A Petrobras e a imprensa golpista
Na semana passada, acompanhei atento a conversa entre dois amigos – Sergio Leo e Idelber Avelar – sobre a “imprensa golpista”. Neste domingo, recebi não um, não dois – mas oito emails me perguntando se existe a instituição do “sigilo de pergunta” de jornalistas. Trata-se, evidentemente, do já polêmico blog da Petrobras. Os dois assuntos estão relacionados.
Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.
É só má assessoria de imprensa.
A Petrobras decidiu comprar uma guerra contra os jornais, quebrando seus furos. Tem o direito, evidentemente. Do ponto de vista político, escolheu o alvo errado. Não é a imprensa que está em guerra contra a Petrobras. Quem pôs a Petrobras no centro do picadeiro foi a oposição ao governo federal, com o objetivo de fazer chantagem política. A diretoria da Petrobras talvez esteja convencida de que a grande imprensa e a oposição política são a mesma coisa. Mas não são – são bichos com interesses absolutamente diferentes.
Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito simples resolver: publica perguntas e respostas logo após os jornais levarem ao ar suas informações exclusivas.
O pior que uma empresa de assessoria de imprensa pode fazer para seus clientes é perder a relação de confiança com repórteres e editores. Essa confiança, afinal, é o que a sustenta. Lição básica que quem é do ramo conhece. Se pode fazer algum sentido a curto prazo – os suspeitos de sempre vão elogiar, afinal – a médio e longo prazo, tem gente arruinando a própria reputação.
Mas esta é uma questão acessória.
A questão real, a discussão principal da qual esta polêmica é só um capítulo, é a relação entre imprensa, empresas, governo e público. Estou longe das redações, então não sei como essa discussão está sendo encarada nas diretorias. Se eu tivesse que chutar, apostaria que ninguém está percebendo: a credibilidade da imprensa brasileira está lentamente sendo minada.
Isso aconteceu aqui nos EUA alguns anos atrás e marcou o início da crise da indústria. Aqui foi igual, mas trocaram os sinais: a imprensa era acusada de estar a serviço da esquerda – the liberal media – e os cães de ataque do governo Bush, no rádio e na Internet, fizeram de tudo para derrubá-la. Some-se o bombardeio a uma série de erros cometidos nas redações, de Dan Rather na CBS ao New York Times, e pronto.
Aqui no Brasil é igual. Quem tem o poder político acusa a imprensa de estar a serviço da oposição e erros da própria imprensa colaboram para a ilusão. A diferença é que no Brasil a grande imprensa não se manifesta. Continua a tocando sua vida como se não houvesse um bode no meio da sala.
Ela ignora o problema porque acredita que as acusações são isoladas – uma meia dúzia de blogueiros que perderam seus empregos nas grandes redações e a outra meia dúzia que os segue. A questão é que a acusação de que a imprensa é partidária ressoa perante o público. Muitos dos leitores, inclusive aqueles mais atentos, acreditam que o trabalho jornalístico está a serviço de interesses que não são, necessariamente, os do público.
A crise que a imprensa vive hoje nos EUA começou assim.
Depois, quando a estrutura de financiamento da indústria começou a ruir, a grande imprensa precisou argumentar sobre sua importância para a democracia. A questão é que os leitores não acreditam. A imprensa dos EUA vive sua maior crise de credibilidade na história justamente na época em que mais precisa de credibilidade.
A imprensa brasileira deveria começar a atacar essa questão agora. As empresas que prestam assessoria de imprensa para a Petrobras podem estar cavando a própria cova no futuro mas, desatenta, a grande imprensa não percebe que a ação de hoje faz parte de um contexto que ameaça sua existência.
Para garantir sua sobrevivência no futuro, os grandes veículos de imprensa no Brasil precisam começar imediatamente um processo de conversa com os leitores. Devem apostar radicalmente na transparência de seus processos internos. Não podem apostar que os leitores confiarão apenas pelos seus olhos: têm que ganhar a confiança.
Não estou, aqui, dizendo que todos os veículos fazem jornalismo de primeira ou que erros não tenham sido cometidos. E é claro que devemos discutir cada um dos erros. Aliás: é justamente pela discussão e admissão aberta e franca, pela imprensa, de seus próprios erros, que passa a solução. A instituição imprensa é fundamental para a democracia e alguém tem que fazer jornalismo que não seja partidário. Se quem faz não é percebido assim, há um problema de comunicação que precisa ser imediatamente corrigido.
Atualização – À moda da imprensa norte-americana, e para fazer jus à transparência que cobro, devo dizer que – como muitos brasileiros – tenho ações da Petrobras, portanto pode-se argumentar que tenho interesse financeiro direto no sucesso financeiro da empresa. Acaso alguém dentre os leitores não o saiba, sou colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Fui colunista da Folha de S. Paulo, já escrevi para alguns títulos da Abril e fui funcionário tanto da Rede Globo quanto da GloboPar. Quando falo sobre a grande imprensa, portanto, falo de dentro, com todas as vantagens (informação sobre como funciona) e desvantagens (me paga o salário) que possam haver.
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Antônio M (288) e (290)
Meu comentário anterior, talvez o de número 299 foi para o seu comentário 290. Aproveito e lembro que o preço do oléo díesel é repassado no frete dos jornais. Os jornalões atravessam um período de grandes dificuldades e qualquer migalha é bem vinda.
Pedro Dória,
Não concordo com a idéia da grande imprensa golpista. Defendo a idéia de ser contra a grande imprensa, por não acreditar na informação disputando mercado.
Resolvido de modo não capitalista o gerenciamento, o que não sei como isso poderia ser feito, aceitaria a idéia da grande imprensa como veículo de opinião de grandes sábios e doutos jornalista, mas teria todas as matérias assinadas e de exclusiva responsabilidade do assinante. Os editoriais deveriam ser assinados com todos que estiverem de acordo com o teor do editorial.
Para mim pouca diferença faz o Globo, o Estadão, a Folha, o Valor Econômico e o JB. O que me interessa são os articulistas. Eu preciso conhecê-los, para saber o que eu estou lendo. Conheço mais os da Folha, os do Valor e os do Globo e assim leio-os mais.
Não sei como gerenciar a grande imprensa sem ser de modo capitalista, concorrendo, tentando vender mais informações do que o outro. (Sei não, mas fica parecendo coisa de mafioso).
Penso também que a grande imprensa gosta dessa discussão, pois a faz parecer maior do que ela é. Para a rede Globo não teve nada melhor do que fazer crer ao povo brasileiro, principalmente aos intelectuais formadores de opinião, que ela foi a grande responsável pela vitória de Collor. Ninguém lembra que Collor tinha um grande carisma, que o discurso dele era muito semelhante ao do PT e que ele por ser do centro direita teria muito maior receptividade junto a população brasileira do que o Lula com todo o grupo da esquerda radical de pensamento bem diverso do centro médio do povo brasileiro.
Na eleição de FHC em 1994 quando ela viu que FHC ia ganhar a eleição sozinho sem depender nada dela, a Globo pensou em mostrar a força dela e no meu entendimento montou o episódio da parabólica.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/06/2009
Iconoclasta,
1 - A Vale saiu, sim, das bolsas dos EUA e do Canadá, logo depois da compra da Inco.
E saiu, exatamente, por causa do rigor com que as CVMs americana e canadense funcionam. A CVM americana não enguliu o modo como a Vale financiou a compra da Inco.
O fato foi noticiado, no Brasil e no exterior.
O endividamento desenfreado da Vale teve início logo após ela ter distribuído parte de seu capital aos acionistas, alegando que estava capitalizada em excesso.
Muitos viram nisso o desejo de turbinar artificialmente o lucro por ação e, assim, fortalecer o papel no mercado.
Além do mais, alguns procuradores federais abriram processo contra a Vale. É que a parcela do capital distribuída (a Vale disse “devolvida”)foi gerada por isenções fiscais concedidas pela União.
Logo, se era pra “devolver” o dinheiro que a Vale declarou desnecessário, então deveria ter ele retornado à origem, e não para os bolsos de quem não o desembolsara.
O caso ainda está rolando e, ao contrário do que você disse, tem mais a ver com bandalheira do que com competência.
Pior é que, logo depois de ter “devolvido” o “capital em excesso”, a Vale se endividou até o fundo do poço pra comprar a Inco.
Daí porque a CVM americana colocou o desconfiômetro no modo ativado…
2 - O aumento do capital integralizado interfere, sim, no valor de mercado das ações.
A razão é simples: o aumento do número de ações reduz o lucro por ação. Quando o lucro por ação cai — qualquer que seja o motivo — o preço por ação vai junto.
Esse, dentre outros, é um dos motivos pelos quais empresas como a própria Petrobras não mobilizam mais intensamente a reserva de lucros para aumento do capital integralizado.
Só pra constar: a reserva de lucros da Petrobras é de mais de 50 bi.
“…1 - A Vale saiu, sim, das bolsas dos EUA e do Canadá, logo depois da compra da Inco.
E saiu, exatamente, por causa do rigor com que as CVMs americana e canadense funcionam. A CVM americana não enguliu o modo como a Vale financiou a compra da Inco … ”
Não tenho conhecimento desta notícia. Podeira fornecer um link, uma fonte?
O que há e que o Canadá cobrou da Vale uma explicação da Vale pela sobre suspensão de atividades na Inco e, que se deve a crise mundial e baixa nas encomendas à empresa.
E a Inco? Era estatal?
#301
Clever, já encontrei a explicação. É para criar uma “cortina de fumaça” pois o governo já aumentou em quase 30% a CIDE e com isso a baixa do preço não chega às bombas, o governo não perde arrecadação e permite que a Petrobrás faça sua jogadinha de mkt para os tolos.
Dar com uma mão e tirar com a outra pouco é bobagem……
Correção: … O que há é que o Canadá cobrou da Vale uma explicação sobre a suspensão de atividades na Inco e, que se deve à crise mundial que provocou diminuição nas encomendas à empresa ….
a VALE negociada no Canada? a SEC questionando a forma de endividamento?
oElias, eu to com o Antonio M, de onde vc tirou essa estorias. tem fonte? mostra p / gente isso ai.
grande oportunidade de se provar correto e mostrar q eu posso ser leviano…
“Muitos viram nisso o desejo de turbinar artificialmente o lucro por ação e, assim, fortalecer o papel no mercado.”
muitos quem, cara palida?
q papo é esse de turbinar artificialmente o lucro?
a empresa fez um investimento de risco, tomou grana, aumento seu endividamento, mas o negocio se provou excelente. se houve inicialmente duvida no mercado, isso durou pouquissimo tempo. poucous meses apos a efetivaçao da compra as açoes atingiam novas maximas. portanto MUITOS MAIS aprovaram…
sobre a integralizaçao e o lucro por açao o q vc escreveu é uma c r e ti n i ce sem tamanho.
“A razão é simples: o aumento do número de ações reduz o lucro por ação. Quando o lucro por ação cai — qualquer que seja o motivo — o preço por ação vai junto.”
essa explicaçao é SIMPLESMENTE ERRADA. variaçao nas cotaçoes das açoes de uma empresa ocorrem de acordo com expectativas. so se engana com relaçao a valores absolutos quem nao tem noçao de aritmetica. se vc tem 100 açoes e o lucro da empresa é de 0.5 por açao, se desmembrar vc vai ter (por exemplo) 200 e o lucro por açao vai ser de 0.25 e vc vai receber os mesmo R$ 50,00.
mas nao vou te deixar na mao. alteraçoes na estrutura de capital, podem sim impactar as expectativas, logo nas cotaçoes. a depender da forma, pode haver diluiçao dos minoritarios, pode ser custosa para a empresa, enfim, isso tem a ver com gestao fiscal, governaça corporativa e tal.
no caso da Petr nao houve problema algum.
a queda das açoes em 2008 tv motivos obvios, tanto para a petr como para 99% das empresas.
conto com suas fontes para o caso da SEC com a Vale.
Mais do que nunca, os chamados meios de comunicação são empresas privadas, com interesses privados e de classe (a do patrão), operando de forma claramente tendenciosa e obviamente como parte interessada. Isso é flagrante desde quando assunto é macro-economia internacional até qdo a imprensa omite informações e sabota debates referente a mudanças no plano diretor de uma cidade para não desagradar aos seus grandes anunciantes: as construtoras. Atualmente a parcialidade é algo inerente a grande imprensa. Só não vê quem não quer…
Iconoclasta,
Se você fosse consultor econômico, você e seus clientes morreriam de fome.
Vou explicar — de outro modo — pela última vez.
1 - Encare a ação como uma mercadoria.
2 - Suponha que o valor de face dessa mercadoria seja R$.1,00.
2 - Se cada unidade dessa mercadoria produz, anualmente, uma renda de R$.0,20, essa unidade tem um determinado valor de mercado.
3 - Se essa mesma unidade de mercadoria passar a produzir, anualmente, uma renda de R$.0,10, o valor de mercado dessa unidade CERTAMENTE QUE SE REDUZIRÁ.
Posto que ela está rendendo apenas METADE do que rendia ontem, nenhum investidor — exceto você, talvez — estará disposto a pagar por ela o mesmo que pagava antes, quando ela rendia o dobro.
Estou falando da cotação de UMA UNIDADE de ação que, afinal, é o que conta no mercado de ações. Uma unidade.
Você está partindo do princípio que as ações permanecem o tempo todo como propriedade de um único acionista.
Por isso, você analisa a coisa do ponto de vista do lucro em termos absolutos. Exemplo: a) o número de ações dobrou; b) cada uma ação passou a render metade do que rendia antes; c) como agora estou com o dobro das ações que tinha, minha participação final no lucro permanece a mesma; c) sou indiferente, portanto, ao aumento do capital.
Mas não é assim que as coisas acontecem na vida real.
Além disso, há o enfoque patrimonial, sobre o qual não vou me deter, até porque já escrevi várias vezes sobre isso no Weblog e, agora, estou sem saco.
A saída da Vale das bolsas dos EUA e do Canadá, foi notícia no Financial e na Economist.
Imprensa brasileira, que eu tenha lido, só o nanico Jornal Pessoal, do Lúcio Flávio Pinto, sobre quem o Paulo Roberto e eu escrevemos mais acima.
O LFP, aliás, registrou — sem estranhar, é claro –o silêncio da imprensa tupinambá sobre o assunto.
A imprensa brasileira também nada noticiou sobre a parcela do capital que a Vale “devolveu” aos acionistas, pouco antes de comprar a Inco e turbinar seu endividamento.
A imprensa brasileira nada noticiou sobre o processo judicial que procuradores federais abriram contra a Vale, pela mesma razão.
Nem por isso, a coisa deixou de acontecer, né?
307
eu acho q vc esta de sacanagem mas, na duvida, nao se pode deixar passar.
no aumento de capital ha desmembramento de ações, como de fato houve, é só checar. para cada açao possuida o acionista recebeu mais uma, logo se tinha 100 passou a ter 200. o que acontece com preço da ação?
é dividido na mesma proporçao. se valia 50,00 passa a valer 25,00 e vc tem os mesmos 5.000,00. isso nao tem nda a ver com desvalorização, pois a partir desse momento todas as cotações anteriores a esta data sao ajustadas. se hj fecha a 50 e na segunda vc recebe as outras 100, na segunda vc vai ver o fechamento de hj como 25. nao vai aparecer variaçao percentual. vc é q esta fazendo confusao com valor nominal.
é assim q acontece. vc é q esta fazendo confusao com valor nominal.
isso é primario, mas pelo teu historico…
tem q ter muita cara-de-pau para escrever isso sobre a Vale. cade o link afinal? ta contigo o onus da prova.
ta muito feio para vc, uma vergonha.
“A saída da Vale das bolsas dos EUA e do Canadá, foi notícia no Financial e na Economist.”
como eu nao espero mesmo q vc mostre nda, pq é fruto da sua imaginaçao, esclarece so uma coisinha, bem simples:
Vc diz q a Vale era negociada no Canada?
Vc diz q a Vale nao é mais negociada em NY, ou na sua estorinha a suspensao foi so no periodo imediatamente posterior a efetivação do negocio?
ha uma chance de nao piorar a situação…
so me responde isso.
vc tem td o direito de se esquivar, nao vai surpreender. esse post ta ficando muito p/ baixo, de repente vc acha q consegue se safar…
[...] http://pedrodoria.com.br/2009/06/08/a-petrobras-e-a-imprensa-golpista/ [...]
Nada Será Como Antes,
Fiquei espantado com a rapidez de sua resposta. Eu lera seu comentário (291) de 10/06/2009 às 9:53 provavelmente por volta do meio dia do dia 10. A noite às 18:27 eu consegui enviar a minha resposta (298). Menos de 1 hora depois, às 19:22 você já havia respondido com o comentário (300). Cheguei a imaginar que ele fora redigido com frases feitas.
Você inicia sua argumentação dizendo para eu não tomar como uma agressão você considerar meus argumentos uma salada de validade vencida. Bem, no sábado dia 6 eu fora a uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Iria a um casamento. As estradas em Minas Gerais são sobre montanhas. Cheguei atrasado, não deu para almoçar e comi um pedaço de pizza cujo presunto parecia estragado. A noite teve o casamento, depois a festa. Bebi bastante água para não dirigir bêbado em cidade que não conhecia. No dia seguinte houve um almoço e eu voltei a beber bastante água para não me embebedar, pois a estrada é cheia de curvas e iria pegar a estrada depois do almoço. Cheguei à noite cansado e no dia seguinte 6:40 levaria minhas enteadas para a escola. Coloquei o despertador para as 6:10 e fui dormir. Acordei no meio da noite, meio tonto, e pensei que deviam ser 6 horas quando normalmente acordo. Fui tomar banho e comecei a sentir mal. Passei a segunda-feira inteira bastante doente, com intoxicação forte e febre. Só no dia seguinte estava melhor. Na quarta você diz que era para eu não considerar como uma agressão você considerar meus argumentos como uma salada de prazo de validade vencida.
Bem, na verdade seu pedido me fez lembrar a história do politraumatizado todo enfaixado que perguntado se doía respondia: “Só quando rio”.
Você já reparou que eu não posso ter a pretensão de responder como você de forma precisa e concisa. Vou tergiversando o quanto posso, mas espero poder analisar com cuidado merecido as suas respostas.
Você inicia a sua tréplica dizendo que a “valorização de câmbio não dificulta”, como teria eu afirmado, “a exportação de produtos primários”. E diz que isso é “uma falácia que não leva em conta a repercussão interna e externa da moeda estável e a conseqüente escala de preços, juros e impostos”. De início tive novamente a sensação que se tratava de frase feita, afinal eu não dissera que a valorização do câmbio dificulta a exportação e a sua seqüência pode ser dita em qualquer situação tanto negativa como afirmativamente. Se você dissesse: “a valorização do câmbio dificulta, pois essa é uma constatação que leva em conta a repercussão interna e externa da moeda estável e a conseqüente escala de preços, juros e impostos”, que argumentos eu poderia trazer para refutá-lo? Nenhum. Assim como não tenho argumentos para contrapor ao que você diz, se é que é você quem diz e se é que o que você diz diz alguma coisa. A minha idéia é que um país exportador de commodities não pode deixar que o câmbio seja tal que leve o país a não melhorar sua capacidade de exportação de produtos manufaturados. A facilidade de exportar commodities não pode ser fator a criar dificuldade à exportação de manufaturados a menos que o país acredite que ele sairá direto da fase de produção de commodities para a frase de produção de serviços. O setor de commodities e semi-elaborados é de pequena participação no PIB dos países mais industrializados e, portanto, se quisermos ser um deles temos que incentivar a nossa industrialização. E o câmbio é o melhor instrumento de incentivo a industrialização.
A segunda linha de argumentação sua é querer retirar da política cambial qualquer matiz ideológico. Não sei se você terá êxito nessa empreitada. Qualquer política econômica poderá ser implementada com um viés mais para a direita ou para a esquerda. Isso vai depender das forças políticas que estão em ação em um determinado momento. Uma política de câmbio valorizado ou desvalorizado aplicado por governo da esquerda ou da direita tem efeitos completamente diferentes. Um câmbio desvalorizado como foi o câmbio no Brasil de 2003 a 2006 realizado por governo de direita, sem a sensibilidade social do governo Lula seria extremamente excludente e provocador de mais desigualdades sociais. A política econômica realmente não tem sentimento, mas quem a aplica são seres humanos e é dentro de um contexto ideológico que ela é aplicada e não como ela se encontra desenvolvida nos livros da academia. Alias, mesmo lá elas aparecem com o mesmo viés dos técnicos que as expõem.
Em 04/03/1993, Gustavo H. B. Franco apresentou em artigo na Folha de s. Paulo no caderno Dinheiro intitulado “Neoliberalismo e Neocorporativismo” as dez regras do Consenso de Washington. Cerca de 10 anos depois, creio que na Folha de S. Paulo Delfim Netto reproduz os dez mandamentos do Consenso de Washington. Quem conhece Gustavo Franco e Delfim Netto não vai se surpreender ao ver as mesmas regras sendo apresentadas em formato diferente e que de certo modo expressam conteúdo diferentes.
Agora, o câmbio desvalorizado impõe sacrifício no curto prazo a uma nação. Não age com perspicácia aqueles que não reconhecem isso. E a esquerda não acha justo que esse sacrifício seja imposto sabendo que os primeiros a ganharem com os sacrifícios são as grandes empresas exportadoras e os grandes latifundiários. Há por parte da esquerda maior resistência a se manter um câmbio desvalorizado.
Até 1983 eu seguia a orientação da esquerda. A parti de 83 eu passei a atentar mais sobre o histórico do crescimento econômico da Coréia, do Japão, da própria Alemanha, e a partir do meados da década de 80 do crescimento econômico da China e pude verificar que o câmbio desvalorizado deslancha o crescimento econômico. E fiquei favorável à moeda desvalorizada como a condição necessária para o pais não ficar sob a dependência do capital externo normalmente representados nos países de periferia pelos testas-de-ferro deste capital que se tornam os grandes beneficiários do câmbio valorizado.
Como disse, a moeda desvalorizada foi tese que eu passei a defender a partir de 1983, com a maxi de março de 1983 e com os resultados no saldo na balança comercial desde março de 83 e as taxas de crescimento econômico que foram crescentes em 1984 e 1985. Desde lá, entretanto, talvez até porque não sendo economista não tinha muito contato com teóricos dessa área, não encontrei texto acadêmico que defendesse a moeda desvalorizada. Em Lanterna na Popa, Roberto Campos passa o tempo todo defendendo a moeda desvalorizada. Quando ele serviu, durante o governo de Castelo Branco, a moeda valoriza e em 1967 quando Castelo Branco vai passar o governo para a Costa e Silva se faz uma minidesvalorização de 10%. Que não cobre nem a valorização que ocorrera no período. Em 29/02/2008 no Valor Econômico saiu um artigo muito bom de dois economistas Fábio Scatolin e Gabriel Meirelles, defendendo a desvalorização da moeda. O título do artigo é “Não aprenderam nada, não esqueceram nada”. Não é só o artigo que é bom, ele trazia também referências a outros pesquisadores cujos estudos recomendavam moeda mais desvalorizada . A partir daí eu comecei a fazer pesquisas no Google e observei que essa é a política que os economistas estavam preconizando para os países menos desenvolvidos. Tenho muita resistência aos economistas, mas penso que talvez eles estejam do lado certo agora.
Bem logo em seguida à observação de que o câmbio não é política nem de esquerda nem de direita, você traz uma longa frase que realmente não creio que seja de sua lavra. Você deve ter a traduzido de algum manual de doutoramento em política cambial em alguma universidade americana. De tão longa e rebuscada não vale transcrevê-la. E em seguida você lança a frase: “Veja que minhas afirmações são de teor capitalista de mercado, ainda que contrárias às minhas reais posições”.
A primeira vez que eu li, eu pensei que o verbo estava na primeira pessoa. “Vejo que minhas afirmações são de teor capitalista de mercado, ainda que contrárias às minhas reais posições”. Foi assim que eu li. E fiquei a imaginar o que você queria dizer com a frase. No princípio imaginei que após redigir a longa e rebuscada frase você leu-a novamente e percebeu que ela ficara mais à moda do economista Ricardo. Ao dar-se conta que aquilo não estava de acordo com o que você pensava você exclamou em voz alta e escreveu: “Vejo que minhas afirmações são de teor capitalista de mercado, ainda que contrárias às minhas reais posições”. E ficou sem saber o que fazer. Você tinha pressa, você queria bater o recorde de resposta. Aquela frase longa e rebuscada estava muito bonita para ser apagada. Ao mesmo tempo você não a compreendia. Você não quis perder tempo e teve a idéia genial: trocar “vejo” por “veja”. Assim a frase passou a ser escrita na terceira pessoa de tratamento: “Veja que minhas afirmações são de teor capitalista de mercado, ainda que contrárias às minhas reais posições”. Você se livrou da sua longa e rebuscada frase e passou o problema para mim.
Você fez-me lembrar a história que se passou com Jacó na véspera do vencimento de dívida dele para com o vizinho Samuel. Jacó não tinha o dinheiro para pagar no dia seguinte a dívida. Assim caminhava ao longo do quarto sem parar e não deixava a mulher dormir. Sara era o nome dela e vendo que Jacó tinha algum problema perguntou o que o afligia. Ele contou sobre a dívida e sobre a impossibilidade de pagar a dívida. Sara levantou, abriu a janela e gritou: “Samuel, Jacó não possui o dinheiro para pagar a dívida”. Voltou-se para Jacó e disse vai durmir que a preocupação agora é de Samuel. Agora sou eu que tenho que entender o que você diz na sua longa e rebuscada frase. E pior eu também tenho que saber o que você quis dizer ao me dizer: “Veja que minhas afirmações são de teor capitalista de mercado, ainda que contrárias às minhas reais posições”. O que você quis dizer com isso, eu me pergunto? Salvo a explicação acima, eu não faço a mínima idéia.
Em seguida você passa para a realidade brasileira. Você continua afirmando como meus argumentos que eu não expressei.
Você diz que eu pareço “acreditar que as políticas são implementadas segundo o livre arbítrio de cada governante, segundo convicções próprias”. É claro que eu não disse isso.
Há muito faço a distinção entre duas correntes de pensamento político no Brasil. Uma corrente que preconiza o Estado forte e o centro dela é no Rio Grande do Sul, com ramificações no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Nordeste (É a corrente getulista). De outro lado há uma corrente que está mais vinculada aos interesses da sociedade civil seja esses interesses os interesses do empresariado ou dos pequenos proprietários urbanos ou rurais, sejam esses interesses os interesses dos trabalhadores assalariados ou de outros mais excluídos socialmente, sejam esses interesses os interesses dos intelectuais ou dos profissionais liberais. Essa corrente tem seu epicentro em São Paulo e se expande em correntes mais fortes ou mais fracas por todo o Brasil (É uma corrente antigetulista).
Tancredo era da corrente de Getúlio Vargas. Alem disso Tancredo Neves não era um aventureiro. Ele era diferente de Juscelino Kubitschek. JK era arrojado, criativo. O discurso de posse de Tancredo Neves era não gastar. Imaginar que os dois fossem por em prática a mesma política econômica porque essa não depende das pessoas, mas das condições objetivas é nos imaginar pedras e não seres humanos que somos.
Para você, “aumentos de carga tributária decorrem de fatores objetivos”. Tancredo e José Sarney e o resultado seria o mesmo no que diz respeito a carga tributária. É preciso que haja os fatores objetivos para que haja aumentos de impostos. Pelo menos é uma evolução se se considerarmos o que Vito Tanzi expõe no artigo dele “Impostos Menores no Futuro – A Função Econômica do Estado no Século XXI”, pág. 5 (O texto pode ser encontrado no site da Esaf). Diz lá Vito Tanzi:
“Em 1888, ao discutir o nível ótimo da tributação, o economista francês Paul Leroy-Beaulieu concluiu que uma receita tributária equivalente a 5% a 6% do PIB poderia ser considerada “razoável”; 8% a 10% do PIB seria “normal”, mas uma cifra acima de 12% do PIB seria “exorbitante” e prejudicaria as perspectivas de crescimento dos países”.
Para P. L. Beaulieu os limites da carga tributária já estavam dados. Para você há que se contar com os fatores objetivos que podem alterar esses limites. E a humanidade certamente aguardaria a manifestação dos fatores objetivos para se fazer a mudança. Não posso pensar que o mundo funcione assim. Somos nós, com nossas diferentes capacidades que vamos construindo as condições objetivas para que possamos nós mesmos fazermos as mudanças necessárias, segundo aquilo que acreditamos.
Você diz que é preciso mais do que torcida para que o dólar não perca o império dele. Eu concordo. Nem acho que se fosse torcer José Luís Fiori torceria nessa direção que você acha que ele está torcendo. Os que acreditam que o dólar não se sustenta devem também estar conscientes que não bastará a torcida deles para que os Estados Unidos deixem cair a “prime rate” quando aquela taxa começar a subir para enxugar os dólares que estiverem zanzando pelo mercado mundial.
Eu poderia encerrar minha resposta dizendo que concordo com os seus três últimos parágrafos. Há muito nos seus três últimos parágrafos bem semelhante ao que eu venho dizendo a tempos. No entanto você diz que a China:
“está em posição bastante vulnerável e suas perspectivas apontam problemas estruturais gravíssimos, dentre eles justamente a desvalorização do Yuan”.
Que a China possui problemas estruturais gravíssimos é bem sabido. Uma população de mais de um bilhão e meio (quase dez vezes maior do que a Brasileira) com uma desigualdade quase tão grave como a brasileira é problema estrutural gravíssimo. Não se deve esquecer, entretanto, que numa crise em que há retração do consumo o melhor que se tem são os problemas estruturais gravíssimos que vão requerer muitos recursos para serem solucionados.
Citar o câmbio chinês como um dos problemas estruturais gravíssimo é brincadeira. A menos que você tenha lido algum texto em algum site americano e que o câmbio chinês era mencionado como um problema estrutural gravíssimo. Sim é possível que seja, mas para os Americanos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/06/2009
Clever (311),
Durante dias aguardei sua resposta e pensei que ela não viria até que, há minutos atrás, no post do Irã, li sua mensagem e vim procurá-la.
Sua resposta é uma enorme crônica, que para mim, é impossivel responder em detalhes. Questão de trabalhos outros.
Tentarei responder por partes, concisamente, ao contrário de seus textos que, como você admite, não primam pela concisão.
Deixo claro que meus comentários são de minha autoria, ao contrário de suas suspeitas, pois você chegou a afirmar que um dos parágrafos de meu texto teria sido traduzido de alguma tese de doutaramento de universidade norteamericana.
Tenho autonomia intelectual e sei expressá-la. Sou sociólogo, cientista político, consultor macroeconômico e advogado, além de outras especialidades. Não copio trechos de terceiros, quando cito menciono a fonte, já tive obras citadas por estudiosos e abomino plágios. Minha única dificuldade consiste na digitação, porque sou lento e nunca cursei datilografia. Teclo com dois dedos.
À resposta.
Você afirma, em contraposição à minha afirmação de que “câmbio valorizado não se deve a posturas de direita ou de esquerda”, que….
“Qualquer política econômica poderá ser implementada com um viés mais para a direita ou para a esquerda. Isso vai depender das forças políticas que estão em ação em um determinado momento. Uma política de câmbio valorizado ou desvalorizado aplicado por governo da esquerda ou da direita tem efeitos completamente diferentes. Um câmbio desvalorizado como foi”…..
Eu mencionei política de câmbio, não política econômica. O câmbio, como você deve saber, é apenas uma PARTE das políticas econômicas, estas sim reveladoras de posicionamentos de esquerda ou de direita, para tomar os extremos.
Política cambial é um dos componentes da econômica. E, se você prestar atenção, poderá notar que o câmbio não pode estar em descompasso com as demais áreas. Lembre-se que o Brasil ainda possui, de forma latente, alguns “detalhes” (dívida pública, por exemplo) que impedem, ou ao menos dificultam, a adoção de mecanismos frouxos de câmbio. Câmbio desvalorizado se reflete em excesso de liquidez, juros em alta, perspectiva inflacionária pelas taxas de juros e aumento da dívida. O câmbio precisa obedecer aos fatores objetivos, isto é, estar calibrado para atender aos processos em atividade na totalidade das relações macroeconômicas.
Sua citação de Beaulieu a respeito da adequação da carga tributária é extemporânea, porque simplesmente não existem cargas tributárias “razoável, normal ou exorbitante”. Como mencionei em meu comentário/resposta # 300, a carga tributária decorre de fatores objetivos, não de modelos pré-programados. Imagine baixar a carga tributária brasileira, nas atuais circunstâncias, para 10% ou 15% do PIB. Seria irresponsabilidade fiscal e traria a desorganização completa da economia.
Sobre os problemas estruturais da China, não se resumem à grande população ou à desigualdade de renda.
O maior problema macroestrutural chinês é, sim, a desvalorização artificial do câmbio. E, ao contrário do que você suspeita, não aponto esse dado devido à leitura “em algum site americano” (sic). Tenho análises e conclusões próprias e, talvez você não saiba, há aproximadamente 18 (dezoito) meses escrevi, em algum post deste blog de Pedro Doria, extenso comentário sobre as perspectivas da economia chinesa. Bem antes dos sinais da crise estarem claros.
O problema maior do câmbio desvalorizado do Yuan é da China, não dos demais países. O yuan desvalorizado estimula exportações, mas mascara o custo real da produção chinesa, pode desestabilizar a base monetária e, no futuro próximo, gerar inflação catastrófica.
Sua extensa crônica/resposta não altera em nada minhas palavras no # 300.
[...] e negativas sobre os fatos, o jornalista e colunista do jornal Estado de São Paulo Pedro Dória expressa algumas opiniões: Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito [...]
Para mim é ridiculo além de manipuladora e uma forma de “corporativismo” além de ir contra sobre ética jornalista , sabe oq?
Assessoria de impresa, que é paga para colocar “anuncios”, porque são anuncios e não matérias ou entrevistas em seu “jornal”
Cobre fatos improtantes , coloca o que lhe agrada, e é tudo menos imparcial.
è bom quem sabe essa “merda” que está se torne mais interessante e mais real.E não fiquem querendo fazer a gente ler , ouvir e engolir um monte de besteirol.