Damásio e Castells: a mídia precisa
ir mais devagar com o ritmo
Um novo estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) demonstrou que emoções ligadas a valores morais precisam de tempo para se desenvolver no cérebro. Pesquisas do tipo devem sempre ser vistas com um quê de ceticismo. Esta, no entanto, foi realizada ela equipe do neurocientista português António Damásio, um dos mais reconhecidos do ramo.
A implicação é com mídia digital. Qualquer notícia que envolva um drama humano só é compreendida de fato após algum tempo. O ritmo virulento da Internet ou tevê a cabo não permitem este tempo. Como resumiu um colega de Damasio na USC, o espanhol Manuel Castells, ‘para que exista compaixão em relação a sofrimento psicológico, precisamos dedicar um tipo de atenção emocional de forma persistente.’
Damásio e Castells não atacam as redes sociais, espaços de conversação online nas quais, consideram, existe o tempo para que reflexão necessária. Mas a rapidez da tevê ou de alguns video-games os incomodam. Castells: ‘Numa cultura midiática na qual violência e sofrimento são transformados em um programa contínuo, seja na ficção ou no infoentretenimento, começa a nascer uma indiferença a respeito do sofrimento humano.’ Damásio completa: ‘o que mais me preocupa são as justaposições abruptas que você encontra no noticiário. No que elas se relacionam com emoções, já que estes sistemas são por natureza mais lentos, o que precisamos dizer é Um pouco mais devagar, por favor.’
Se estão certos? Os doutores são cientistas respeitados no ramo.
Ainda sobre o assunto:
- Mais uma conversa ao vivo Daqui a pouco, meio-dia, publicarei o link de áudio aqui para um bate-papo sobre jornalismo, Internet e o Pandorama. O...



“Seems it never rains in southern California”, diz a música. Também não choveu no meu cérebro decadente a ciência do famoso neurologista. Não entendi bem qual a diferença entre saber de um fato que envolva reações emocionais (empatia, solidariedade, repulsa) pela Internet, pela TV ou pelo bom e velho jornal. Num vídeo-jogo, em que a reação tem de ser imediata, tudo bem. Mas vídeos-jogos não são a realidade. Notícias reais fazem você reagir a partir do momento em que tomou conhecimento delas, pouco importa se foi no momento em que o fato aconteceu ou três dias depois. Uma vez tomado conhecimento da notícia, o tempo de reação depende exclusivamente de você, não da fonte. Ou seja, nada o obriga a ter uma reação imediata, vai depender de seu temperamento.
não acredito nisso, não. aquela brasileira maluquinha da Suiça me enganou direitinho, pois instantaneamente eu tive compaixão por ela assim que li a notícia no site do estadao. então creio que seja preciso lentidão, mas para que possamos raciocinar.
Ou seja, temos que ter tempo para digerir uma notícia.
Mesmo a mais idiota.
Uma coisa é a notícia ser vinculada incompleta ou de maneira tendenciosa. Outra coisa é a notícia ser explorada até às últimas consequências sem o mínimo de bom senso.
Tem um livro chamado Digital game-based learning (Aprendizado baseado em jogos digitais) o qual tem uma resenha . O livro , entre outras coisas, comenta sobre o déficit de atenção que os jovens atuais tem, para os padrões tradicionais de aprendizado. Acho que essa dessensibilização por ser um reflexo deste déficit.
A resenha está em blog.joaomattar.com/2009/01/24/digital-game-based-learning/
João Daltro, novelas não são realidade apenas parecem, mas influenciam as pessoas.
Pq videogames não teriam influência sobre seu público?
Por outro lado, como a web oferece vários angulos e opiniões sobre a mesma notícia creio que essa dessensibilização seja uma consequência do perfil do usuário. Haja visto as acaloradas discussões que este blog rende de vez em quando.
Quem acompanha o jornalismo online já presenciou como certas notícias em determinados portais são replicadas por outros sem o mínimo de crítica. É deste tipo de nonsense que o Damásio está falando.
A questão do tempo para processar as coisas — a digestão de que falou a Nhé! — é assunto que muito me interessa, embora eu tenha passado batido (falta de tempo?) pela nota sobre essa pesquisa do Damásio (acho que vi no UOL).
Em “(Indi)Gestão do Conhecimento: a reestruturação produtiva e o sofrimento nas organizações”, artigo que escrevi tempos atrás (2002), alinhavei algumas consequências indigestas das transformações na esfera do trabalho, transformações essas que incluem a tal “gestão do conhecimento”. Mas não cheguei a abordar a questão da indigestão da informação — indigestão sem o jogo de palavras proposto no parêntese do título —, que se dá tanto em função do excesso de informação propriamente dito, quanto na própria hipervalorização do “tempo real”, do “estar a par de tudo” — sem necessariamente pensar a respeito —, do acento às percepções mais básicas e ao prazer que estas proporcionam.
Indigestão, da maneira como penso, não seria apenas o mal-estar provocado pelo excesso — que por sua vez implicaria nalgum tipo de registro/entendimento do mau funcionamento de determinado processo. Poderia ser também a simples impossibilidade de processamento, no sentido do “não registro”, de “sequer ser notado”. Nesse aspecto, se por um lado o que a pesquisa do Damásio e o comentário do Castells apontam me preocupa, por outro, no que diz respeito à pertinência das minhas próprias reflexões, muito me alegram…
Acho que eles se referem ao fato de que em um telejornal as notícias são
ordenadas e justapostas não por tema, mas por uma relevância
absolutamente arbitrária, dada pelo editor. E aí as coisas acontecem
muito rápido: uma notícia de um seqüestro é seguida de uma sobre
economia, de outra sobrefutebol, todas muito rápidas. Quando chegou no
final do telejornal, a gente já nem lembra mais do seqüestro. E então o
seqüestro é tão normal quanto o futebol, a economia…. E eu acho que
isso é extremamente significativo sim.
Paulo, meu exemplo preferido foi o 11/09 a quantidade de notícias absurdas que saiu naquele dia foi imensa.
Juliano, pior do que isso é o fato de que os espectadores/leitores querem mais estímulos, e quase sempre se contentam apenas com o impacto inicial, a ser sucedido por novos impactos. O espaço (na verdade, o “tempo”) para a absorção e o processamento desses dados é mínimo, e a perspectiva de reflexão fica em último lugar.
well….me parece que após a demolição dos valores morais, o distinto público está necessitando de “tutores” para reaprender a assimilar fatos e associá-los a algum tipo de emoção.
Desconstruir tem dessas armadilhas. Não saber o que colocar no lugar. Anyway, é preciso preencher o vazio em que se tornou o pensamento atual , domesticando grupos e padronizando as reações aos fatos.
Concordo com o Juliano. Diferente da leitura, onde você tem o seu ritmo, em um vídeo editado, seja jornal, filme ou vídeogame, as informações chegam em um ritmo ditado pelo editor ou diretor que nem sempre auxilia esta digestão emocional. O interessante é a explicação neurológica disto. Acredito que a Comunicação já a conhecia e que este ritmo dos telejornais é proposital há muito tempo.
A advertência seria para a mídia de bom nível, ou seja, não estaria incluída aquela que veicula programas de crimes, onde a morbidez e a espetacularização de baixo nível da miséria e da criminalidade são linha editorial a embaçar a percepção da desgraça humana.
Mas a dita mídia de respeito vez em quando comete as suas ‘nardonizações’, séries de reportagens onde a exploração de um crime hediondo (geralmente contra criança) se transforma em novelinhas cujas chamadas e matérias enfaticamente repetidas durante o dia não deixam espaço para a análise ou o choque emocional. Produzem apenas o interesse pelo próximo capítulo.
Há algo errado também com o receptor da mensagem.
Já surge uma idéia na minha cabeça, os médicos responsáveis por esta incrível pesquisa (modo sarcástico ligado) devem ter já uma certa idade e não devem ser muito bons no manejo das ferramentas sociais e devem “catar milho” na hora de digitar.
Mas, falando sério, quanta besteira!
Eu tenho certeza de que “especialistas” diziam o mesmo do rádio, da TV, da internet e agora das redes sociais… Sempre que surge algum fato novo, alguma nova maneira de se espalhar informações, algum “especialista” anuncia o apocalipse!
Já, de pronto, questiono o que vem a ser “moralidade” para os diletos cientistas. Este problema, por si só, é quase intransponível.
Outro ponto relevantíssimo é a afirmação de que a velocidade da troca impediria o cérebro de registrar emoçães, ora, se o objetivo principal de ferramentas como o Twitter é exatamente o de expressar emoções, o que o indivíduo sente no momento, quer, faz, pode fazer e etc! Quer dizer que ao expressar emoções você se torna incapaz de…. compreender estas emoções? De captá-las? Como é isso?
E o teste em si me pareceu extremamente simplista, até boçal mas, como não sou “cientista” não posso comentar muito…
Enfim, me parece perigoso que “especialistas” venham criticar redes que facilitam a comunicação em escala mundial, ampliam nossa percepção do mundo, nos levam a milhares de lugares sem sair da frente do PC, nos conecta ao que nos interessa quase que imediatamente, nos aproxima de outros indivíduos, nos tira do individualismo pós-moderno e nos coloca em contato - mesmo que mediado por computadores - com outras pessoas pelo mundo…
Realmente, que pesquisa imbecil!
Já surge uma idéia na minha cabeça, os médicos responsáveis por esta incrível pesquisa (modo sarcástico ligado) devem ter já uma certa idade e não devem ser muito bons no manejo das ferramentas sociais e devem “catar milho” na hora de digitar.
Mas, falando sério, quanta besteira!
Eu tenho certeza de que “especialistas” diziam o mesmo do rádio, da TV, da internet e agora das redes sociais… Sempre que surge algum fato novo, alguma nova maneira de se espalhar informações, algum “especialista” anuncia o apocalipse!
Já, de pronto, questiono o que vem a ser “moralidade” para os diletos cientistas. Este problema, por si só, é quase intransponível.
Outro ponto relevantíssimo é a afirmação de que a velocidade da troca impediria o cérebro de registrar emoçães, ora, se o objetivo principal de ferramentas como o Twitter é exatamente o de expressar emoções, o que o indivíduo sente no momento, quer, faz, pode fazer e etc! Quer dizer que ao expressar emoções você se torna incapaz de…. compreender estas emoções? De captá-las? Como é isso?
E o teste em si me pareceu extremamente simplista, até boçal mas, como não sou “cientista” não posso comentar muito…
Enfim, me parece perigoso que “especialistas” venham criticar redes que facilitam a comunicação em escala mundial, ampliam nossa percepção do mundo, nos levam a milhares de lugares sem sair da frente do PC, nos conecta ao que nos interessa quase que imediatamente, nos aproxima de outros indivíduos, nos tira do individualismo pós-moderno e nos coloca em contato - mesmo que mediado por computadores - com outras pessoas pelo mundo…
Realmente, que pesquisa imbecil!
Já surge uma idéia na minha cabeça, os médicos responsáveis por esta incrível pesquisa (modo sarcástico ligado) devem ter já uma certa idade e não devem ser muito bons no manejo das ferramentas sociais e devem “catar milho” na hora de digitar.
Mas, falando sério, quanta besteira!
Eu tenho certeza de que “especialistas” diziam o mesmo do rádio, da TV, da internet e agora das redes sociais… Sempre que surge algum fato novo, alguma nova maneira de se espalhar informações, algum “especialista” anuncia o apocalipse!
Já, de pronto, questiono o que vem a ser “moralidade” para os diletos cientistas. Este problema, por si só, é quase intransponível.
Outro ponto relevantíssimo é a afirmação de que a velocidade da troca impediria o cérebro de registrar emoçães, ora, se o objetivo principal de ferramentas como o Twitter é exatamente o de expressar emoções, o que o indivíduo sente no momento, quer, faz, pode fazer e etc! Quer dizer que ao expressar emoções você se torna incapaz de…. compreender estas emoções? De captá-las? Como é isso?
E o teste em si me pareceu extremamente simplista, até boçal mas, como não sou “cientista” não posso comentar muito…
Enfim, me parece perigoso que “especialistas” venham criticar redes que facilitam a comunicação em escala mundial, ampliam nossa percepção do mundo, nos levam a milhares de lugares sem sair da frente do PC, nos conecta ao que nos interessa quase que imediatamente, nos aproxima de outros indivíduos, nos tira do individualismo pós-moderno e nos coloca em contato - mesmo que mediado por computadores - com outras pessoas pelo mundo…
Realmente, que pesquisa imbecil!
http://tsavkko.blogspot.com/2009/04/jovens-imorais-maldita-internet.html
Pedro Dória já estou falando via pandorama…
Quanto aos dois doutores alguém precisa explicar para eles 1- o que é globlizaçaõ 2- ela não pode ser detida. O liquidificador em que vivem as informações vão girar cada dia mais rápido. Emoções, os drs devem levar em conta que sem a defesa de um certo distanciamento crítico da foto de uma criança morta ( elas aparecem todos os dias ) enlouqueceríamos.
O post saiu mais que dobrado, não entendo o porque! odes deletar?
Aqui vai o correto:
Já surge uma idéia na minha cabeça, os médicos responsáveis por esta incrível pesquisa (modo sarcástico ligado) devem ter já uma certa idade e não devem ser muito bons no manejo das ferramentas sociais e devem “catar milho” na hora de digitar.
Mas, falando sério, quanta besteira!
Eu tenho certeza de que “especialistas” diziam o mesmo do rádio, da TV, da internet e agora das redes sociais… Sempre que surge algum fato novo, alguma nova maneira de se espalhar informações, algum “especialista” anuncia o apocalipse!
Já, de pronto, questiono o que vem a ser “moralidade” para os diletos cientistas. Este problema, por si só, é quase intransponível.
Outro ponto relevantíssimo é a afirmação de que a velocidade da troca impediria o cérebro de registrar emoçães, ora, se o objetivo principal de ferramentas como o Twitter é exatamente o de expressar emoções, o que o indivíduo sente no momento, quer, faz, pode fazer e etc! Quer dizer que ao expressar emoções você se torna incapaz de…. compreender estas emoções? De captá-las? Como é isso?
E o teste em si me pareceu extremamente simplista, até boçal mas, como não sou “cientista” não posso comentar muito…
Enfim, me parece perigoso que “especialistas” venham criticar redes que facilitam a comunicação em escala mundial, ampliam nossa percepção do mundo, nos levam a milhares de lugares sem sair da frente do PC, nos conecta ao que nos interessa quase que imediatamente, nos aproxima de outros indivíduos, nos tira do individualismo pós-moderno e nos coloca em contato - mesmo que mediado por computadores - com outras pessoas pelo mundo…
Realmente, que pesquisa imbecil!
http://tsavkko.blogspot.com/2009/04/jovens-imorais-maldita-internet.html
Pedro, essas correlações entre um estudo científico (que tem um recorte específico) e consequências amplas à vida quotidiana costumam ser um bastante precipitadas.
Com a palavra, para uma crítica bem-fundamentada, o linguista Mark Liberman:
http://languagelog.ldc.upenn.edu/nll/?p=1358
+ Essa pesquisa está conectada, ao novo conceito de repasse de informações, a revolução trazida pelos micro-blogs - em especial o Twitter. Há pesquisas tentando provar que pessoas que recebem informações por este tipo de mídia se tornam insensíveis a elas.
Assim como qualquer revolução, há os que erguem argumentos virulentos contra elas MAS, neste caso em particular, talvez estejam certos. Explico: A sobrecarga de informações faz com que alguns filtrem e retenham realmente só as que estão mais próximas dos seus interesses e não o todo.
A Gripe Aviária não toca o público em geral. A morte de um escritor favorito te arrasa. Isso sempre existiu, mas o Twitter e outras fast-food-medias podem acelerar o processo.
José San Martin, muito obrigado pelo link, o texto do Liberman é mesmo muito bom.
Pena que a leitura de parte dos comentaristas seja a de que haveria algum tipo de tecnofobia em jogo, ou no mínimo certa resistência a novidades do mundo tecnológico. O mesmo ceticismo — ou pelo menos algum distanciamento crítico — frente a estudos do gênero, apontado pelo PD no início do post, deve dirigir-se às “maravilhosas promessas” com que qualquer nova técnica nos acena.
Com certeza. Por mais céticos (ou por vezes ácidos) os comentários aqui constantes, a super-exposição (”overexposure”) mitiática e informacional não permite que determinadas conexões neuroquímicas sejam feitas. É biológico, neurofisiológico melhor dizendo, como tudo, absolutamente tudo que sentimos e vivemos.
Pedro, por favor divulgue as próximas manifestações contra Gilmar Mendes Dantas:
Atenção: Fora Gilmar DANTAS!
Belo Horizonte - 01/05 às 15:00 - Praça Afonso Arinos [em frente a faculdade de direito da ufmg]
São Paulo - 01/05 às 15:00 - Praça da Sé (próximo à OAB de São Paulo e o Palácio da Justiça)
Rio de Janeiro - 01/05 às 15:00 - Av. Rio Branco, altura da Rua Almirante Barroso
Brasilia - 06/05 - às 15:00 - Em frente as STF
vamos todos
dia 1º FORA MENDES (VAMOS DIVULGAR LOCAL E DATA)
Esse negócio de emoções, ligadas a valores morais, que demoram a se desenvolver no cérebro, estudo desenvolvido por dois cientistas portugueses, realmente, tem tudo para parecer piada.
O Efeito Blasé não surge com a internet, surge com as Grandes cidades(Simmel).
Não há como, se importar sempre, com todo mundo. A internet só agrava a situação, por almentar o escopo de informações e da analise, propiciando cada vez menos, oportunidade de se importar….
poxa, análises antigas, idéias antigas… análises do início do século XX sobre o estado ‘anestesiado’, ‘apático’ que os meios de comunicação com sua velocidade produzem… é pq agora isso aparece nos exames químicos?
e esse efeitos dos mass media ficou sem reação? anestesiou geral? vcs se sentem anestesiados?
Mas ora, Marco, o estudo é justamente sobre as consequencias da rapidez e de como as emoções aí vão se situando…Ou não deveríamos nos questionar sobre isso, tão sómente porque são fatos? Ou seja, onde o sujeito deveria tomar para sí as informaç~es e “traduzí-las” singularmente, em linguagem e emoções particulares e unicas (mesmo que posteriormente partilháveis),nesse lugar toma “a sopa linguistica” resultante das informações postas no liquidificador e acaba se tornando isso mesmo- a própria “sopa massificante”…