A lista de jornalistas de Protógenes Queiroz

Brasil · 8/04/2009 - 03h37 - 118 Comentários

Na segunda-feira, o Consultor Jurídico publicou a lista de 25 jornalistas grampeados pelo delegado Protógenes Queiroz.

Não está claro, ainda, se ele teve autorização judicial para interceptar as conversas telefônicas dos 25. Pelo menos no caso da arquiteta Manuela Rampazzo, filha da colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, a escuta não foi autorizada.

Quando, nos EUA, as conversas de jornalistas passaram a ser alvo dos arapongas da CIA, durante o governo George W. Bush, de presto a formação de um Estado policial foi acusada pela sociedade civil organizada. Porque é isto do que se trata: quando um delegado começa a pinçar jornalistas para espionar suas ações, trata-se de um Estado policial vigiando a imprensa.

Antonio Carlos Magalhães costumava dizer que existem três tipos de jornalista: um quer emprego, o outro quer dinheiro e o terceiro quer notícia. Político capaz de perceber quem é quem faz boas relações na imprensa, ele sugeria. ACM estava certo. Existem jornalistas corruptos. Existem veículos de imprensa corruptos. Mas a maioria dos jornalistas não é corrupta e a maioria dos grandes veículos tampouco.

Se o delegado estava investigando Daniel Dantas, deveria ter se fixado em seu foco. Se a polícia considera necessário investigar algum veículo, que o faça: legalmente, com relatórios claros e objetivos pré-determinados. Num Estado de Leis, é assim. Polícia não faz freelancer para dar uma investigadazinha ali ao lado.

Polícia não tem por função ficar bisbilhotando conversas de cidadãos livres que não foram acusados de nenhum crime e muito menos deve teorizar a respeito do que pode ser e o que pode não ser. Polícia investiga para levantar provas. Se levanta, leva à Justiça. Se não levanta, se cala. O delegado não levantou qualquer prova, inventou suspeitas de sua própria cabeça e delas extrapolou conclusões.

Corporativista? Considero o diploma de jornalismo um artefato de tempos passados, obsoleto faz pelo menos dez anos, só o sindicato não percebeu. Considero boa parte dos jornalistas uma turminha danada de conservadora, dentre as profissões menos dispostas a aceitar mudanças que pode haver. Não sou corporativista. Mas sou jornalista. Quando a polícia começa a rondar quem está legitimamente exercendo seu papel de ouvir fontes e publicar o que ouviu, meu alerta interno começa a apitar alto.

É claro que qualquer um que levante a espada prateada e saia como dom Quixote à caça de corruptos chamará atenção. Se parte contra instituições com poder, o serviço é mais fácil – mega-empresas, bancos, Congresso e grande imprensa estão entre as instituições com poder. Mas paladinos da moral estão entre os seres mais perigosos em uma democracia. Ainda mais quando têm, eles mesmos, alguma forma de poder. É quando os abusos de autoridade ocorrem.

Jornalistas não estão à prova de investigação. Mas, como qualquer outro cidadão, é preciso que a investigação tenha um objetivo claro. Não pode ser feita de banda, em paralelo, contrabandeada no meio de outra investigação. A polícia não pode se achar no direito de sair ouvindo as conversas de qualquer cidadão. Um policial, quanto mais um delegado, não é um inocente: é um braço do Estado. A polícia é uma forma particularmente crua de poder, tem o poder de interceder pela liberdade ou não de uma pessoa. Quando a polícia parte contra a imprensa, ameaça aqueles na sociedade que têm por missão informar.

Não se pode ameaçar a imprensa para desenvolver ‘teorias’ – e, em seu relatório, era só isso que Protógenes Queiroz diz querer: teorizar a respeito da corrupção da imprensa. Não faz uma única acusação. Não diz que um único jornalista ganhou um centavo para publicar algo. Não mostra um único favor. Insinua, denigre, bisbilhota ameaçador, quebra a privacidade de cidadãos livres arrogantemente. Não levantou um único fato. Mas o delegado não precisa de fatos. Basta insinuar.

É claro que Protógenes Queiroz tem fãs: é só ler na Internet. Basta ler, aposto, nesta caixa de comentários aqui abaixo. E isso é apavorante.

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