A história do Massacre de Tiananmen,
a Praça da Paz Celestial
Hu Yaobang, sexto secretário geral do Partido Comunista da China, encarou como sua a missão de promover reformas políticas e econômicas no país. Em 87, no entanto, a linha dura do partido o pôs para fora. Dois anos após derrubado, Yaobang morreu: 15 de abril de 1989.
A morte mexeu com os estudantes. Yaobang representara esperanças sufocadas. Naquele dia, após receberem a notícia, um grupo de mil estudantes deixou o campus da Universidade de Beijing em direção à Praça da Paz Celestial (Tiananmen) para chorar o morto perante o monumento dos Heróis do Povo. Pessoas de toda cidade começaram a vir para a praça.
E não foram embora. Nos dias seguintes, permaneceram lá. No dia 21, já eram mais de 100.000 – e, no dia 5 de maio, 100.000 marcharam pelas ruas de Beijing pedindo liberdades. Um grupo de estudantes que tinha entre seus líderes Wuer Kaixi decidiu fazer uma greve de fome.
No governo, o secretário geral do partido em pessoa, Zhao Ziyang, sucessor de Hu Yaobang, tentava manobrar para que houvesse tolerância com os protestos. No dia 18 de maio, ele foi convocado à residência do líder máximo, Deng Xiaoping. Sofreu um descompostura. No dia 19, Ziyang foi pessoalmente tentar dissipar os protestos. “Não se sacrifiquem à toa”, ele disse. “Os rapazes em greve de fome estão fracos. Vocês nos criticam, e vocês tem razão. O processo é lento, nos dêem uma chance, mas não continuem a greve de fome. As respostas não virão rápidas.” Ele encerrou o comovente discurso com sua frase mais lembrada. “Nós já somos velhos, nós não somos mais importantes.”
Os protestos não foram dispersados. No dia 20 de maio, o governo implantou Lei Marcial, Zhao Ziyang perdeu o cargo e foi colocado em prisão domiciliar. A linha dura assumiu o comando. Batalhões de todo o país foram trazidos a Beijing.
Na noite do dia 3 de junho, tanques e soldados com baionetas começaram a avançar sobre a praça. Abriram fogo, os tanques avançaram. Quando o dia amanheceu no 4 de junho, a Praça Tiananmen estava vazia.
A Cruz Vermelha chinesa chegou a anunciar 2.600 mortos ao longo da madrugada, depois negou que tivesse tal número. O governo diz que morreram 241.
Hoje, a revista eletrônica Guernica publica uma entrevista com Wuer Kaixi, o jovem estudante que liderou a greve de fome:
Logo após Tiananmen, veio a idependência do Timor Leste, Mandela deixou a prisão, o Muro de Berlim caiu. O mundo parecia estar ficando melhor. Depois do Onze de Setembro, veio a guerra no Oriente Médio e a idéia de que o mundo está melhor ficou difícil de defender.
Mas depois de 1989, a China ficou melhor. Depois de Tiananmen, o Partido Comunista decidiu fazer um acordo com o povo chinês. Ofereceu liberdade econômica em troca de cooperação chinesa. É um acordo ruim, porque tanto liberdade política quanto econômica não pertencem ao governo para que ele possa oferecê-la. Mas, de qualquer forma, o povo aceitou o acordo e o Partido Comunista deixou o dia-a-dia das pessoas.
Não há mais um Estado ideológico e é por isso que o povo chinês concordou com apenas liberdade econômica.
O dia que definiu o destino da China faz, hoje, 20 anos.
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obrigado pelo grande post, Pedro. vamos espalhar o link.
E agora grande parte dos intelectuais que influenciam o governo Hu Jintao é oriundo dos protestos de Tiananmen. Fazem parte do governo que quer censurar o debate sobre o assunto no Twitter. Isso me lembra um certo partido de sindicalistas que chegou ao poder em um país continental do hemisfério sul.
A China é uma caixa preta e seu povo nem imagina o que seria democracia……
Longo processo de transformação.
muita coisa pra linkar, muito apture pra botar…mas me deu uma preguiiiça.. . . :))
Nossa… Tinha visto esses vídeos exatamente ontem. Fiquei surpresa ao revê-los aqui.
Imagem histórica essa a da Praça da Paz Celestial.
Tenho a foto (em tamanho de poster, pendurado no meu quarto) do garoto em frente aos tanques. É linda e trágica ao mesmo tempo.
O nome do garoto. Nunca souberam. Um Lenda.
Já comecei a linkar, confis.
PD, uma dúvida: Geralmente, quando você fala de políticos estrangeiros, você trata eles pelo sobrenome, certo? Então neste caso o sobrenome de Hu Yaobang é Hu, não Yaobang. E o sobrenome de Zhao Ziyang é Zhao, não Ziyang.
Na Ásia, os nomes de família vêm primeiro. Mesma coisa com Kim Jong Il. Kim é o sobrenome. Dá uma corrigida aí.
Muito bom o post. Bem resumido. As conseqüências daquela madrugada de 4 de junho de 1989 são difíceis de serem medidas.
O mundo ficou horrorizado com o que o regime chinês fez com seu próprio povo. Alguns dizem que isso levou ao colapso de vários regimes comunistas.
Enquanto isso, os chineses entraram num acordo. E isso é verdade, o que Wu’er Keixi diz na entrevista. Niguém aqui se incomoda com liberdade, o pessoal quer mesmo é andar de Audi.
Só pra concluir, não se sabe ao certo se pessoas morreram na Praça. A matança ocorreu mais nos arredores.
E é um estado ideológico sim. Estado comunista para seu povo e capitalista selvagem para seus chefões e qualquer outra coisa com que possam manter o status quo.
Nunca esqueci de um trechinho do livro Geopolítica da Fome, de Josué de Castro, onde ele diz que, devido à grande quantidadae de verminoses que cada chinês trazia em seu corpo, grande parte dos alimentos produzidos na China serviam, literalmente, para alimentar vermes.
Havia o costume, naqueles tempos, na China, de cada família criar alguns porquinhos no quintal. Era construído um pequeno elevado, onde a família defecava e os porquinhos se alimentavam das fezes ainda frescas. O resultado era um espantoso ciclo de verminoses.
O povo chinês é mesmo bem sábio, compreende que num mundo tão complexo, há que se ceder algumas coisas para se conseguir outras.
Nos Estados Unidos, trancaram o galpão de uma grande fábrica, onde estava uma grande quantidade de mulheres que apenas reclamavam melhores condições de trabalho, e e atearam fogo. Muitas morreram, mas as mulheres continuaram a luta e conseguiram não só melhores condições de trabalho como muitos outros direitos.
Apesar de tudo, a Terra se move.
Interessante, nunca havia associado como o massacre, que era na verdade o governo chinês tentando manter tudo como sempre foi, acabou mudando a relação entre o governo e o povo.
Goste o governo ou não, não importando quanto sangue correu, as coisas mudaram.
A visita do Gorbatchov também serviu para estimular os estudantes. O governo chines esperou ele ir embora para mandar os tanques avançar.
Até hoje não tenho uma opinião formada sobre o episódio da Praça da Paz Celestial.
É que sempre associei as grandes manifestações de massa na China comunista às lutas internas do PC chinês. Por trás de cada grande movimento de massas, sempre havia um ou mais grupos de dirigentes do PC industriando para manter ou ampliar seu poder na estrutura do partido.
A “Revolução Cultural”, p.ex., foi toda da Madame Mao.
O próprio Mao deflagrou aquele lance “..que desabrochem mil flores; que floresçam mil escolas…”, pra detonar o Comitê Central do PC e organizar outro, mais dócil.
Aí as flores começaram a desabrochar e as escolas começaram a florescer.
Só que as críticas não se limitaram ao CC, estendendo-se ao próprio Mao.
Lá pelas tantas, as flores começaram a dizer que o camarada Mao, por estar bastante idoso, estava errando demais. Talvez fosse bom que ele se aposentasse…
Mao concluiu que as flores estavam fora de controle. O paisagismo que estava se delineando não era exatamente aquele que o jardineiro tinha em mente. Posto isto, mandou detonar o jardim.
Não se sabe ao certo quantas flores foram ceifadas, mas há quem fale em algumas dezenas de milhares.
Sei não, mas… sem muita certeza, minha tendência é acreditar que o lance da Praça da Paz Celestial foi uma jogada de Zhao Ziyang que não emplacou.
Foi mais um troço de cima pra baixo, como de outras vezes na China vermelha.
Daí porque não sobrou muita coisa.
[...] e eu não sou exatamente conhecida por escrever em português castiço, certo? - mas o texto do do Pedro Dória tem tudo [...]
[...] Há 20 anos atrás, acontecia o Massacre da Praça da Paz Celestial. Pedro Dória fez ótima análise sobre o evento; NPTO exaltou a coragem daquele carinha que ficou na frente dos [...]