A história da fundação de Israel

Alemanha · Israel e Palestina · 30/01/2009 - 00h01 - 318 Comentários

O leitor Gustavo me recomendou este filme que segue abaixo. Tem uma hora, foi produzido pela BBC e reconta a história da fundação de Israel. As legendas para o português vêm por cortesia da comunidade de piratas CPturbo.

Para quem só conhece a história por alto, é uma excelente introdução. Programa para o fim de semana.

Faço apenas um reparo à legenda: aquilo que eles traduzem por ‘gangue inflexível’ é a Stern Gang. O erro é natural. Com pronúncia britânica, ao invés de alemã/iídiche, fica parecendo que se trata da palavra inglesa ’stern’, duro, inflexível. Trata-se da Lehi, um grupo terrorista judaico de extrema-direita que operou na Palestina britânica entre os anos 1930 e 40. Seu líder era Avraham Stern e, por isso, os ingleses apelidaram de ‘a gangue de Stern’.

A Lehi é responsável por um dos piores massacres impetrados contra os palestinos, aquele de Deir Yassin. Escrevi uma reportagem para o Estadão sobre essa história, há quase um ano.

A BBC faz um bom trabalho de distinguir o que é polêmico e o que não é na história. E esta é uma história que ninguém pode contar sem coragem. De um lado e do outro, cada um quer forçar sua versão, sua própria narrativa.

Então talvez caiba uma introdução ao filme.

Um dos temas recentes mais polêmicos é a questão daquilo que o historiador marxista israelense Ilan Pappé chamou de ‘limpeza étnica’ da Palestina. O termo limpeza étnica é extremamente carregado e remete, de imediato, a genocídio. Houve limpeza étnica na Palestina no sentido de que, no lugar onde antes morava uma enorme quantidade de árabes, sobraram muito poucos. O lugar foi limpo da etnia árabe. O que não houve foram assassinatos em massa.

Durante décadas, a história oficial de Israel contou que os árabes deixaram suas casas porque os líderes dos países árabes vizinhos deram ordens para isso. Os principais historiadores de Israel, hoje, não aceitam esta versão. Os árabes deixaram suas aldeias porque tinham medo de serem massacrados.

A história do que ocorreu em Deir Yassin, a matança sanguinária e cruel de pouco mais de 100 palestinos desarmados – velhos, mulheres, crianças – se espalhou muito rápido pela região. Em parte, era o grupo terrorista judeu Irgun fazendo sua propaganda. Em parte, eram os líderes árabes que, assim, achavam que conseguiriam mobilizar mais gente para a luta. O resultado prático é que os rumores aumentados aterrorizaram a população.

É injusto sugerir que apenas os terroristas da Irgun e da Stern Gang foram responsáveis pela limpeza étnica da Palestina. Havia consenso, na liderança da Agência Judaica, de que Israel não seria viável como país se tivesse uma população árabe muito grande. O presidente da Agência Judaica, David Ben-Gurion, aproveitou-se do fato de que os países árabes invadiram Israel, em 1948, para expulsar quantos árabes fosse possível da terra. Ben-Gurion o fez, segundo o historiador Benny Morris, sem jamais deixar uma ordem por escrito, sem sequer dar uma ordem direta. Deixava subentendido.

Mas há, nessa história, um outro lado.

Estamos em 1948. O Holocausto, com seus 6 milhões de mortos, acabou faz exatos três anos. Tudo o que a história européia está dizendo para todo judeu do mundo é: você vai morrer. Foi a Inquisição, foram os pogroms, o Holocausto nazista. A perseguição está crescendo em incrementos. No último capítulo, quase exterminou todos os judeus da Europa. A única informação que o povo judeu tem é que, da próxima, não sobrará ninguém. A maioria dos países do mundo, neste instante, se recusam a receber refugiados judeus da Europa. E ninguém quer voltar para a Polônia, para a Tchecoslováquia, para a Alemanha, para a Holanda. Ninguém quer ver mais aqueles lugares, aqueles vizinhos que os entregaram. Querem botar o pesadelo para trás tendo perdido quase toda família.

O que estes refugiados querem? Um país. Ninguém os defendeu durante a Segunda Guerra. A não ser que tenham um país seu e um exército seu, ninguém os defenderá. E toda história passada confirma esta interpretação. Que país querem? O seu país. Aquele do qual foram expulsos séculos de perseguições atrás. É a ONU que lhes concede este país.

E o que dizem os árabes à volta? Que vão afogar todos os judeus no Mediterrâneo.

Em 1948, se você é judeu, se alguém diz que pretende afogar a você e aos seus no Mediterrâneo, você não tem dúvidas de que a ameaça é real. Talvez estivessem certos. É bem possível que a guerra de independência de Israel terminaria com uma limpeza étnica ou com outra. Alguém seria expulso daquelas terras. Talvez, se a vitória fosse árabe, houvesse muito mais sangue. Mas não foi o que aconteceu.

Muitos aqui, em nossas constantes discussões, deixam claro que acreditam que a história é um processo que se dá pelos conflitos entre grupos sociais. Eu acredito que grandes líderes fazem grande diferença. O que aconteceu em 1948 é que Israel tinha David Ben-Gurion e os palestinos não tinham ninguém em seu nível. Ben-Gurion entendeu política e militarmente cada momento daquela disputa. Tomou decisões difíceis, se adiantou quando era necessário, usou grupos terroristas por um tempo e os desmantelou logo que possível, soube manter seu povo unido, inspirou. Criou Israel. Fez Israel crescer e se tornar um país formidável. Sem petróleo, é talvez a nação mais avançada do Oriente Médio.

Os líderes árabes estavam divididos, mais preocupados com apunhalarem-se pelas costas e faturarem o território que, tinham certeza, ganhariam. Eram incompetentes. Muitos eram covardes: tinham medo da população e viviam por tentar seduzir o povo com bravatas. Quase nenhum deles durou muito no governo. Os palestinos jamais tiveram um grande líder. Yasser Arafat teve a chance de sê-lo, mas não chegou a tanto.

É evidente que a história não se resume a Israel tinha Ben-Gurion e os palestinos, não. Mas Israel tinha Ben-Gurion e o povo trazia consigo uma gana tremenda por sobreviver não importa o quê. Para os palestinos, foi a catástrofe. Foram expulsos de suas casas. Muito tempo se passou. Compreender 1948 é importante. A paz, no entanto, só será construída quando todos forem capaz de deixar 1948 para trás.

Atualização – Uma versão anterior deste post afirmava que o mufti de Jerusalém, Haj Muhammed Amin al-Husseini, fora morto em batalha. A informação estava errada. Al-Hussseini morreu no Líbano, em 1974.

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