O futuro incerto de Ahmadinejad

Brasil · Irã · 10/05/2009 - 13h36 - 69 Comentários

Está hoje, no caderno Aliás do Estadão versão papel, a entrevista que fiz com o professor Abbas Milani sobre as eleições presidenciais no Irã. Milani, que já citei por aqui mais de uma vez, é um dos dois ou três nomes para quem o presidente Barack Obama liga quando tem dúvidas sobre o país.

Atualização – A entrevista completa já está online.

Quando ele fala da política, lá, não é apenas como estudioso. É como um iraniano que conviveu com gente como Akbar Rafsanjani na prisão, durante a ditadura do xá, que foi professor na Universidade de Teerã de muitos dos assessores de Mahmoud Ahmadinejad – mas é, também, como um democrata secular. Sua experiência no Irã foi a prisão política nos tempos do xá e o exílio com os aiatolás.

Ele de presto informa que o cancelamento da visita presidencial nada tem a ver com qualquer coisa no Brasil. Ahmadinejad, cujo governo quebrou economicamente o país, tem nas mãos uma pesquisa interna que aponta o sério risco de não chegar sequer ao segundo turno. Em se tratando do candidato declarado do aiatolá Ali Khamenei, é sinal de que, dentro do regime, a briga está pesada. Um trecho:

Como Ahmadinejad é percebido no Irã?

Depende de quem o vê. No Irã, grupos diferentes têm impactos políticos diferentes. Da última vez em que Ahmadinejad falou em um evento internacional, na Conferência sobre Racismo da ONU, em Genebra, 20 ministros do exterior deixaram a sala. A população sabe que isso é um embaraço diplomático e o voto, no Irã, faz diferença. As pesquisas internas mostram que os iranianos entendem o resultado dessa combinação de uma retórica explosiva com incompetência administrativa. Ele fracassou no combate à corrupção de forma retumbante e essa havia sido sua maior promessa de campanha. Quando ele disputou a presidência pela primeira vez, era um ataque atrás do outro ao ex-presidente Akbar Rafsanjani, que ele chamava de chefe da quadrilha. Hoje, Rafsanjani é mais poderoso e mais rico do que jamais foi. O aiatolá Khamenei, o vê de maneira diferente. Ele declarou seu apoio categórico a Ahmadinejad, e Khamenei é certamente a pessoa mais poderosa do país. Essa é uma novidade. Nem o aiatolá Khomeini antes dele, nem o próprio Khamenei, jamais haviam saído em defesa de um candidato de forma tão explícita. Se não fosse por este apoio, Ahmadinejad teria sofrido um impeachment, no ano passado.

O que houve?

É preciso compreender como o Irã funciona. Além do que pensa a população e do que pensa Khamenei, há um terceiro grupo muito importante, que é o clero. As pessoas que fazem parte do pequeno grupo que estrutura o regime teriam derrubado Ahmdinejad com um impeachment se não fosse o apoio de Khamenei. Este regime funciona como uma família mafiosa e há muita insatisfação interna. Eles controlam um governo, um negócio, que vale US$ 70 bilhões por ano. Não querem que seu regime seja perturbado. Não desejam que um lunático qualquer venha, solte sua verborragia, e perturbe seus negócios. A insatisfação que Ahmadinejad gera na população não é de seu interesse.

Quando o link estiver disponível, nos próximos dias, publico.

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