Vitória dos criacionistas no Texas

Ciências · 6/04/2009 - 10h52 - 118 Comentários

Repercutiu pouco fora da comunidade científica, mas a discussão é particularmente importante aqui nos EUA: na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau. No primeiro instante, o resultado da reunião do conselho foi divulgado como uma vitória para a trupe de Darwin.

Mas não tão rápido.

Os criacionistas – inclua-se na lista o presidente do Conselho – queriam inserir a exigência de que os professores de ciência do estado ensinassem ‘o que é forte e o que é fraco’ a respeito de cada teoria científica. Tais palavras não foram aprovadas – e por isso alguns acharam que se tratava de uma vitória. Mas o texto terminou incluindo a exigência de que ‘todos os lados das evidências científicas’ deveriam ser apresentadas aos alunos.

Para impor sua visão religiosa, os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam.

A Teoria Atômica, portanto, não é uma suspeita de que átomos existam. É a detalhada explicação de como átomos funcionam. A Teoria da Gravidade não sugere que a maçã deverá cair. Ela explica como corpos com massas se atraem e determina que a maçã, de massa menor, será irremediavelmente atraída em direção à Terra, de massa maior. (A Terra também será atraída em direção à maçã, diga-se.) A Teoria da Evolução tampouco é uma possibilidade. A Evolução aconteceu. A Teoria explica como.

O Texas é o estado mais importante dos EUA nessas questões educacionais. Por um motivo: a educação de base norte-americana é pública e nenhum estado tem tantos alunos em sua rede quanto o Texas. É, portanto, o maior comprador de livros didáticos do país. Se os editores tiverem que adaptar seus livros para vender no estado, tais serão os livros consumidos em todo o país.

Nessas horas, o que salva é o humor. Escrevendo na Newsweek, Cristopher Hitchens sugere que a idéia de obrigatoriedade do ensino ‘do que é forte e do que é fraco’ no argumento seja estendida. Toda igreja e instituição religiosa que receba algum tipo de benefício fiscal deveria, de presto, apresentar em seus sermões e cursos os argumentos contrários a suas crenças.

Não importa se os argumentos não forem religiosos. Afinal – não é isso que querem? Impor argumentos religiosos nas aulas de ciência?

Ainda sobre o assunto:

  1. Que é ciência? E para que ela serve? Costuma ser um prazer ler o que escreve Hélio Schwartzman, editorialista da Folha de São Paulo. Sua última coluna na...