Michelangelo aos 13
Em seu primeiro quadro, o menino Michelangelo desenhou monstros.
Ainda sobre o assunto:
- O homem visto por Manara Quadro a quadro, num grande plano horizontal, toda a história humana desenhada por Milo Manara. (Talvez não seja recomendado abrir...



Caramba, que talento!
Não entendo nada de artes plásticas, mas achei os desenhos duca. Se forem mesmo do Michelangelo, o talento do cara era inato mesmo.
Lembra a imagem de Grünewald, no retábulo de Issenheim, hoje em Colmar.
Se copiou de Schöngauer, tá aí o link com Grünewald - aliás, descoberto por Joris Karl Huysmans, o autor de A Rebours, novela cujo personagem é des Esseintes, modelado sobre o Conde de Montesquiou, depois Charlus em Proust. (Aliás ainda, Montesquiou era descendente do verdadeiro d’Artagnan, Charles de Baatz, Conde d’Artagnan.)
Por isso Jacques Le Goff contesta a existência da Renascença, e aponta o período entre os séculos XV a XVIII como uma extensão da Idade Média. O “Tormentos de Santo Antônio” é a descrição da alma que busca o estado de perfeição, mas é pressionada pelos demônios a permanecer presa à terra. Vale ser comparado ao “Auto da Alma”, de Gil Vicente, e aos pontos de “O Diálogo” de Catarina de Sena, sobre a subida de uma alma do pecado à perfeição.
Os “fora-de-serie” são a luz da humanidade…
Com todo o respeito: é passar uns dias em Florença e a gente vê a imensa diferença entre o fim da idade média e o começo da Renascença. Na pintura isso é nítido: basta comparar Botticelli ao Beato Angelico.
Doria Velho, do ponto de vista das artes sim, há diferenças entre Botticelli e Fra Angélico, como há entre Michelângelo e Bernini. Contudo, estas mudanças apontam mesmo uma diferença completa de visão de mundo ou são um detalhe?
A Florença dos Médici foi forjada durante séculos de disputa do partido guelfo dentro da Itália, e esta disputa foi travada durante a Idade Média. Os Médici, apesar de sua posição senhorial sobre Florença, eram uma família tipicamente burguesa medieval, não uma nobreza tradicional.
Além disso, os artistas da chamada Renascença eram financiados pela Igreja, e pintavam temas religiosos, tanto quanto clássicos. Mas a citação de temas clássicos já aparecia em Dante, no qual Virgílio guia o poeta pelo Inferno, Purgatório e Paraíso.
Do ponto de vista do pensamento, a transição é ainda mais gradual. Galileu, Descartes e Francis Bacon são herdeiros diretos de um frade franciscano inglês, Guilherme de Occam. Lutero deve boa parte de sua teologia ao dominicano Mestre Eckart. Mesmo Vico, cujo pensamento era bastante iluminista, tem uma visão da história do homem que remonta a Eusébio, historiador eclesiástico do século IV.
Resumindo, quando Le Goff relativiza a Renascença, ele enfatiza o aspecto gradual da mudança do pensamento, em detrimento à noção rupturista que predomina nas concepções sobre o período. Mesmo Foucault via a ruptura com o pensamento medieval não na Renascença, mas depois, no século XVII.
Aliás, vale lembrar, a Europa redescobriu os gregos no século XII, e não no século XV. Eles estavam traduzidos para o árabe, e entraram pela Espanha e pelo reino das Duas Sicílias, ao sul da Itália.
Paulo Roberto, se você quiser a gente continua essa discussão em torno de um chope, ou, se você não mora no Rio, via skype. Para mim há um corte óbvio: e, dando um exemplo, gente como Argyropoulos passou a Florença foi mesmo no século XV, e helenistas como Ficino lá viveram no mesmo período. O platonismo explode (ou é redescoberto) igualmente nesse período.
Le Goff, medievalista, forçava a barra e via a idade média como gerando a modernidade, pelo que me lembro. E’ um ponto de vista, mas que aplaina essas mudanças notáveis todas.
Os Médicis eram uma família secundária até a volta do exílio de Cosimo de’ Medici il Vecchio em 1434. Seu guelfismo não era necessariamente de adesão ao papado - vide o conflito com Sixto IV - mas sim um sentimento difuso no popolo grasso florentino.
Gdes abcs
Galileu não foi influenciado por Ockham; onde você viu isso? Galileu era declaradamente platônico, mas de um platonismo que não tem nada a ver com o pseudo-Dionísio ou com Santo Agostinho; é o platonismo matemático de Ficino, dessa gente.
Podemos conversar via MSN ou skipe, adoraria. Só gostaria de colocar um ponto: apesar de o guelfismo ter se iniciado como apoio ao papado, na prática ele mais defendia os interesses da burguesia italiana. Em alguns casos houve choques frontais entre os guelfos e os bispos locais. Por exemplo, na guerra entre Perúgia e Assis, na qual Giambattisti Bernardone, também conhecido por são Francisco, participou e foi preso.
Conheço a história dos guelfos porque é a história do lado florentino do meu povo… Meu skype é fadoria
well…tem muito de Bosch.
Pai do Pedro e PRS
favor continuar a troca de ideías aqui no weblog, ainda que em menor profundidade do que as conversas telefônicas que vocês terão
nada de sonegar informação!
abçs
Eu simplesmente ADORO essas discussões!
Com o devido respeito à erudição do Pai Doria e ao grande conhecimento do Paulo, vou acrescentar uma impressão puramente pessoal e bem longe das discussões mais centradas historicamente, com citação de autores e tudo mais.
Como escrevi ontem, lá no Open das setinhas, revi um filme de que gosto muito, “Robin e Marian”, do Richard Lester, que mostra o lado nada glamuroso da lenda de Robin Hood (ou será que ele existiu, como D’Artagnan?). E, que, claro, se passa na baixa idade média.
O filme mostra um Robin já velho, decepcionado com os 20 anos que investiu servindo a Ricardo Coração de Leão e sendo obrigado a assistir e participar de massacres sem fim. Aí volta para uma Inglaterra pobre, feia e suja, como deviam ser praticamente todos os lugares, numa Idade Média não idealizada, só pra descobrir que nada mudou, a não ser em termos pessoais, com as pessoas que conhecia e coisa e tal.
Mas a estrutura continuava opressiva. O que me leva a observar, do ponto de vista de quem pensa naquela época sob as luzes de hoje, que fica difícil não pensar em monstros, quando a iluminação era tão precária e as noites eram, realmente, o reino dos santos e demônios.
Neste sentido, não me surpreendem os demônios de Michelangelo aos 13. Sem falar que 13, 14, 15, são épocas do demônio em todos nós, némêss?
E, plís, dá pra pedir que não nos privem das discussões de vocês via Skype?
Robin Hood, o troço é controverso. Mas d’Artagnan existiu, sim: foi Charles de Baatz-Castelmore, Conde d’Artagnan. Morreu no cerco de Maastricht, e tinha sido capitão dos mosqueteiros. Era tio tataravô, como disse, de Robert de Montesquiou, amigo de Proust e um dos modelos para o Barão de Charlus.
Todos os mosqueteiros (Athos, Porthos, Aramis) existiram, com nomes um pouco diversos. Mas as aventuras contadas por Dumas são fantasia pura.
Sobre o quadro de Michelangiolo: embora a posição de Santo Antão seja diferente, é notável como o rosto do santo no Retábulo de Issenheim e o no quadro de Michelangiolo são semelhantes. Foi o que me chamou a atenção.
E S. Francisco, aliás, sempre achei que era na verdade um waldense, um herético dos bons.
parece coisa do hyeronimus bosch…
E’ a mesma escola. Mas Schöngauer e Grünewald são anteriores.
Seu Dória,
numa biografia do Marco Polo que li este mês, diz que ele ficou preso em Genova por conta de um parente seu - esqueci o prenome, sorry.
Confere?
Belíssimos os trabalhos destes dois de nomes esquisitos…
acho que em relação à discussão sobre o Le Goff, será que a visão dele não é muito limitada à França?
acho que na França, esta passagem da idade média para a idade moderna foi um pouco mais abrupta, sem o renascimento no meio do caminho.
Afinal, eles mal tinham acabado de sair da guerra dos cem anos…
Pai Doria,
Os “Três Mosqueteiros” são um lembrança muito querida pra alguém que teve de mudar de casa na infãncia e adolescencia, e para quem os livros eram fundamentais.
Daí, concordo com a origem dos 3 mosqueteiros, que, parece-me estão no prefácio.
O que só realça a figura mítica do Robin Hood.
Isso não desperta inquietações?
Tive um professor que usava este mote.
Radical Livre:
Lamba Doria. Lamba é lama, lâmina em italiano, era um cara brutal. Descendo de dois irmãos dele, Niccolò e Oberto.
Alba: sobre Robin Hood tem uma brigalhada. Walter Scott identificou-o a Robert Locksley, mas Margaret Murray, a antropóloga, achava que era uma figura semimítica.
O que posso dizer é: boa parte dos personagens dos tempos ditos heroicos da Grécia, como p.e., os que lutaram na guerra de Troia, são históricos. A começar por Páris (Aléxandros Páris, que era o príncipe Alaksandus, soberano de Troia), Príamo (Piyami-radu), Eteocles, filho de Édipo (Etewekelewes, ou Tawakalawas), e mesmo Héracles e Kádmos (Kádmos é atestado).
Obrigada, Pai Doria,
Vou escrever mais, mas agora o horário me é proibivo, sabe?
Abraço
PDV, Quasimodo existiu?
Old PD, não entendi nada, explica 3x.
Olhando rápido eu diria que é um quadro do Bosch… O garoto era bom mesmo!
Sobre São Francisco, recomendo a excelente biografia “Francisco, o santo relutante”, de Donald Spoto. A história foi convertida ao cinema, mas o filme não tem tradução para o português.
Devia ser waldense. Era muito fora do esquadro.