Ahmadinejad deve vir ao Brasil;
mas que seja recebido com vaias.

Brasil · Irã · 5/05/2009 - 01h56 - 396 Comentários

Atualização – O presidente iraniano cancelou a visita que faria ao Brasil na quarta-feira. O Itamaraty diz que cancelamentos assim são normais. Não, em cima da hora, não são.

Li atento a polêmica entre Idelber Avelar e Lula Borges, que agitou Pandorama ontem. Despertou polêmica também entre os leitores – mais de um me escreveu, outros comentaram. (Pena que ainda há problemas técnicos no blog do Lula, que impedem que se comente – estão sendo resolvidos.)

Vamos primeiro aos fatos. Idelber alega que Mahmoud Ahmadinejad, o presidente do Irã, jamais disse que deseja a exterminação dos judeus. Essa é fácil: nunca disse mesmo. Idelber também afirma que ele nunca disse que pretende ‘varrer Israel do mapa’. Eu já sabia, mas só para confirmar procurei minha principal fonte para Irã, o professor Abbas Milani, da Universidade de Stanford. Milani, um intelectual iraniano exilado, secular até a última ponta do fio do cabelo e que tem horror ao político Ahmadinejad confirmou. Não, ele nunca o disse.

Idelber propõe uma tradução que remete ao professor norte-americano Juan Cole: ‘o regime que ocupa Jerusalém deve ser apagado da página do tempo’. O persa contemporâneo é uma língua dada a floreios. (O persa antigo ia direto ao ponto, curiosamente.) Milani diz que a tradução mais adequada seria algo como ‘Israel um dia não existirá mais’.

A diferença entre essas três traduções é importante para entender o que Ahmadinejad realmente disse. ‘Apagado da página do tempo’, de tão poético, parece inocente. ‘Varrido do mapa’, por outro lado, parece uma ameaça concreta de obliteração. O que Ahmadinejad quer dizer está mais ou menos no meio. Ele não diz em momento algum que tem planos de executar um ataque a Israel. O que ele diz é que o destino de Israel é deixar de existir. Que no futuro o Estado de Israel não mais existirá. Ele não sugere que isto acontecerá por meio de guerras. Mas como espertamente deixa em aberto, alguns interpretam como ameaça velada. (Muitos, dentro de Israel, consideram que, dado o crescimento populacional árabe, a ameaça de que o país deixe de existir sem que uma guerra seja necessária é realmente concreta.)

Idelber, no entanto, esquece de citar outro tema frequente nos discursos de Ahmadinejad: ele nega que o Holocausto tenha acontecido. Sugere que há dúvidas. E, neste caso, não tem tradução errada. Ahmadinejad não é alguém com autoridade moral para falar de racismo. Por um motivo muito simples: negacionistas e antissemitas caminham lado a lado. Ao negar o Holocausto, Ahmadinejad põe-se imediatamente do lado da escória da extrema-direita austríaca, da Ku Klux Klan nos EUA, de gente da pior qualidade.

Lendo os dois, Lula e Idelber, um dizendo fora Ahmadinejad, outro dizendo bem-vindo, não consigo deixar de discordar de ambos. O Brasil, como qualquer país do mundo, tem seus interesses comerciais. Diplomacia não é jogo para inocentes e, na escala da barbárie, a ditadura iraniana é leve. A Arábia Saudita, ali ao lado, é muito pior e não está sozinha na região. Meia África é muito pior. Se a moral tiver que guiar a diplomacia, como sugere Lula Borges, o Brasil – e todo o Ocidente – teriam que cortar relações com dois terços do mundo. Lula, desconfio, sabe disso.

(Aliás, o Brasil teria que começar consigo mesmo, um país onde tortura nas prisões e trabalho escravo no norte ainda existem.)

Mas ao sugerir que todos que reclamam da presença de Ahmadinejad no Brasil sejam a ‘República do Morumbi-Leblon’, Idelber recorre a um estereótipo que a esquerda gosta de cultivar – o do burguês hipócrita e alienado – para negar valor a um protesto de todo legítimo. Uma das bisavós maternas de minha filha morreu marchando na neve entre um campo de concentração e outro. Conheci em Copacabana e na Tijuca – não no Leblon – gente o suficiente com número de série tatuado no braço. Mahmoud Ahmadinejad me ofende pessoalmente. E me tranquilizo com o fato de que, neste caso, a classe média iraniana concorda inteiramente comigo. Ahmadinejad não é representante do país que preside.

O governo brasileiro tem que conduzir suas políticas de Estado, e isto inclui relações com o Irã. Cidadãos brasileiros têm o direito de manifestar seu nojo perante certas pessoas. É assim, Idelber sabe, que se dá em países civilizados. Protestos do tipo – muitos que, aposto, ele apóia – se dão em Washington e Nova York a toda hora. Protesta quem tem algo a dizer e quer ser ouvido. São cidadãos com o direito de se pronunciar. E, numa democracia, mesmo quando discordamos, a gente respeita quem pensa diferentemente de nós.

Atualização 2 – Lendo os comentários do Idelber, vi que ele diz que Ahmadinejad jamais negou o Holocausto. Fontes não faltam e, para todas, existe uma briga de traduções. Chamou de mito? Não chamou? Ahmadinejad se esconde nos floreios do persa. Convocou uma conferência para discutir se o Holocausto houve ou não. Fingir que há dúvida sobre o fato é má fé. Convidou a Ku Klux Klan e os historiadores da extrema-direita austríaca e francesa para conversar sobre o assunto. Quem chama estes para conversar sobre o genocídio de judeus na Segunda Guerra não busca a verdade. Sua conferência foi tão repulsiva que o ex-presidente Mohammad Khatami o censurou em público. O principal assessor para assuntos internacionais do aiatolá Khamenei, convidado, recusou também publicamente o convite declarando o óbvio: fatos históricos, ainda mais assim delicados, estão acima de qualquer discussão. Dizer que há dúvidas, montar uma conferência para discuti-las, é negar que é fato.

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