As eleições no Irã, as do Líbano

Irã · Líbano · 12/06/2009 - 09h40 - 43 Comentários

Ontem à noite, na tevê iraniana, o presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou seus adversários de estarem em conluio com os israelenses para falsificar documentos que o denigrem. É uma delícia a política do Irã. Nas ruas, a população está aparecendo em peso para votar.

Ninguém de fora realmente sabe quais as chances de quem. No coração do governo, os políticos têm pesquisas à mão. Há dois meses, tive acesso a uma delas, que indicava o início do crescimento da candidatura de Mir Hosssain Mousavi. Foi por aquela pesquisa, mostrando que a eleição prometia ser mais difícil, que Ahmadinejad decidiu não ir ao Brasil e se dedicar à campanha.

O Irã está polarizado. Nos centros urbanos, principalmente entre os jovens e as mulheres, Mousavi é popular. Sua mulher, uma acadêmica com carreira notável, lembra todo espaço que Ahmadinejad negou às mulheres do país. Na zona rural e entre os mais pobres, é diferente. É entre os ‘descalços’ – versão ahmadinejadesca dos ‘descamisados’ – que ele encontra mais apoio.

No total, quatro homens disputam a eleição. Para que não haja segundo turno, um deles precisa levar mais do que 50% dos votos.

A eleição no Irã não está descolada da região, como não esteve a eleição no Líbano. A agressiva política externa de Ahmadinejad procurou estender a influência do país no Oriente Médio, e dentre suas táticas esteve o financiamento do Hizbolá libanês.

Que ninguém tenha dúvidas: se o Hizbolá tinha dinheiro iraniano, a oposição se elegeu com dinheiro saudita. O Irã é inimigo de Israel, mas também de todas as ditaduras árabes sunitas da região. Num país de maioria xiita, o Hizbolá permanece com muito poder e tem, ainda, um exército particular mais poderoso que o do país. É capaz de ocupar boa parte da capital, Beirute, quando desejar.

Entre xiitas, sunitas e drusos, o pêndulo que decide as eleições libanesas é a comunidade cristã, em sua maioria católicos maronitas. Se os cristãos se voltaram contra os xiitas do Hizbolá, no último pleito, provavelmente foi por cansaço da pancadaria. Não é lá muito divertido viver num país em que um dos principais partidos políticos acha por bem fazer demonstrações de força a toda hora.

O Hizbolá derrotado não nega que as eleições tenham sido democráticas e a oposição não nega ao Hizbolá seu tamanho. A Síria – que com frequência se mete na política interna do vizinho explodindo primeiros-ministros ou invadindo o país – anda quieta. Só a especulação pode dizer o quando o discurso de Barack Obama aos jovens islâmicos não devia estar ressoando na cabeça dos eleitores libaneses quando decidiram votar em políticos que falam num tom baixo de voz sem apelar às armas.

O discurso de Obama não foi feito pra tevê – longo, foi produzido para o YouTube, e versões em árabe e persa já circulam online. O quanto não estarão ecoando também nas cabeças dos eleitores iranianos hoje?

Há, sim, medo de fraudes. O aiatolá Ali Khamenei, no início do pleito, se mostrou francamente favorável à eleição de Ahmadinejad. Nas últimas semanas, vem se mostrando mais comedido. Será um dia emocionante.

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