Israel continua igual mas os EUA
de Obama mudaram profundamente

EUA · Israel e Palestina · 21/04/2009 - 02h45 - 104 Comentários

O jogo diplomático no qual o novo premiê israelense Benjamin Netanyahu se enfurnou é antigo e conhecido.

Netanyahu, não importa o quanto lhe peçam diplomatas e jornalistas, se recusa a falar se apóia a solução de dois países independentes, Israel e Palestina. Diz que não tem interlocutor no lado palestino com quem conversar. E diz que conversa não é possível sem que os palestinos reconheçam, antes, que Israel é por definição um Estado judaico.

Embora oficialmente a Autoridade Palestina já tenha reconhecido o direito de Israel existir, não deu o passo seguinte de reconhecer-lhe a essência judaica. No momento que o fizer, estará abrindo mão do direito de retorno para milhões de palestinos. Fatalmente, isto ocorrerá. Mas ocorrerá na mesa de negociação, após Israel ter cedido um tanto.

Enquanto Netanyahu faz jogo duro, seu ministro das Relações Exteriores, o ultra-direitista Avigdor Lieberman dá entrevistas dizendo que é preciso preparar-se para a guerra.

A dança do premiê israelense tem motivo de ser e público alvo: a Casa Branca.

Netanyahu sabe que não há outra solução que não a de dois Estados, sabe que sempre há com quem conversar na Cisjordânia (e, se ele quiser, em Gaza) e que os palestinos só reconhecerão a Israel judaica quando o Estado da Palestina estiver para sair. Só que, enquanto Netanyahu joga duro, ele ganha tempo. Uma a uma, cederá em suas pré-condições. Vai demorar tanto quanto possível e sempre fará com que pareça uma concessão israelense. Neste jogo de faz-de-conta, o objetivo é postergar qualquer conversa séria ao máximo possível.

Só que, enquanto Netanyahu joga o jogo de sempre, em Washington estão mudando o script.

Desde janeiro, o governo israelense vem tentando marcar um encontro de chefes de Estado entre Netanyahu e Barack Obama. E, desde janeiro, vem ouvindo que neste momento não é possível. Obama esteve com líderes de incontáveis países enquanto Israel espera. O posto de amigo preferencial dos EUA se foi. Para somar insulto a injúria, Obama receberá o rei jordaniano Abdullah antes de enfim, no mês que vem, ele se sentar com o premiê de Israel.

Que os EUA mudaram as regras do jogo, pelo menos um membro do gabinete de Netanyahu já percebeu: é o ministro da Defesa Ehud Barak, ele próprio um ex-premiê. Segundo o que vazou de uma reunião do gabinete que ocorreu domingo, Barak insistiu com o primeiro-ministro que ele apresente a Obama um plano de paz detalhado com todas as reais condições de Israel. Que não faça jogo de cena, vá direto ao ponto. O que seu país espera e onde cede, com quem conversa, com quem não.

O novo governo norte-americano está impaciente. Quer resolver problemas no Oriente Médio e Ásia Central. O Iraque segue instável, há real desejo de diálogo para evitar um Irã nuclear, trazer estabilidade para a Síria no desejo de tranquilizar o Líbano é importante. A região é complicada. Um governo israelense que faça corpo mole para negociar a solução de seu próprio conflito é o suficiente para deixar os novos EUA de mau humor. E, segundo as pesquisas que têm em mãos, Obama sabe que a população judaica norte-americana está de seu lado, não no de Netanyahu.

Quando se encontrarem em maio, uma de duas coisas terá ocorrido: Netanyahu terá entendido o recado passado pelo chá de cadeira ou não. Esta conversa será definidora das relações entre EUA e Israel daqui para a frente.

Não é xadrez, é pôquer: desde 1967, Israel vem contando com a boa vontade norte-americana. Quem está blefando? Netanyahu cederá a Obama e se apresentará para negociações imediatas? E, se não ceder, Obama pela primeira vez virará as costas norte-americanas para Israel?

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