Índia e a maior eleição da história
No dia 16 de abril, começará uma maratona estupenda que é a eleição nacional da Índia. Não há muitas esperanças de que o Partido do Congresso, que governa o país desde 2004, se mantenha no poder. Mas o outro grande partido, os nacionalistas hindus de direita do Bharatiya Janata também não vêm encontrando amplo apoio popular. Talvez de forma contra-intuitiva, seu discurso anti-muçulmano após os atentados de Mumbai não ressoaram.
A Índia é a única democracia do mundo com um bilhão de habitantes, dentre os quais 700 milhões são eleitores. Não é, do ponto de vista prático, simples conduzir uma eleição com este vulto. Por conta, não há um dia de eleição e sim um período eleitoral – os estados votarão entre os dias 16 de abril e 13 de maio em cinco eleições. Os resultados devem ser anunciados em 16 de maio, exatamente um mês após o início da votação.
Sempre foi difícil, num país tão grande, criar partidos nacionais. Nos últimos anos, os diferentes níveis de desenvolvimento de cada estado e as diferentes tensões étnicas e religiosas que cada região enfrenta contribuíram para fragmentar ainda mais a política nacional indiana. E os estados, afinal, têm todos tamanhos de nações. O maior deles, Uttar Pradesh, com mais de 190 milhões de habitantes, dá um Brasil inteiro. A política da Índia, portanto, tende a ser várias eleições regionais que desembocam em Nova Delhi, a capital. Não é à toa que, de Jawaharlal Nehru a Indira Gandhi, oito dos catorze premiês da história indiana vieram de Uttar Pradesh.
A atual ministra-chefe (governadora) de Uttar Pradesh atende por nome sem sobrenome: Mayawati. Ela é uma dalit, a casta dos intocáveis, a mais baixa. Está na política faz três décadas, cai à esquerda, tem apelo para os desfavorecidos do país (que não são poucos), é carismática. Também tem, no passado, denúncias de corrupção. Embora uma vitória em seu estado queira dizer muito, votação alta em outros cantos será importante. Se ela chegar perto, a Índia é parlamentarista. Ou seja, o partido que formar as melhores alianças leva o governo. O Partido do Congresso conseguiu, em 2004, por ter feito uma aliança com os comunistas e outros partidos de extrema-esquerda pequenos porém presentes. Estes, agora, estão conversando com Mayawati.
O Brasil vende minerais – principalmente cobre e ferro – para a Índia. Não é, ainda, uma relação econômica tão estreita quanto aquela com a China. Mas um acordo tripartite assinado em 2006 entre Brasil, Índia e África do Sul prometia abrir, para cada um dos parceiros, mercados em suas determinadas regiões. Potencialmente, é uma relação que pode ser extremamente lucrativa. Na Índia, os mandatos são de cinco anos. O próximo governante é quem investirá (ou não) no desenvolvimento da relação.
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De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, no ano passado o intercâmbio comercial entre Brasil e Índia foi de US$ 281 bilhões, e o saldo comercial foi de US$ 40 bilhões a favor do Brasil.
O principal produto importado da Índia é o gasóleo, mistura natural de gás e óleo diesel, responsável por 41% das importações vindas da Índia. As principais exportações brasileiras foram minério de cobre, com 19,94%, e óleo de soja, com 17,21%. Nada de computadores.
Como sempre, Brasil exportando material de pouco valor agregado.
A Índia, apesar de estar ali do lado, ainda é um mistério pra mim.
( parece que o povo se interessa mais pelo “caminho das indias” do que pela india…kkkk)
Depende, quem viu “Slumdog Milionaire” vai ter uma visão bem diferente do que é a Índia.
Temos semelhanças nos problemas também.
Ainda que prefira ser brasileiro a indiano.
Esse tabuleiro político é bem encrencado! A India é um portento tecnológico, isso devia ser mais simples.
É muito estranho a falta de partidos nacionais o que pode transformar o Parlamento numa casa de desconhecidos, sem nenhuma ligação entre eles.
Gostaria de saber como nascem os consensos ali.
Paul0 Roberto Silva,
São estes números mesmo? U$280 e U$40 bilhões?
ABC, a Índia não tem quase nada a ver com que o filme Slumdog Millionare mostra. É muito mais rica e variada do que o filme mostra. Mumbai, por exemplo, está longe de ser uma favela gigante que só agora começa a se modernizar: Este processo começou no começo da década de 90 não só em Mumbai mas por toda a Índia.
A Índia já fazia experimentos com urnas eletrônicas desde 1981. O processo hoje é praticamente todo eletrônico, desde a seleção dos mesários, realizada de maneira aleatória, com cidadãos que não moram na região da zona eleitoral correspondente, até o voto propriamente dito, e a sua contagem. Mais ou menos como no Brasil, a diferença é que a complexidade aqui é muito maior.
Sobre software, não sei como estes números entram na contagem de “exportação” e “importação” de ambos os países mas sei que tanto empresas de software brasileiras estão na Índia, quanto empresas indianas estão no Brasil. Há sim troca de conhecimento, mão-de-obra, e tecnologia, embora os números ainda sejam um tanto inexpressivos. Mais informações no site da Associação Nacional da Indústria de Software Indiana: http://www.nasscom.in/
Amílcar, a fragmentação partidária representa a própria fragmentação do país, repleta de diversos interesses políticos, econômicos, culturais, e religiosos distintos e muitas vezes conflitantes. Muitos estados, inclusive vizinhos, são quase um outro país de tão diferentes. Os consensos, entretanto, vão ocorrendo por pressões que não podem mais esperar.
Nandan Nilekani, um dos fundadores da Infosys, maior empresa de software da Índia, descreve a política Indiana como intensivamente reativa. Em seu livro recente, “Imagining India”, ele cita a fala de um político (se eu lembrar o nome, coloco aqui) que diz que é fácil tomar uma decisão difícil quando ela é a única disponível. É mais ou menos como as coisas funcionam aqui.
enquanto isso o México esfarela. Discute-se se é governável. Alca, lembram dela? Passou perto do Brasil. Viva o Bric!
[...] aqui na Índia, agora dia 16 de abril até 13 maio. Pedro Doria, entretanto, fez um bom trabalho em resumir a coisa toda. Segue abaixo um trecho do texto dele: A Índia é a única democracia do mundo com um bilhão de [...]
esse lance de dizer que a India é uma democracia é de lascar… democracia onde vigora oficialmente um sistema de castas? Onde há censura? Só porque tem eleição? menas né? menas…
Realmente a India não é igual ao filme. É pior.
http://e-educador.com/index.php/notas-mainmenu-98/2946-indicator01
Um terço de miseráveis morando em favelas imundas.
Tiago,
o sistema de castas foi oficialmente abolido .
Agora, culturalmente são outros quinhentos.
Thiago,
A Índia é sim uma enorme democracia. Políticos extremamente poderosos já perderam no passado muito das suas respectivas forças por abusarem da autoridade que possuíam enquanto estavam no comando ou por abusarem de incompetência administrativa.
Além disto, “oficialmente” não vigora sistema de castas nenhum. É proibido por lei discriminar por castas e muitas das políticas de inclusão do país ocorrem em função delas. Para fazer um paralelo, é mais ou menos como a questão racial no Brasil (há inclusive cotas por castas nas universidades daqui).
Censura existe aqui na Índia e aí no Brasil também. Acho que nem preciso entrar em detalhes sobre este tópico, né, Thiago? Se a Índia tem um problema sério que mitiga sua democracia, este problema chama-se corrupção. A mesma permeia todas as esferas da sociedade e em muitos casos, ela nem é percebida, ao contrário, é tratada como prática válida.
+ E também resolvemos importar o conceito Boolywood de fazer novela? Eu não sei os personagens, mas na hora da novela da Glória Perez, alguns controles de TV são intocáveis.
Aqueles que nunca estiveram na Índia, não sabem a miséria daquele lugar. Estive, pela minha empresa, em 4 cidades indianas, por 3 vezes. Todas essas cidades, sem exceção, são incrivelmente sujas, pobres, deorganizadas. Não há, de maneira alguma, como traçar um paralelo com as principais cidades brasileiras. Mesmo os pontos turísticos, centrais, desenvolvidos, assutam cheiro no ar, a sujeira no chão, a imundície dos espaçoes públicos.
Aqueles que viram o Slumdog milionaire, a realidade é, sim, muito parecida com aquilo.
“De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) as relações comerciais entre Brasil e Índia estão há dois anos com déficit. No ano passado, as transações comerciais entre os dois países foram deficitárias em US$ 2,461 bilhões para o Brasil, valor que superou o saldo negativo de 2007, que ficou em US$ 1,211 bilhão.
As exportações brasileiras para a Índia somaram US$ 1,102 bilhão, valor 15,1% acima do registrado em 2007. No entanto, as importações brasileiras de produtos indianos, apresentou um crescimento de 64,3%, na comparação entre os dois últimos anos, passando de US$ 2,169 bilhões para US$ 3,564 bilhões.
No relatório geral de importações brasileiras a Índia passou 1,80% para 2,06%, na mesma comparação, ocupando a 11ª colocação no ranking de fornecedores de produtos ao Brasil, três acima da ocupada em 2007. Já a Índia ocupou a 40ª posição dentre os mercados de destino de produtos brasileiros, quatro abaixo em relação ao ano anterior.
Segundo informações do Mdic, os produtos industrializados responderam por 66,4% do total exportado e os produtos básicos, por 33,6%. Em relação ao ano anterior, os produtos semimanufaturados e manufaturados cresceram 6,4% e 34% respectivamente, enquanto os produtos básicos cresceram apenas 5,3%.”
Fonte: http://www.global21.com.br, 10 de março de 2009.
A Índia é a Grande Prova para o mundo de que a democracia não precisa de nações monoétnicas, monolinguais, ocidentais, brancas, de maioria cristã, com classe média ampla e nível educacional alto para prosperar, como muitos já argumentaram e ainda argumentam.
Sadam #16, ir ou não a Índia não quer dizer muita coisa. A experiência individual quase nunca é representativa do todo. Especialmente se você visitou apenas 4 cidades de um país onde tudo é diferente de uma para outra.
Eu moro aqui desde 2007 mas estudo o país em livros e artigos e por isto volto a afirmar que a Índia não é o que o filme Slumdog mostra. Aquele é um trabalho de ficção e nunca teve a pretensão de mostrar a realidade do país. Mostra sim, um dos seus lados mais chocantes mas que não é representativo do todo.
Você veio a Índia 3 vezes mas será que visitou os estados de Kerala, Tamil Nadu ou Goa? E se visitou Delhi, Mumbai ou Bangalore, por exemplo, discordo que estas cidades sejam “incrivelmente sujas, pobres, deorganizadas”. Delhi, em particular, dá um banho em muitas grandes cidades brasileiras.
Eu não estou dizendo que a Índia não seja pobre. Ela é, e muito. Estou dizendo que existe um outro lado (ou vários deles) que o filme, por exemplo não mostra.
Aliás, em alguns casos, é uma pobreza relativa. Grande parte da população Indiana ainda é rural e vive da subsistência agrícola. Não é a pobreza de favelas e sujeira que sempre imaginamos.
Ricardo, qual o tamanho do mercado consumidor da Índia? Gente que compra carro, tênis nike, pc, geladeira. Como chama a Casas Bahia daí?
Bob,
Estima-se algo entre 200 e 300 milhões de Indianos.
A maior rede pertence ao grupo Pantaloon e é distribuída em lojas com diferentes focos: Big Bazaar é o hypermercado, Electronics Bazaar, eZone e Staples vendem eletrônicos, e assim por diante: http://en.wikipedia.org/wiki/Pantaloon_Group.
A Tata Group, o maior conglomerado Indiano, recentemente iniciou operações no varejo também. Sua rede chama-se Star Bazaar mas ainda é pequena em comparação ao grupo Pantaloon.
A democracia Realtragista resolveria o assunto da Índia.
nrafel, #6, isso mesmo. O número maior é a soma das importações e exportações. O menor é a diferença entre elas.
Ricardo, não duvido de você. Até acredito que o país vai muito além do quadro demonstrado no filme. Acreditar no contrário seria como dizer que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro de “Cidade de Deus”.
Mas ainda assim suponho que a pobreza lá descrita seja uma parte desse todo. Sobre a Tata, inclusive creio que ela pegou um contrato de produção de sistemas com a Caixa (federal).
Vocês exageram.
Para vacas, macacos, ratos, a Índia é o paraíso.
Nunca estive na India e pouca coisa nela me atrai. Ricardo, me perdoe mas acho que você está sublimando uma realidade que o mundo todo conhece, a Índia tem oficialmente mais de 1/3 da gigantesca população abaixo da linha de pobreza (miséria) onde cada cidadão sobrevive com menos de um US$/dia. Mais da metade da rica Mumbai vive em favelas (10 milhões) e você vem nos dizer que não é bem assim, que são exageros e tal. Não discordo do vigor econômico da “incredible India”, a 10a. economia do planeta, logo atrás da China, mas esta riqueza só tem aumentado o fosso social segundo a própria ONU e as desigualdades sociais superam em muito o Brasil, que segundo economistas (inclusive um indiano, prêmio Nobel se não me engano) afirmou que nosso país, dos Brics, é o que tem melhores perspectivas, tendo em vista nossos problemas serem infinitamente menores. Viva o Brasil. Viva a Índia.
A historia e otima mas pq vcs na introducao falam sobre a tecnologia na indaia a que aparece no cartao de visita de vcs no google e nao tem tecnologia na india porcaria nenhuma hein?