A vitória de Ahmadinejad

Irã · 13/06/2009 - 00h01 - 11 Comentários

Números atualizados às 5h – A se confirmar os resultados oficiais, os conservadores liderados por Mahmoud Ahmadinejad venceram por larga margem a disputa contra o progressista Mir Hosssain Mousavi, no Irã. Com 77% das cédulas contadas, Ahmadinejad tem 65,24% dos votos. Nas contas iniciais, 70% dos eleitores foram às urnas, uma participação recorde.

O resultado contraria todas as análises, seja de estrangeiros, seja de iranianos. O país estava rachado, todos pareciam concordar – e os candidatos, em seus debates televisionados, fizeram questão de marcar a polarização. O interior conservador, religioso e pobre, fechado com Ahmadinejad. Os centros urbanos, de maioria jovem, da classe média esmagada por uma das maiores inflações do mundo, se alinhou com Mousavi.

A política do Irã, não custa lembrar, vai para além dos estereótipos. O homem mais poderoso do país não é o presidente – é o Velayat-e-Faghi, o Guardião da Lei Islâmica que foi o aiatolá Ruhollah Khomeini e hoje é Ali Khamenei.

O presidente tampouco é o segundo mais poderoso. Este, hoje, é o aiatolá Akbar Rafsanjani, que ocupa dois dos cargos mais influentes da República. Rafsanjani é presidente da Assembléia de Especialistas, que elege o Velayat-e-Faghi e tem a missão de supervisionar as decisões do líder. Ele também preside o Conselho de Discernimento, órgão que paira sobre os três poderes. Em teoria, o Conselho pode anular quaisquer decisões do Parlamento e mesmo do presidente.

Por trás da briga Ahmadinejad e Mousavi, existe uma briga entre Khamenei e Rafsanjani. Alguns descrevem a disputa como uma disputa religiosa. Khamenei defende uma visão mais restrita do Islã, Rafsanjani é um político mais pragmático. Rafsanjani lidera também uma das famílias mais ricas do país – rica, sim, enriquecida durante a Revolução. É uma família mafiosa e corrupta. E, sim, pragmática. Ainda assim, boa parte dos teólogos de Qom, a cidade seminário de onde veio Khomeini, tem se posto ao lado de Mousavi e seu padrinho, Rafsanjani. Eles temem que o populismo de Ahmadinejad, seu ultra-conservadorismo nos costumes e a incompetência econômica alienem a tal ponto a classe média urbana que o regime não resista. Apostar em Rafsanjani e Mousavi, portanto, é uma aposta do clero na sobrevivência do regime.

Khamenei, o aiatolá supremo, evidentemente não concorda.

Se Ahmadinejad não é pessoalmente corrupto – e não é – seu governo foi. Não apenas emplacou o braço mais corrupto da Guarda Republicana, como trata as coisas do governo com displicência. Até dois meses atrás, o homem responsável por tocar as eleições, Mojtaba Samareh-Hashemi, era também seu chefe de campanha. Não ocorreu a ninguém que os dois cargos eram evidentemente incompatíveis. Quando deixou o governo para se dedicar à campanha exclusivamente, o fez porque as ruas pareciam estar se agitando em nome de Mousavi. Era preciso se dedicar exclusivamente.

Deu certo? Mousavi ainda está calado. Mas já reclamou que faltaram cédulas, que seus fiscais não tiveram acesso a várias sessões, que eleitores não conseguiram votar. Flórida 2000 versão iraniana? Ou uma vitória limpa de Ahmadinejad? Os próximos dias serão interessantes.

Ainda sobre o assunto:

  1. A coragem de Khamenei,
    a ausência de Ahmadinejad
    Publiquei uma informação errada por aqui, ontem: Ahmadinejad não está mais na Rússia, voltou ao Irã na terça-feira à noite....
  2. Ahmadinejad é presidente. Por ora. Pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, um presidente do Irã tomou posse, ontem, sem que a cerimônia fosse veiculada...
  3. Ahmadinejad parte para a briga
    mas Rafsanjani provocou
    O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ameaça revelar os nomes dos ‘traidores internos’ de seu país. Ele considera, disse em discurso...
  4. O futuro incerto de Ahmadinejad Está hoje, no caderno Aliás do Estadão versão papel, a entrevista que fiz com o professor Abbas Milani sobre as...
  5. E começou a dança das cadeiras no Irã:
    Khatami, Mousavi, Karroubi, Ahmadinejad
    Se política às vezes consegue ser bem complicado numa democracia, no Irã é bem pior. A essas alturas, é quase...