Ahmed Rashid: negociar com o Talibã
é fácil; Difícil é fazer todo o resto

Ásia Central · 12/03/2009 - 02h25 - 38 Comentários

Negociação com a cúpula central do Talibã não será possível. Os homens liderados pelo mulá Omar estão mais radicalizados do que antes do Onze de Setembro. Estão, também, engajados no compromisso com a jihad global de Osama bin Laden. Com os comandantes Talibã em campo é diferente. É possível cooptá-los. Mas esta será uma negociação complexa: será preciso participação ativa do Paquistão, da Índia e um amplo engajamento internacional que terá de incluir Europa e China. Sozinhos, os EUA não conseguirão.

Na última terça-feira, estive com Ahmed Rashid, talvez o maior especialista em Talibã que existe no mundo. Jornalista paquistanês, educado no Reino Unido, já tinha escrito um livro sobre o grupo muito antes de o Onze de Setembro tornar seu nome conhecido internacionalmente. A conversa foi centrada no plano do presidente norte-americano Barack Obama de negociar com o grupo e sobre os novos dilemas do terrorismo. Hoje, vamos de Talibã.

Cooptar os comandantes do Talibã em campo, no Afeganistão, não só é possível como fará toda diferença. Cada comandante destes controla 500 homens e, com eles, umas 3.000 famílias. São estes que lutam a guerra. Mas virar-se contra o Talibã envolve risco pessoal para os comandantes. Não é raro que suas famílias morem no Paquistão. Muitas vezes, têm terras no país vizinho. O Talibã é tão bem relacionado com a ISI, serviço secreto paquistanês, que a decisão de abandonar o grupo envolve risco pessoal. As famílias e as terras dos comandantes são reféns.

Não é apenas isso: a ISI facilita o fluxo de dinheiro para o Talibã, de dentro e de fora do país. Com dinheiro fácil na mão e armamento, o grupo segue forte.

Portanto, antes de uma negociação em ampla escala com o Talibã ser possível, será preciso convencer a ISI de que renegar o grupo do mulá Omar é de seu interesse. Só que, aí, há um problema. A ISI é quem define as diretrizes e a estratégia das forças armadas do país. No Paquistão, as principais empresas estão nas mãos de generais. Aliás, boa parte da economia.

A história do Paquistão toda pode ser contada em um ciclo: uma ditadura militar termina desmoralizada, é substituída por um governo civil corrupto e ineficiente. Um golpe militar o derruba, mas após anos termina desmoralizado. Como no regime militar não surgiram novas lideranças políticas civis, os velhos líderes são reconvocados e retornam como salvadores que têm as mesmas fraquezas que culminaram com golpes 10 ou 15 anos antes. É o ciclo paquistanês que, sem democracia contínua por longos anos, não consegue se renovar. Os militares são tão fortes na estrutura interna que raramente são controlados pelos governos. E os militares fazem o que consideram ter que fazer: defender seu país da Índia. 80% do currículo da escola de preparação de oficiais do Paquistão é Índia.

A maneira de combater a Índia vem sendo há umas duas décadas alimentar radicais islâmicos na fronteira do país, principalmente na região da Caxemira. A fronteira indiana sempre foi o problema do país aos olhos de suas Forças Armadas. A fronteira afegã, não. O Afeganistão era o quintal paquistanês. Mas, nos últimos anos, dinheiro indiano financiou uma longa estrada que parte do Afeganistão e termina no Irã. Por sua vez, o Irã oferece os maiores incentivos aos afegãos: tarifa zero, armazenamento gratuito. O Paquistão era a única via de escoamento, não mais. A Índia provoca – e gosta de provocar.

Mas não interessa à Índia o colapso do Paquistão. E o país está próximo de entrar em colapso completo. Há outros países ingovernáveis no mundo. Potência nuclear, não. E assim é o Paquistão. A Índia precisa retroceder e dar garantias ao Paquistão. Sem garantias excepcionais, a difícil tarefa de aplacar a paranóia do Exército paquistanês é impossível. Sem aplacar tal paranóia, o apoio da ISI ao Talibã persistirá. Sem o fim deste apoio, esperar deserção de grandes comandantes do Talibã é difícil.

E a deserção seria apenas o primeiro passo para o fim do conflito no Afeganistão. O país não tem qualquer infra-estrutura. Precisa de estradas, de rede transmissora de energia, água encanada. Sem tais elementos, a nação não será uma nação e os conflitos carniceiros persistirão. Portanto, é preciso dinheiro – muito dinheiro. Os EUA não têm este dinheiro em 2009. Talvez não venham a tê-lo durante o primeiro mandato de Obama, tamanha é a crise. Daí, Washington não conseguirá resolver tudo sem apoio chinês e europeu. Mais gente precisará contribuir para o caixa afegão para que o país tenha alguma chance.

Negociar com o Talibã? É possível, claro. Este, no entanto, é o menor dos problemas que o Afeganistão apresenta.

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