A China faz o mundo girar
(Todos juntos: EUA, Brasil, África, Irã…)

Brasil · China · EUA · Energia e Aquecimento global · Irã · 19/02/2009 - 14h53 - 53 Comentários

Aqui nos EUA, a imprensa fala compulsivamente a respeito da viagem da secretária de Estado Hillary Clinton à China. Há muito o que se falar. Internamente, há uma difícil batalha entre Hillary e o secretário do Tesouro Timothy Geithner sobre quem comandará a relação entre os dois países. (No governo Bush, considerava-se que a Fazenda, não a diplomacia, devia ditar o tom desta relação.) A China, afinal, é o maior credor externo dos EUA.

Ontem, quarta-feira, chegou ao Brasil o vice-presidente chinês Xi Jinping. Ele traz na pasta uma linha de crédito de 10 bilhões de dólares para a Petrobras, em troca da garantia de fornecimento de petróleo para seu país. Foi há exatos 35 anos, em 1974, que o Brasil restabeleceu relações com a China. Durante o governo Lula, as trocas de visitas entre os dois país se intensificaram: Lula viajou em 2004, seu par Hu Jintao retribuiu a cortesia no mesmo ano. Em 2005, o vice-presidente José Alencar foi. Em 2006, veio o presidente do Congresso. Quase todo ano, desde então, meio que sem a imprensa brasileira dar muita bola, uma visita de alto nível destas ocorre.

O objetivo não é apenas fortalecer a aliança diplomática Brasil, China, Índia que vem conseguindo algumas vitórias no cenário mundial. O principal objetivo é dinheiro. Nos últimos oito anos, o comércio entre China e Brasil cresce num ritmo de 30% ao ano. Em 2008, a China ultrapassou a Argentina como segundo maior parceiro comercial do Brasil. Só perde para os EUA. Hoje, a China é responsável por 9% das exportações brasileiras. Os EUA, aproximadamente 18%. Mas o comércio com os EUA está diminuindo. E, bem, 30% de crescimento ao ano é um bocado.

Os chineses não param. Enquanto recebem Hillary em Beijing e Xi Jinping aterrissa no Brasil, o presidente Hu Jintao está viajando rumo à África. O comércio entre seu país e a África Subsaariana cresceu 1000% nos últimos dez anos. Mas ponha o comércio de lado e observe o itinerário da viagem de Hu e o padrão da diplomacia chinesa começa a se revelar. Primeira parada: Oriente Médio, Arábia Saudita. Faça o elo com o acordo China-Petrobrás.

No início do ano, pires na mão, o presidente de Angola José Eduardo dos Santos foi dar em Beijing. Queria renegociar sua dívida para com os chineses e ainda levar um troco para casa. O governo Santos apostou que o preço do petróleo continuaria alto, perdeu. O governo da Namíbia fez o mesmo – e também pede compaixão chinesa. A princípio, não recebem muito mais do que um olhar frio com vaga esperança de ajuda. Em relação aos países realmente pobres do mundo, a China age como se fora um misto de poder imperial e FMI dos anos 1980. Ao mesmo tempo, conta com estes países. Afinal, na ONU, ou na OMC, a China é só um voto. Contar com a possibilidade de manobrar votos africanos conforme seus desejos é útil.

Não é à toa que os responsáveis pela economia dos EUA considerem que eles, não os diplomatas, deveriam ser responsáveis pela relação. Também não é à toa que um dos consensos positivos a respeito do governo Bush, na equipe Obama, é que a política para a China estava certa: reclama de vez em quando de direitos humanos (nunca a sério), busca ajuda para negociações delicadas (Coréia do Norte, Irã) e discute negócios, negócios, negócios. Business makes the world go ’round.

Hoje, a China é o maior importador do Irã. Nenhum tipo de negociação afetará realmente o país de Mahmoud Ahmadinejad se a China não estiver disposta a fazer pressão. E, por enquanto, os chineses não estão muito preocupados. Sua relação com quem provê combustível é mais importante do que suas preocupações com violações de direitos humanos. Sudão que o diga. Com a Coréia do Norte, é diferente. A Coréia do Norte serve aos chineses para manter japoneses, sul-coreanos e mesmo EUA assustados. Mas a relação com os EUA é considerada fundamental para Beijing, sacrificar a Coréia do Norte não é problema. O Irã tem algo a lhe oferecer. A Coréia do Norte, não. A moeda de troca dos EUA é Taiwan. A relação amistosa entre potência e ilhota é mantida para irritar os chineses.

O principal desafio dos dois países é aquilo que têm em comum: são os maiores fornecedores de carbono para a atmosfera. Com tanto petróleo que consomem, não é surpresa. E ambos os governos estão cientes de que, economicamente, o Aquecimento Global é mau negócio. O problema é que, em tempos de crise, é difícil encará-lo.

Mas é sempre engraçado quando alguém sugere que a China é uma futura potência. A China já é.

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