Havaí, casamento gay, sungas e surf

EUA · Pessoal · Sexualidade · 27/03/2009 - 14h37 - 69 Comentários

kauai

Um dos assuntos dominantes no Havaí, nesta semana que passou, foi o projeto de lei que circulava pelo Senado estadual para legalizar a união civil entre homossexuais. Ontem, com fanfarra, o Senado de maioria Democrata derrubou o projeto. Fanfarra mesmo: fizeram questão de ter a imprensa presente, de falar à tevê, de alardear ao mundo sua moralidade.

Alguns de vocês por certo já conheceram o Havaí. Eu nunca havia sequer cogitado uma visita, mas a crise, uma oportunidade, e um presente repentinamente lançaram a mim e a Marina, minha mulher, no arquipélago perdido no meio do Oceano Pacífico por quase uma semana.

Assistimos a um protesto contra a lei: umas cinqüenta pessoas com cartazes religiosos sobre o que é e o que não é natural e camisetas vermelhas. Na defesa dos gays, nem um bóton. Ainda assim, não era raro o hotel que tivesse um adesivo com a bandeira do arco-íris, ou restaurantes que a erguessem ao lado das bandeiras do estado e dos EUA. O Havaí é considerado um dos pontos turísticos mais receptivos a gays do planeta e isso é evidente. Casais de lésbicas aos 50 haviam vários circulando pela ilha. Casais de homens, idem.

Entre a sexta-feira passada e ontem, não houve um único dia em que a manchete do Honolulu Advertiser, o principal jornal do estado, não tratasse de como a crise econômica está afetando o arquipélago. Os preços dos pacotes turísticos estão no chão, hotel cinco estrelas derrubando as tarifas para o preço dos de três, os de três concorrendo com motéis de beira de estrada, e estes brigando com albergues.

Política às vezes tem disso: o Senado do Havaí acaba de comprar uma briga pública com o público mais fiel ao turismo que sustenta a região.

Ficamos em Kaua‘i, a segunda menor das oito ilhas havaianas. Ela é conhecida como a garden island: é o ponto de maior incidência de chuvas do planeta e a maior reserva de mata tropical do arquipélago. Só 41 km2, população de pouco mais de 2.000 pessoas. Para padrões cariocas, não é quente: a temperatura não passa dos 35°. Mas é úmido, é praticamente verão o ano todo e tem praia para tudo. Praia de areia grossa e de areia fina, praia de surfista com ondas enormes e praia com piscininha natural para as crianças brincarem. Em tudo quanto é praia, os canudos do snorkel aparecem à distância, onde a água fica mais escura. São os recifes de coral, onde estão alguns peixes espetaculares.

A Lucia Malla, que além de bióloga, vive por ali, sabe disso: a beleza do lugar é atordoante. Fomos acompanhados por golfinhos de barco, nadamos com tartarugas, vimos baleias emergindo e mergulhando a metros de distância. Os pássaros tem todas as cores – deu uma saudade da exuberância dos trópicos que só quem é dos trópicos conhece. Mas deu também um aperto no coração: uma água transparente a que eles têm. No Rio, não há. Mal tem peixe – quanto mais baleia. No entanto, havia até um século atrás. Talvez seja natural que em áreas muito densas, Copacabana, Ipanema, a fauna marinha se afaste. Para lá do Recreio, não faz sentido.

A gente destrói as coisas.

Mas tem coisas de americano. Difícil encontrar um restaurante que faça um peixe cozido ou na grelha; há que ser frito. Há um nítido conflito entre um ideal hollywoodiano de como trópicos deveriam ser e a cultura local. Impossível encontrar um luau – dentre as festas tradicionais da população nativa – que seja original. Tudo espetáculo para haole ver. O drinque favorito é a pina-colada, mais centro-americano do que polinésio. Por outro lado, todas as ruas têm nomes nativos, todas as cidades.

Há uma cultura praiana de andar sem camiseta na rua e com chinelos de dedo. Surfa-se. Mulheres, mães ensinando filhos, adultos no alto do pranchão, remando em pé em direção a onde a onda quebra. Os biquínis, ora pois, são quase sempre enormes. Quase. Aqui e ali se vê uma ou outra com um corte tupinambá. Marina até que não se sentiu de todo deslocada. Já sunga, não há um que use. Me senti, como costumo me sentir na Califórnia, uma espécie de alienígena, um homem com o estranho fetiche de mostrar as pernas. Sentir-se ridículo é inevitável. A alternativa é mergulhar com um bermudão que vai até os joelhos e que deve fazer uma das marcas de sol mais ofensivas que podem existir. Ridículo também, com a diferença que dura até o queimado de sol passar.

O que não é ridículo, apesar do estereótipo no Brasil, são as camisas havaianas. Tem umas que são belíssimas. Trouxe uma, claro. Vai fazer sucesso em Ipanema até o primeiro pivete me assaltar, na esquina, achando que sou turista.

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