Lula, brancos de olhos azuis
e quem tem culpa nesta crise

Brasil · China · EUA · Ásia Central · 30/03/2009 - 12h56 - 226 Comentários

Vários de vocês têm me pedido, nos últimos dias, para repercutir o comentário do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que culpou ‘essa gente branca com olhos azuis’ pela crise mundial.

O presidente cometeu uma gafe ao revelar preconceito e analisou errado o problema.

A gafe é simples: presidentes cometem gafes a toda hora. Todos eles – vacilou, um fala besteira e revela preconceito. Fernando Henrique e seu pé na cozinha que o digam. Com Obama foi uma descrição dos norte-americanos pobres do sul que cultivariam suas armas e a Bíblia por ressentimento. George W. Bush e Gordon Brown, que estava do lado de Lula, têm longo histórico. A besteira rende um bocado de discussão na imprensa, repercute internacionalmente e continua querendo dizer absolutamente nada. Não afeta o comércio exterior, não altera a crise para melhor ou para pior. Mas rende assunto, nós jornalistas precisamos escrever sobre alguma coisa e o público adora uma desculpa para malhar seus políticos.

O maior problema da gafe de Lula não é o preconceito – brancos de olhos azuis ricos, afinal, costumam ter bastante gente que os proteja. O maior problema é que se trata de uma análise demagógica e, no fim das contas, errada.

Primeiro, porque crises econômicas são cíclicas. Elas sempre vêm. E segundo porque, neste caso em particular, havia muita gente não necessariamente branca e não necessariamente norte-americana fazendo apostas e faturando na alta.

Os EUA estão sofrendo particularmente. O valor líquido do país despencou nos últimos dois anos de quase 70 trilhões de dólares para 53; são 15 trilhões que ‘desapareceram’ do mundo.

É fácil culpar ‘os bancos’ – ou ‘os brancos’ –, mas é mais complexo do que isso. Os bancos emprestaram para alguém. A classe média norte-americana também é responsável pelo seu próprio endividamento. Não apenas porque a classe média dos EUA comprou casas a prazo que não teria condições de pagar. É um fenômeno cultural mais profundo do que isso: a classe média dos EUA passou os últimos quinze anos criando dívidas. Aproveitando-se de taxas de juro muito baixas, não há um que não tenha entre cinco e dez cartões de crédito na carteira e que, por hábito, não role a dívida de um cartão em outro, pague os juros mensalmente sem jamais tocar no principal, e siga acumulando 10, 20, 50, 100.000 dólares em débitos a pagar.

Ainda estaríamos no universo dos EUA se parássemos aí – mas alguém estava produzindo aquilo que os norte-americanos consumiram a prazo. O crescimento da China nos últimos anos não veio do nada. Tampouco o da Índia. Ou mesmo o do Brasil. Foi porque os EUA fizeram uma aposta em sua ampla capacidade de endividamento, que o maior mercado consumidor do planeta passou a consumir ainda mais e houve quem lhe vendesse enquanto, ora pois, rolava sua dívida. Somos todos credores dos EUA: China, Índia, Brasil e alguns tantos outros que fizeram gordas reservas em dólares.

O PIB norte-americano é de quase 14 trilhões de dólares. É capaz de escorregar para a casa dos 12, este ano. Por sua vez, a dívida interna passou a marca dos 10 trilhões em outubro passado. Já está em 11 trilhões. É bem possível que, ao longo de 2009, todos os norte-americanos devam juntos, na praça, o equivalente àquilo que o país produz em valores brutos anualmente. É um feito e tanto, principalmente porque os EUA são a maior máquina de produção de riqueza jamais criada pela humanidade. Ninguém produziu tanto anualmente na história. E dever tudo aquilo que você faz não dá certo.

Não é negócio para ninguém que os EUA quebrem. Mas duas culturas diferentes vêm sido criadas entre as duas maiores potências do mundo. A China guarda dinheiro com vistas a produzir uma poupança absurda capaz de salvá-la na hora do aperto. Os EUA, que nos anos 1940 e 50 tiveram uma cultura de poupança, hoje gastam como se não houvesse amanhã. A China terá que aprender a gastar e os EUA, a poupar. Para o bem de todos.

Nada disso, evidentemente, quer dizer que não exista irresponsabilidade no jogo. Nos EUA, bancos sempre tiveram vários limites de atuação, agências reguladoras razoavelmente atentas, regras para a quantidade de dinheiro que poderiam emprestar dependendo do que tinham de lastro no cofre. A desregulamentação que teve início no governo de Bill Clinton, no entanto, ampliou os poderes de outras empresas financeiras. Fundos de investimento, seguradoras, agências de classificação de risco – todos começaram a agir em conjunto, numa louca ciranda promíscua, que permitiu que várias empresas assumissem mais funções do que jamais puderam.

Os papéis negociados em mercado nos últimos anos, que juntavam cortes de hipotecas, fragmentos de dívidas, ficaram impossíveis de serem acompanhados. Quando ninguém – nem quem classifica o risco, nem quem faz o balanço, nem quem deveria regulamentar – sabe fazer a conta do tamanho do buraco é porque alguém permitiu algo que não devia ter sido permitido. Balanços existem para ser legíveis.

Sim, Wall Street faturou com a ciranda louca e muita gente de terno e gravata – olhos azuis ou não – cometeu crimes nesse meio tempo. Mas crises são cíclicas. E, no caso desta, os ricos não têm a culpa sozinhos.

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