice GINI a distribuição de renda do Irã leva 44.5 pontos. É uma distribuição mais justa do que a do Brasil (56.7) e equivalente à dos EUA, que está ligeiramente atrás (45). A demografia grita Moussavi.
Logo de saída já arrumaram o mesmo culpado: Israel agora é responsável pela política do Irã.
Hussein está fazendo um belo serviço na Casa Branca e vai voltar sua ira contra Israel e os judeus que são bode expiatório desde a época da inquisição.
Parabéns ao governo americano e ao governo iraquiano, que tentem celebrar uma paz contínua entre esses dois países. E o resto do mundo que se dane, principalmente Israel, que terá que conviver com o Irã dando armas ao Hamas e ao Hezbollah e ainda por cima aguentar a pressão de Hussein pela divisão de Jerusalém e pelo Estado Palestino, financiando tudo e recebendo pedras e mísseis em troca.
“Parabéns ao governo americano e ao governo iraquiano, que tentem celebrar uma paz contínua entre esses dois países. E o resto do mundo que se dane, principalmente Israel, que terá que conviver com o Irã dando armas ao Hamas e ao Hezbollah e ainda por cima aguentar a pressão de Hussein pela divisão de Jerusalém e pelo Estado Palestino, financiando tudo e recebendo pedras e mísseis em troca.”
Eis aí um verdadeiro samba do crioulo doido, só falta colocar uma musiquinha e a batucada.
Eu acho que no fundo o que havia mesmo era uma tremenda torcida contra Ahmadinejad e agora a torcida contra vai ter que engolir o homem, o que é realmente duro.
Por mais que os jornalões tentem demonizar certas pessoas, a grande maioria não cai mais nessas furadas.
PD, #7, eu não suspeitava disso. Obrigado pelas informações :)
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