As eleições no Irã, as do Líbano
Ontem à noite, na tevê iraniana, o presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou seus adversários de estarem em conluio com os israelenses para falsificar documentos que o denigrem. É uma delícia a política do Irã. Nas ruas, a população está aparecendo em peso para votar.
Ninguém de fora realmente sabe quais as chances de quem. No coração do governo, os políticos têm pesquisas à mão. Há dois meses, tive acesso a uma delas, que indicava o início do crescimento da candidatura de Mir Hosssain Mousavi. Foi por aquela pesquisa, mostrando que a eleição prometia ser mais difícil, que Ahmadinejad decidiu não ir ao Brasil e se dedicar à campanha.
O Irã está polarizado. Nos centros urbanos, principalmente entre os jovens e as mulheres, Mousavi é popular. Sua mulher, uma acadêmica com carreira notável, lembra todo espaço que Ahmadinejad negou às mulheres do país. Na zona rural e entre os mais pobres, é diferente. É entre os ‘descalços’ – versão ahmadinejadesca dos ‘descamisados’ – que ele encontra mais apoio.
No total, quatro homens disputam a eleição. Para que não haja segundo turno, um deles precisa levar mais do que 50% dos votos.
A eleição no Irã não está descolada da região, como não esteve a eleição no Líbano. A agressiva política externa de Ahmadinejad procurou estender a influência do país no Oriente Médio, e dentre suas táticas esteve o financiamento do Hizbolá libanês.
Que ninguém tenha dúvidas: se o Hizbolá tinha dinheiro iraniano, a oposição se elegeu com dinheiro saudita. O Irã é inimigo de Israel, mas também de todas as ditaduras árabes sunitas da região. Num país de maioria xiita, o Hizbolá permanece com muito poder e tem, ainda, um exército particular mais poderoso que o do país. É capaz de ocupar boa parte da capital, Beirute, quando desejar.
Entre xiitas, sunitas e drusos, o pêndulo que decide as eleições libanesas é a comunidade cristã, em sua maioria católicos maronitas. Se os cristãos se voltaram contra os xiitas do Hizbolá, no último pleito, provavelmente foi por cansaço da pancadaria. Não é lá muito divertido viver num país em que um dos principais partidos políticos acha por bem fazer demonstrações de força a toda hora.
O Hizbolá derrotado não nega que as eleições tenham sido democráticas e a oposição não nega ao Hizbolá seu tamanho. A Síria – que com frequência se mete na política interna do vizinho explodindo primeiros-ministros ou invadindo o país – anda quieta. Só a especulação pode dizer o quando o discurso de Barack Obama aos jovens islâmicos não devia estar ressoando na cabeça dos eleitores libaneses quando decidiram votar em políticos que falam num tom baixo de voz sem apelar às armas.
O discurso de Obama não foi feito pra tevê – longo, foi produzido para o YouTube, e versões em árabe e persa já circulam online. O quanto não estarão ecoando também nas cabeças dos eleitores iranianos hoje?
Há, sim, medo de fraudes. O aiatolá Ali Khamenei, no início do pleito, se mostrou francamente favorável à eleição de Ahmadinejad. Nas últimas semanas, vem se mostrando mais comedido. Será um dia emocionante.
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“…É entre os ‘descalços’ – versão ahmadinejadesca dos ‘descamisados’ – que ele encontra mais apoio. …”
Já conheço essa estória e no quê ele pode dar.
Vai um ‘bolsa-qualquer coisa’ aí chefia ?!?!?!?
Suponhamos que Hosssain Mousavi vença e de fato seja um político progressista e disposto a fazer reformas, democratizar mais o país etc. Ele teria espaço e condições para isso dentro de um Estado teológico como o Irã?
Antonio M: não. O Khatami tentou e não teve. Mas ele pode vir a ter mais espaço do que o Khatami teve.
Essa é uma discussão longa… o Abbas Milani me explicou bem numa entrevista que fiz com ele.
O candidato reformista vencendo consolidará a idéia de que a sociedade quer mudanças.
Daí o regime, que “funciona como uma família mafiosa … [que controla] um negócio que vale US$70 bilhões por ano”, concederá uma ou outra abertura para permitir alguma catarse, sem, contudo, tocar em nada fundamental.
Emtrega-se os anéis blá, blá, blá …
Mas, às vezes, ninguém sabe onde essas reformas podem ir.
Gorbachev que o diga.
Uma dúvidas para entender onde essa eleição pode parar: quando Ali Khamenei se aposenta? Tem uma data marcada para ele deixar o poder?
Paulo Roberto Silva: Aposentadoria? Ele deixa o poder quando Alá o levar…
O cargo do Khamenei é vitalício? Então se o vencedor for um reformista ele terá que torcer para que Alah o leve logo. E que tudo pareça um acidente.
é difícil avaliar o peso do discurso do Obama. Não se pode mitificá-lo e conferir ao Obama uma papel demiugico como o homem que mudou o oriente médio apenas com as palavras. Quem sabe a onda da esquerda da América do Sul, que chegou aos Eua com o Obama não chegará também ao Irã. Tomara.
Pelo perfil do eleitorado do Irã, Jorge, é difícil saber qual é a onda de esquerda neste caso.
intensa participaçao dos eleitores iranianos…longas filas e muito “dedo verde” ( o carimbo de “votou” )
Ei, Confetti, te mandei um email com fotos do Simon… vc recebeu ?
( oui chéri, vou responder ! ))
O clima aqui em Teerã está meio pesado. O ex-presidente Rafsanjani (a versão local do Sarney) está furioso com o Ahmadinejad. Foi ter uma conversa com o Khamenei no melhor estilo “I will make you an offer you can`t refuse”. O cargo do Khamenei é vitalício, mas o Rafsanjani é o presidente de um conselho ( o “Hobregan”) que teoricamente pode destituí-lo.
anonimo !! vc ta from inside ? conta mais…))
A questão da sucessão do Khamenei vai ser um abacaxi monumental. Não há muitos candidatos para substituí-lo. A geração dos clérigos que fez a Revolução em 1979 está envelhecendo e não há sinais de renovação dos quadros. Há vários boatos de que o Khamenei está câncer; o sujeito já foi vítima de um violento atentado à bomba e é realista afirmar que ele deve ter, no máximo, mais uns 15 anos pela frente. Depois que ele esticar as canelas, só Alá sabe…
Grande Anônimo, essas informações são super válidas para nós
O Khamenei deve reconhecer o que diz o Alcorão sobre a morte. Ela já está marcada por Alá. Se não é seu diz de morrer, mesmo que tentem, não conseguirão. Se é, você pode morrer em casa. Por isso Muhamad exortava os muslimes a não fugirem do confronto.
Minha aposta: no que depender dele, Khamenei vai ficar no cargo até morrer.
A eleição está transcorrendo num clima tranqüilo. Uma porrada de gente nas filas de votação, mas sem incidentes. Realmente não dá para saber quem vai ganhar. Os debates na televisão foram sensacionais e rolou a maior baixaria.
Allah-la-ô, ô ô ô, ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô, ô ô ô (bis)
Atravessamos o deserto do Sahara
O sol estava quente, queimou a nossa cara
Viemos do Egito / E muitas vezes nós tivemos que rezar
Allah-Allah-Allah, meu bom Allah
Mande água pra Ioiô / Mande água pra Iaiá
Allah, meu bom Allah
Meu bom Alá é ?!?!?! Vamos ver…..
O grande problema agora é que, com a polarização dessa eleição, qualquer candidato que ganhar, vai gerar uma enorme frustração nos eleitores do outro lado. Quando sair o resultado final, o pau provavelmente vai comer.
Anônimo, como estão as forças armadas? Pergunto porque historicamente, quando os militares se dividem a situação fica imprevisível.
Pedro, meu caro,
você e uma boa parte dos analistas costumam afirmar que a truculência israelense e americana só gera mais radicalismo. Declararam a vitória do Nasrallah contra Israel baseados, principalmente, na ideia de que ao sobreviver ele se tornara o cara mais popular a oeste de Bagda. Mas Israel vem baseando sua estrategia (se é que dá para chamar os líderes israelenses de estrategistas…) numa outra ideia: vamos dar uma peba tão forte nesses caras que os moderados vão pensar duas vezes antes de apoiá-los. Foi o que fizeram no Líbano, foi o que fizeram em Gaza.
Agora vem cá: qdo vc diz que os maronitas se cansaram da truculência do Hizbullah, não está referendando a tese israelense? O que vc acha que influenciou mais o voto anti-Hizbullah: ouvir o discurso do Obama ou ter tomado bomba na cabeça em 2006 e depois lembrado da verdadeira face do Nasrallah no glorioso março de 2008?
melhor eleger logo hossein moussavi, pra sucessao eles verao depois ! se “o gigante” cair, fabinho vai ter piripaque ! kkk*
anonimo, a geraçao “3 K ” nao vai ficar frustrada se ahmadinej sair…
As Forças Regulares não dão um pio. São muito disciplinadas. No caso da Guarda Revolucionária, a situação é mais complicada, pois estão com vários interesses em jogo. Um dos comandantes deu declarações insinuando que a “onda verde” (a campanha do Moussavi) poderia desestabilizar o país. Mas não podemos esquecer que um dos candidatos que se opõe ao Ahmadinejad, o Rezaei, foi o fundador da Guarda e seu comandante por dezesseis anos.
eu acho que os iranianos deve mudar para evitar uma guerra nuclear e haver um dialogo com toda diplomacia mundial
ontem eu comentei isso :
” Confetti* // 11/June/2009 às 9:44
ontem, passeatas monstro em teheran…
a geraçao K ( nascido sob khomeyni, educados sob khamenei, eleitores de khatami em 97 ) mobilizada por intenso desejo de mudanças, arrisca eleger mir hossein moussavi e suas promessas de reforma! se isso acontecer amanha, ja sera uma pequena vitoria pra mister obama….”
Sim, Anônimo, a Guarda Revolucionária é a maior fornecedora de bens e serviços do Estado iraniano. Contudo, a minha preocupação é: se houver um levante, os militares atiram para matar, ou vai ter tropa fazendo de conta que não vê nada?
Veja: quando o Milosevic caiu, as passeatas invadiram o palácio do governo e ninguém deu um tiro sequer. Quando os monges budistas se levantaram em Myanmar, as forças armadas permaneceram unidas contra eles. No Irã, como seria?
Aliás, lembro de um amigo que dizia nos meus tempos de militância: “Lembre-se que o Brizola dividiu o exército brasileiro uma vez, coisa que o PT nunca fez”.
( rw #11, recebeu minha resposta ? vai responder quando ? kk*)
Os estadunidenses acreditam no Capitão América e no Homem Aranha, acham que a “América” (ou seja, os EUA) é perfeita, que eles invejados por todos por serem perfeitos e têm não apenas a missão mas o direito divino de intervir em todo o mundo . Muitos brasileiros, por simples deslumbramento, parecem acreditar nisso também.
Mas o pessoal do Oriente Médio passa longe de toda essa baboseira. Por quê? Porque lá eles vivem a realidade, e a realidade é trágica e assassina quando o interesse dos poderosos do capitalismo entra em choque com os povos que querem apenas viver suas vidas em paz, da forma e da maneira que escolherem.
Por isso todo mundo no Oriente Médio, inclusive em Israel, sabe que o discurso de Obama é apenas um discurso. Ou seja, papo furado. É engraçado ver o partido democrata estadunidense ser aqui classificado de esquerda, quando é a própria esquerda estadunidense quem o rejeita explicitamente como seu representante. Não há qualquer diferença ideológica entre democratas e republicanos, há diferença de métodos eleitoreiros, que muitas vezes se invertem em suas características.
Por isso os EUA não sairão do Iraque, onde o “primeiro-ministro” Maliki já desponta como um novo ditador militar, ou seja, os EUA apenas criaram um novo Saddam, e agora não podem sair de lá, não sairão. Os EUA de Obama mantêm a mesma política errada frente ao Afeganistão, mandando mais homens e mais morte para lá; ainda assim o general Patraeus diz que nunca a coisa esteve tão feia. Ou seja, os estadunidenses vão sair de lá exatamente como saíram do Vietnã (antes sairão os “aliados” da Otan, que a crise já está levando os desempregados da Europa a questionar por que seus governos gastam fortunas numa guerra que não é deles). Por fim, Israel não deu a menor bola para os recados de Obama, continua e continuará rejeitando a existência de um estado palestino (já que apenas rejeitar a existência de um estado judeu é considerado absurdo pelo ocidente). Obama se elegeu pela derrocada econômica que o energúmeno Bushinho não soube evitar – mais nada.
Os resultados das eleições no Líbano não surpreenderam ninguém. Faz tempo que os cristãos da Forças Libaneses entraram em acordo com o Hizbolá. O Hizbolá percebeu que é melhor para ele não ser governo, pois teria de abrigar todas as outras tendências islâmicas. Os cristãos perceberam que, por terem feito o jogo sujo para Israel anteriormente, nem por isso deixaram de ser alvo de Israel na última invasão, ou seja, Israel só é aliada de si mesma. Não podemos saber se a situação no Líbano atravessará agora um período de estabilidade, tantas são as pressões em jogo, inclusive por parte dos EUA. Mas uma coisa é fácil de saber: os discursos bonitinhos de Obama não enganam ninguém por lá.
Quanto ao Irã, é melhor esperar o resultado do que fazer previsões baseado apenas no que sai nos jornais, os mesmos jornais que costumam aclamar as “eleições” do Iraque e do Afeganistão como democráticas e chamar o Irã de ditadura. Engraçado, para uma ditadura, a disputa eleitoral no Irã está mais disputada do que, digamos, uma eleição na Flórida ou em Ohio.
Quero crer que o opositor ganha a eleição.
Seria uma mão na roda para todos e a condição ideal para Obama criar o caldo de cultura para a aproximação definitiva com o Irã.
AdP: “O ex-presidente Rafsanjani (a versão local do Sarney) [...] ”
Esta é a melhor definição do Rafsanjani que eu já li! Muito bom!
[...] de Teerã, na caixa de comentários do post abaixo, o Anônimo da Pérsia está comentando o dia da eleição e o futuro da complexa [...]
Paulo Fernandes, análise errada, desculpe.
O ataque de Israel ao Líbano triplicou a força interna do Hizbolá. Mesmo após esta derrota, ele ainda é mais poderoso do que era antes da guerra.
Bruno Mota tem toda razão ao elogiar o comentário do Anônimo da Pérsia… o Rafsanjani é exatamente o Zé Sarney de lá.
E está fazendo de tudo e mais um pouco para ser o sucessor do Khamenei. Ele gostaria muuuuito. E é, do ponto de vista formal, o segundo sujeito mais poderoso do país. Mais que o presidente.
+ como disse no post acima, Ahmadinejad está no pódio…
O Mosavi também. Cada um diz que já ganhou.
+ mas quem diz não é o Mosavi.
São os órgãos oficiais.
cmd. Jåµë§ ßønd, o diretor de eleições no Irã… é o chefe de campanha do Ahmadinejad ;-)
Anunciaram a re-eleição de Ahmadinejad ainda agora.
É, acho que já era pros reformistas. Uma pena. Bush já tinha ido. Era a vez do Ahmadinejad ser mandado de volta ao ostracismo. Pena. Parece que há uma onda conservadora pós-Obama (Israel, União Européia, Irã). Uma pena mesmo.
É isso aí, Daltro! E complementando seu último parágrafo, os blogueiros lambe bolas do pig nada comentam sobre a intensa disputa dos candidatos na eleição do Irã, demonstrando que por lá as coisas não são a ditadura apregoada pelos sionistas. Basta ler as notícias, ver as fotos dos eleitores fazendo campanha abertamente pelos seus candidatos, as denúncias entre os candidatos e por fim, o Ahmadinejad sendo reeleito. Já tem algum comentarista palhacinho, para não classifica-lo de coisa pior, tipo, tucanalha.
TEMPLÁRIO, desculpe, imensa disputa, não… só podem disputar as eleições os candidatos devidamente aprovados pelo sistema.