O delegado Protógenes, a revista Veja
e o método Hoover de investigar

Brasil · 9/03/2009 - 12h21 - 355 Comentários

É preciso ler mais de uma vez a resposta do delegado Protógenes Queiroz à reportagem de capa da Veja para compreender o que ele diz ou o que desmente.

Após ler mais de uma vez:

1. Ele não desmente que tinha em casa dados sobre a investigação de mais de uma figura importante da República.

2. Diz que não investigou José Dirceu, Gilberto Carvalho, Heráclito Fortes, ACM Jr., Roberto Mangabeira Unger e a possível candidata à presidência Dilma Rousseff a respeito da Satiagraha. Mas não nega ou confirma se os investigou.

3. A Veja também cita o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Protógenes nem nega, tampouco confirma, que ele tenha sido investigado. Só diz que as investigações que fez foram todas legais.

É importante que qualquer um possa ser investigado num Estado de Leis. Mas, se houve algum tipo de investigação que incluiu a vida amorosa de uma ministra de Estado que pode a vir ser presidente, foi com que objetivo?

J. Edgar Hoover, que por décadas controlou o FBI, polícia federal aqui dos EUA, mantinha longos e detalhados relatórios de espionagem que usava para chantagear os poderosos e se manter no poder. Existe uma linha tênue que separa a legítima investigação daqueles com poder e o exercício da espionagem interna para obter poder.

O pobre do leitor que não tem compromissos com a disputa ideológica mas quer saber o que aconteceu termina as duas leituras perdido. Afinal, sabe que na Veja a questão com o delegado é pessoal. Quem, portanto, terá razão?

Atualização – Senhores, li atento seus comentários. Entendo e compartilho a indignação. E, me permitam deixar claro, não confio nos critérios jornalísticos da Veja. Mas creio que há algumas confusões sendo feitas. A confusão é imposta, diga-se, pela imprensa de ambos os lados da disputa ideológica. Interessa confundir esta questão que já não é simples para transformá-la em briga de torcidas.

Não confio, pessoalmente, nos critérios jornalísticos de Veja porque Veja, desde o início, escolheu um dos lados numa briga na qual não há mocinhos e bandidos. Jornalismo não deveria escolher lados. Deveria buscar explicações para o que acontece.

O que há são dois grupos financeiros poderosíssimos disputando milímetro a milímetro o poder em um dos negócios mais rentáveis do país. E, quando esta disputa estava sedimentada, houve a briga pelo tamanho da indenização de quem perdeu. Um dos grupos não é mais inocente do que o outro ou joga de forma mais limpa. No meio da disputa, gente do governo se meteu. É uma história feia que muitas vezes cheira a corrupção embora nada tenha sido comprovado na Justiça.

Também, me permitam, não confio num delegado que mistura análise política com inquérito policial. Ele também parece ter escolhido um lado pelo qual torcer.

Não acho que ideologia tenha a ver com qualquer lado desta briga. Mas acho que lançar ideologia no meio é a melhor maneira de confundir o que muito pouca gente tem vontade de esclarecer. O post aí em cima só quer dizer uma coisa: não está claro. Parece que o delegado investigou gente demais, sim. Tinha autoridade para isso? Investigou para quê? Se não dá para confiar no que a Veja diz, em quem dá?

O fato de que esta história continua confusa é mostra do contínuo fracasso de todos nós, jornalistas, neste momento.

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