Objetividade de imprensa?

Blogs · Internet · Mídia · 24/02/2009 - 04h12 - 76 Comentários

Ritmo bom esse lento aí de Brasil no Carnaval =)

Li atento todos os comentários a respeito do post sobre a crise do jornalismo, por enquanto mais norte-americana do que brasileira. O que incomodou a mais gente foram minhas observações a respeito da objetividade da imprensa.

Daqui, estou envolvido nas pesquisas da Escola de Design de Stanford a respeito de como as pessoas se relacionam com o jornalismo. O que ouvimos de um após o outro seguido dum terceiro é que ninguém acredita que a imprensa seja objetiva. Estudantes falam isso. Professores com listas de PhDs o dizem. Donas de casa. Gerentes de loja. Empresários do Vale do Silício. É o mesmo que a IDEO, que citei no último post, ouviu em suas pesquisas em várias cidades grandes dos EUA. E é o que vocês escreveram aqui nos comentários.

Na verdade, é mais bem do que uma mera constatação. Para muitos, qualquer menção a respeito de objetividade jornalística gera animosidade. Os comentários vêm com emoção: ‘os jornais nos enganam’, dizem. Às vezes, a observação vem seguida de um ou dois exemplos específicos. Noutras tantas, ela representa um sentimento difuso.

(Esse assunto me angustia pacas.)

Independentemente de haver objetividade jornalística ou não, o fato é que os leitores e espectadores e ouvintes de noticiários não acreditam nela. E este é um problema crucial para a imprensa. Afinal, ela vive em última instância de credibilidade. É claro que, no momento, a crise econômica foi causada por uma mudança no modelo industrial. A digitalização está chacoalhando muitas indústrias, não apenas a jornalística. Mas neste processo de transferência do papel e da tevê para o TCP/IP, onde a concorrência por atenção será muito mais vasta, o jornalismo profissional precisará contar com sua credibilidade.

Mais importante do que se eu, jornalista, considero a imprensa objetiva ou não, é o fato de que vocês não a consideram. Mas é bom não confundir que a questão é mais profunda: é possível ter credibilidade sem ser isento? Ser objetivo é ser isento? É possível ter ideologia declarada, partido escolhido, e ainda assim apresentar os fatos honestamente? Essas não são questões triviais.

Quando disse que a imprensa brasileira é, hoje, mais profissional e objetiva do que em qualquer outro momento de sua história, é porque realmente esta é minha impressão. Ela certamente não o era nos anos 1940, 50, 60. Em plena censura, nem dava para ser. Há histórias complicadas nos anos 80. Dos anos 90 para cá, há melhoras nítidas no cenário geral. Não quer dizer que um ou outro exemplo não salte aos olhos no sentido contrário. Eu já vi coisas feias acontecendo em redações – mas foi em redações de jornais de médio porte. (Certa vez, fui demitido por sugestão de um governador. Não foi na grande imprensa.) É difícil, hoje, um jornalista de grande redação se corromper como acontecia no passado. Mesmo as colunas sociais – onde havia espaço de sobra para dinheiro circular – foram limpas nos últimos anos.

Esta, certamente, não é a percepção dos leitores. Há certeza de que interesses misteriosos (ou não tão misteriosos) conspiram para dar o enfoque das notícias. Alguns suspeitam que jornais estão envolvidos no projeto político de um partido ou de outro. (Basta ler o que se diz na Internet.)

E minha impressão é de que a grande imprensa não está atenta ao fato de que há uma crise de credibilidade no ar. Vez por outra, um grande jornal ou grande revista publica lá um artigo ou reportagem oficial para falar de si mesmo, revelar algum momento de sua história. Quando um texto destes tem que sair, um dos mais graduados jornalistas da Casa é selecionado, vários olhos relêem o texto, é uma noite de fechamento tenso. É o assunto que domina a redação. Jornais e revistas não gostam de falar de si mesmos. E, quando falam, de tão relidos e cuidadosos, os textos vêm com aquele tom oficialesco como quem diz: é isto que quero falar agora, nada mais tenho a declarar.

Não é à toa que não há uma coluna de mídia na grande imprensa brasileira. Quer dizer – há – adoro, diga-se, a Toda Mídia de Nelson de Sá, na Folha de S. Paulo. Mas Nelson descreve como a imprensa está noticiando, não noticia o que se passa na imprensa. Não há, no Brasil, um colunista como Howard Kurtz, que cobre a imprensa para o Washington Post. O Post cobre sua própria indústria como cobre as outras indústrias ou a política. (E, mesmo aqui nos EUA, há Kurtz é mais ninguém; ele é a exceção, não a regra.)

O resultado é que o público percebe: está ali uma indústria opaca, talvez a única indústria que não sofre de fato o escrutínio da imprensa. É natural que desta percepção nasça desconfiança. Falta transparência, falta mostrar como a salsicha é feita.

Se houvesse transparência, nem todas histórias a sair publicadas seriam bonitas. Mas o público, ainda mais nesta era de Internet, é maduro. Ele sabe que nem tudo no mundo é perfeito. Talvez, para sua surpresa, uma indústria tão defensiva como a da grande imprensa descobrisse que ela é justamente a quem tem mais a ganhar se recebesse a mesma luz que joga sobre o resto do mundo.

Atualização – Só porque o assunto está pairando e é importante deixar algumas coisas claras: ditabranda é o cacete. O que houve no Brasil foi a interrupção da democracia, seguida por um regime autoritário que rasgou a Constituição seguida da declaração de direitos os mais básicos do homem, assumiu a tortura como política de Estado e por fim tornou-se a máquina mais corrupta a jamais governar o país. Ditadura. Uma ditadura incompetente que deixou a economia na lama, uma ditadura brutal que, quando teve a chance, matou. Um regime de raiva. Mas o editorial da Folha, assim como a estranha por deselegante resposta aos professores Fabio Comparato e Maria Benevides, foram publicadas na parte de Opinião do jornal. Não na de noticiário.

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