Reinaldo Azevedo e como ele vê Obama

EUA · 22/01/2009 - 06h32 - 272 Comentários

Em Washington – Reinaldo Azevedo tem um bom post sobre a posse de Barack Obama em seu blog. É bom porque Reinaldo não vem com argumentos do tipo ‘Obama é comunista’ ou ‘Obama é queniano’. Discutir fica sempre mais fácil quando os argumentos vêm com os pés no chão.

O ódio a Bush começou a ser construído de modo virulento já no dia seguinte ao 11 de Setembro de 2001, com oito meses incompletos de mandato. Nasceu nas eleições de 2000, quando, acredita-se, ele roubou a vitória de Al Gore. Nem a reeleição, em 2004, foi o suficiente para lhe conferir legitimidade.

É verdade – foi no momento em que o resultado das eleições de 2000 foi definido que nasceu o ódio de alguns a Bush. A eleição de Bush em 2000 não é a única, nos EUA, que terminou sob suspeita de fraude. Pode-se dizer o mesmo da eleição de John Kennedy. Se ele não tivesse sido assassinado, até hoje haveria muita gente lembrando os mortos que ‘votaram’ em Kennedy contra Nixon em Chicago.

Mas é importante ressaltar que, após as eleições de 2000, era o ódio de alguns a Bush que havia nascido. A maioria dos norte-americanos estava aliviada com o fim da novela.

Não creio que, fora da extrema-esquerda, alguém questione a eleição de 2004. Mas aquela também foi uma eleição apertada apesar da popularidade do presidente.

Os EUA são um país polarizado. Não existe uma América correta e uma errada, mas existem dois Estados Unidos que pensam diferentemente. Um não é mais americano do que o outro, como sugerem os radicais à esquerda e à direita. Pelo contrário: esta é a nação que inventou a democracia moderna. O convívio de opiniões diferentes é a essência do ideal americano.

Eleito por um país dividido, Bush governou pela extrema-direita. São inúmeras questões: o casamento gay, a estranha decisão de abandonar o Afeganistão e partir contra o Iraque, o Aquecimento Global, o estudo de células tronco embrionárias, Guantánamo, defender o ensino do criacionismo nas escolas públicas, a apologia dos castigos físicos de prisioneiros, o abandono de sua excelente política para imigrantes, a demissão de procuradores por motivos políticos.

Num país dividido, a maneira de governar de forma a representar a maior quantidade de pessoas é procurar moderação. Não é preciso sacrificar tudo, mas é preciso ceder às vezes. Nunca foi o caminho escolhido por Bush. Suas posições, em alguns casos, iam contra aquilo que é mais ou menos considerado mainstream na maior parte das democracias ocidentais. Bush governou como um radical. Não é sem motivos que tantos se irritaram. A eleição de 2000 não explica tudo.

Ainda assim, Bush viveu seu momento de extrema popularidade. Perdeu-a por conta de sua incompetência.

Procurem o noticiário sobre os ataques terroristas e vocês encontrarão lá, entre as supostas causas, a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio. Bem, tal política era, então, ainda a mesma do democrata Bill Clinton. Pode-se até sustentar que Bush piorou tudo — O QUE É MENTIRA —, mas ainda não era possível recitar mantras como “unilateralismo”, “isolacionismo”, “belicismo”, “desprezo aos aliados” etc.

Bill Clinton e George W. Bush não tinham de forma alguma a mesma política para o Oriente Médio ou a Ásia Central. A observação é factualmente incorreta. A crítica inicial, aliás, era justamente essa. Durante o governo Bill Clinton, Osama bin-Laden era o inimigo Número 1 dos EUA. Bush fazia graça da idéia de que um homem no deserto dentro de uma barraca poderia servir de qualquer ameaça. Seu inimigo Número 1 era Saddam Hussein.

São, conceitualmente, doutrinas muito diferentes. Clinton via como ameaça à segurança nacional os representantes do radicalismo islâmico. Bush via como ameaça um ditador cruel, porém laico, que demonstrou no passado a aptidão por invadir países ricos em petróleo.

Na época, podia-se argumentar que Bush tinha suas razões.

Depois do Onze de Setembro ficou claro que o radicalismo islâmico era no mínimo tão perigoso quanto.

Depois de o governo Saddam virar pó em três segundos, sem que sua terrível guarda republicana sequer cogitasse agir, ficou claro que ele não tinha mais condições de ser ameaça para nenhum vizinho.

Bush estava errado. Clinton estava certo.

Reinaldo aí mistura uma segunda questão absolutamente diferente que é a do ‘unilateralismo’. É verdade que Bill Clinton foi acusado do mesmo. A Europa não se move militarmente. Alemanha e França não se mexem mesmo quando devem e Barack Obama também terá de enfrentar isso. Mas quando Bill Clinton se mexeu ‘unilateralmente’, foi para impedir o genocídio que se ensaiava na ex-Iugoslávia. Alemanha e França não se mexeram, mas também não reclamaram. Sua vergonha pela inação era nítida. Clinton fez o que tinha que ser feito.

É fácil esquecer, hoje, que a manchete do jornal francês Le Monde, em 12 de setembro de 2001, era ‘Somos todos americanos’. Ninguém no mundo discutiu a invasão do Afeganistão. Era a guerra certa, necessária. Ninguém discutiria se, ainda que ‘unilateralmente’, os EUA invadissem o Sudão, hoje. Como no caso da ex-Iugoslávia, outras nações apenas se envergonhariam de não ajudar.

O problema é que o Iraque nada tinha a ver com a história.

E a política dos EUA em relação ao Afeganistão contribuiu, sim, para a formação da al-Qaeda. E isto não tem nada a ver com qualquer teoria conspiratória, é história oficial. Quem conta é o ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf, aliado de Bush: foi dinheiro da CIA e treinamento da ISI paquistanesa por intermédio norte-americano que armou e preparou os árabes que lutaram contra a União Soviética durante os anos 1980. Não era uma operação secreta. Foi uma operação pública, documentada pela imprensa na época.

Foram estes mesmos árabes que formaram a al-Qaeda.

Donald Rumsfeld e Dick Cheney idealizaram essa política de alimentar os radicais islâmicos contra a URSS no governo Reagan – assim como foram eles que financiaram e armaram o governo Saddam Hussein para que combatesse o Irã. Foram Rumsfeld e Cheney que fizeram pouco da idéia de que bin-Laden pudesse ser uma ameaça nos primeiros meses de 2001.

Eles estavam errados. São terrivelmente incompetentes e não perceberam a implicação de seus atos. Aliás, no final de 2006 Cheney deixou de ser ouvido e Rumsfeld foi posto para fora. Para isso, foi necessária a intervenção de Bush pai e seu (competente) secretário de Estado, James Baker.

Um bom presidente teria demitido Rumsfeld e parado de ouvir seu vice após o Onze de Setembro. Bush só fez isso anos depois, quando o fracasso no Iraque já estava evidente para todos.

Mas também é importante lembrar: a ira nas ruas árabes tem muito mais a ver com a incompetência e brutalidade de seus próprios governos do que com o bode expiatório no qual o ocidente foi transformado. Isso não desculpa a incompetência do governo Bush.

Andando sobre as águas
Obama, claro, cumpre o seu papel. Escrevi, certa feita, que há nele muitos quês de terceiro-mundismo. As parcas e os porcos logo entenderam que me referia à sua origem e à cor de sua pele. Não! Incomoda-me nele essa vocação para inaugurar auroras, para gáudio de seus mistificadores midiáticos, numa espécie de demonização retórica do passado, sem alvo definido. E também não dá para negar os apelos messiânicos de seus discursos. Ontem, falou em ‘reconstruir a América’. Ela foi destruída? Lamento: esse tipo de fala mais me assusta do que me agrada. Ele é, em mais aspectos do que se imagina, uma novidade na política americana. Precisamos saber se boa. Está na dele: vai construindo a sua lenda. Irritante é o obamismo da imprensa… mundial, que só falta lhe atribuir milagres. Questão de tempo.

Inaugurar auroras? Foi Ronald Reagan quem usou, como slogan de campanha, a idéia de que traria o ‘amanhecer de novo à América’. Se Reagan podia, por que Obama não pode? Se isso é terceiro-mundismo, em que Reagan é diferente? Reagan ia além: se referia à União Soviética como o ‘Império do Mal’. Sua metáfora para os EUA era – essa precisa ir em inglês – ‘the shiny city on a Hill’. A cidade brilhante no alto da montanha. Reagan é chamado até hoje de ‘o grande comunicador’ e Reinaldo certamente sabe disso.

Isso é só má vontade do colunista de Veja com o novo presidente dos EUA. É ser do contra pelo prazer de ser contra, coisa que aliás tem muito valor na imprensa e garante leitores.

Reinaldo conhece política. Respira política. Entende a história política. Certamente sabe que Obama não é o primeiro, não é o segundo e não será o último presidente dos EUA ou de qualquer país do primeiro mundo a falar com uma linguagem rica em metáforas e com traços messiânicos. ‘Sangue, suor e lágrimas’ ecoa de imediato. ‘Nada temos a temer senão o próprio medo.’ Se não há mais políticos que usam esse tipo de linguagem o problema é outro: o problema é que nem todos conseguem falar assim sem cair no ridículo. É uma linha muito tênue entre o ridículo e a inspiração. Quando Reagan falava, inspirava. Obama faz o mesmo.

A capacidade de inspirar é uma arma muito poderosa na mão de políticos. Cria boa vontade popular e boa vontade popular é um excelente incentivo na hora de mobilizar parlamentares, aliados ou mesmo adversários.

É evidente que boa vontade não basta. É preciso capacidade gerencial e política. Durante a campanha eleitoral, quando comparado com Hillary Clinton e John McCain, Obama demonstrou capacidade de gerenciamento de pessoas e recursos muito além da de seus adversários. Quando alguém de sua equipe falava besteira, era imediatamente desligado. Obama dominou o jogo político do início ao fim, mesmo quando, antes do pico da crise econômica e após o anúncio de Sarah Palin, parecia estar para trás. Deu mostras de que compreendia o xadrez político melhor do que todos e por isso, junto com a capacidade de inspiração, venceu.

Essas qualidades não bastam para ser um grande líder. É preciso também uma compreensão contínua, realista e permanente de todos os problemas de um país grande, sensibilidade para sentir a percepção popular, ter noção de quando é hora de perder para vencer na frente. É um trabalho difícil. É preciso controlar o próprio ego o que, naquele cargo, é tentadoramente delicado. É impossível saber se Obama será um bom presidente.

Sugerir que ele lembra um ditadorzinho por causa da linguagem não faz jus à profundidade do conhecimento político de Reinaldo Azevedo.

Religião sem Deus. Como é mesmo? Um dos problemas de não acreditar em Deus é acreditar em qualquer coisa. Tanta gente que lê horóscopo já tentou me provar que Deus não existe e que as cores interferem na nossa aura… É uma ironia, quase uma piada. O fato é que sempre considerei que as religiões sem Deus, especialmente a da Razão, costumam ser as mais sectárias.

Sabem por quê? As outras sabem que há um fundo irredutível e inexplicável que é a fé. Por mais que você tente explicar a alguém os motivos de sua crença, haverá o momento parecido com uma escolha (só que o crente é que é escolhido): tem ou não tem fé? E não há explicação para isso. O crente sempre se queda um tanto intimidado, como quem fica devendo ao outro a ‘prova dos noves’.

Mas aquele que não acredita em Deus e pode acreditar cegamente em homens não se intimida, não! Obama pode não andar sobre as águas — porque, segundo leis físicas, ninguém pode fazê-lo. Mas já é o grande responsável por uma subversão do tempo. Explico.

Reinaldo parece sugerir que a maioria daqueles que defendem Obama são ateus. Como existem muito mais crentes do que ateus no mundo, não deve ser fato. Também não conheço qualquer ateu que acredite em astrologia. São os crentes que acreditam. Ateus, por natureza, não crêem.

É um clichê dizer que quando não se acredita em Deus se acredita em qualquer coisa. É um clichê que não faz jus à profundidade dessa discussão, que Umberto Eco e o cardeal Martini já travaram num livrinho com mais sofisticação do que eu seria capaz. Mas ateus têm mais dificuldade em acreditar em coisas do que religiosos, não o contrário. O que ateus talvez tenham é mais conforto com a existência de dúvidas e com o fato de que algumas não serão respondidas jamais. Os que crêem atribuem uma explicação ao mistério, lhe atribuem um nome e, às vezes, dizem até que o mistério vem à Terra, tem filhos, fala com gentes. Ateus dizem: não sei.

Obama não é ateu. O fato de ateus estarem nessa discussão tem mais a ver com as preocupações de Reinaldo do que com as de Obama.

Se, no entanto, Reinaldo tivesse passeado pelas ruas de Washington e conversado com alguns dos mais entusiasmados eleitores do novo presidente, sairia com uma impressão muito diferente daquela que seus pré-conceitos sugerem. Talvez se surpreendesse. Eles não esperam milagres. Estão muito felizes com o fato de que o presidente é negro – a maioria na multidão da posse eram negros – mas não esperam milagres. Não esperam o fim instantâneo da crise econômica. Não esperam para amanhã o fim da guerra no Iraque. Isso é muito, muito claro: ninguém vê em Obama o messias.

Esperam competência.

O que Reinaldo não parece perceber é que os 27% de popularidade de George W. Bush não têm nada a ver com 2000. Tem a ver com seu radicalismo e, principalmente, com sua incompetência.

Bush pena por seus pecados, não pelos de outros.

Todos os sinais que Obama está passando são de moderação e competência. Manteve o secretário de Defesa de Bush – isto é moderação, não uma guinada radical. Foi o secretário posto por James Baker para corrigir as besteiras de Rumsfeld. Trouxe um Nobel para a pasta de Energia. Entregou a uma adversária nas questões internacionais para desafiá-lo intelectualmente a delicada pasta que é a das relações internacionais. Fez uma transição sem sobressaltos, entregou os nomes ao Congresso para aprovação com tempo de sobra, se afastou de imediato de um escândalo de corrupção em seu estado natal. Bush jamais teve essa habilidade política. Nem Clinton. Nem Bush pai. Carter certamente não a teve. Se bobear, nem Reagan.

Se conversasse com muitos dos eleitores de John McCain, Reinaldo talvez se surpreendesse em descobrir que até eles estão esperançosos. Não a direita radical, claro que não. Os outros eleitores de McCain. A maioria.

O governo Obama está apenas no primeiro dia. Ele gerou esperanças e boa vontade. Nos próximos meses e anos, saberemos o que teve competência para fazer com o que tem nas mãos. Mas não vamos misturar os fatos: que tenha gerado esperança e boa vontade não é demérito. É justamente um dos tipos de habilidade que todos os grandes líderes têm. Quer dizer que ele será um grande líder? Descobriremos. É só um começo.

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