Pervez Musharraf conta sua visão de mundo

Islã · Israel e Palestina · Oriente Médio · Terror · Ásia Central · 17/01/2009 - 16h26 - 19 Comentários

O general de reserva e ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf deu uma conferência aqui em Stanford, ontem. Ele falou por aproximadamente uma hora sobre como vê o problema do terrorismo e ofereceu sua receita ‘holística’ para tratá-lo. Aí, abriu para o público. Os estudantes e professores de Stanford perguntaram-lhe a respeito da segurança das armas nucleares paquistanesas, cobraram-lhe a respeito da ditadura – às vezes, exaltados. Alguns estudantes indianos ensaiaram um protesto. Musharraf não piscou um segundo. Foi irônico, charmoso, em alguns momentos fez cara de sincero. Sempre tinha uma resposta com aparência de ponderada. É um político nato.

Gravei a conferência em áudio – está online para quem quiser ouvir. Mas aqui vai um resumo do mundo visto pelos olhos de Pervez Musharraf.

Extremismo e terrorismo

É preciso distinguir entre extremistas e terroristas. São parecidos mas distintos. Nem todo extremista é terrorista. A maioria não é. Os extremistas têm que ser transformados. Os terroristas devem ser presos. Mas não há consenso internacional a respeito de quem é terrorista: o terrorista de um é aquele que luta pela liberdade de outro. Até hoje, temos enfocado o problema com táticas de combate no curto prazo. A solução, no entanto, só virá a longo prazo, com outro tipo de esforço.

Terroristas enquanto folhas

Os terroristas são como as folhas de uma árvore. As organizações terroristas são como os galhos. Não adianta podar folhas ou cortar galhos porque nascem outros. É preciso atacar a raiz da árvore. As raízes, na Ásia Central e no Oriente Médio, são três. A primeira é analfabetismo. A maioria dos extremistas e terroristas são pessoas iletradas que compram qualquer discurso que aponte um culpado externo para seus problemas. A segunda causa é a pobreza, e pobreza e analfabetismo caminham juntos na região. Pobreza e analfabetismo confirmam a impressão de que há uma profunda injustiça, que tudo lhes é negado.

Mas os perpetradores do Onze de Setembro e das bombas de Londres não eram nem analfabetos, nem pobres. E aí entra a terceira causa: política. Há questões políticas que não foram resolvidas e que devem ser endereçadas. Principalmente Caxemira e Palestina. O que está acontecendo em Gaza, agora, apenas reforça a sensação de impotência e injustiça na rua islâmica, alimentando ainda mais o extremismo que, por sua vez, é explorado por organizações terroristas.

Alguns sugerem que há uma diferença fundamental no sistema de valores do Islã e do Ocidente. Não é verdade. O IRA, na Irlanda, não era diferente. Uma solução apenas militar para o problema do terrorismo fracassará.

A história da al-Qaeda

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nesse momento, os EUA quiseram que nós, no Paquistão, organizássemos a resistência. Vocês americanos quiseram que nós lutássemos a jihad. Então, entre 1979 e 1989, treinamos e armamos os mujahedins, estrangeiros que vinham de todo o mundo islâmico, para lutarem no Afeganistão.

O Afeganistão tinha sua estabilidade. Havia um pacto entre todas as etnias, todos os clãs, para dar apoio ao rei. Os dez anos da invasão soviética desmontaram toda a estrutura que existia há tanto tempo. A elite do Afeganistão abandonou o país a sua própria sorte, mudaram-se para o exterior. Aí, em 1989, caiu o muro de Berlim, os soviéticos deixaram o Afeganistão desmontado e terminou a Guerra Fria. O fim da Guerra Fria deixou dividendos. Eles foram todos para a Europa. Países receberam investimentos, puderam se reestruturar.

O que Afeganistão e Paquistão, que lutaram contra a União Soviética por dez anos, ganharam? Nada. Fomos esquecidos por todos. ‘Agora é com vocês’, eles nos disseram.

E onde estavam os mujahedins que vieram lutar contra os soviéticos? Continuaram no mesmo lugar. Mudaram apenas seu foco: de contra os comunistas, viraram-se contra os EUA. Formaram a al-Qaeda. Após a tomada de poder do Talibã, no Afeganistão, 4 milhões de refugiados se bandearam para o Paquistão. O problema continuava sendo apenas nosso. A estrutura social que sustentava o Afeganistão havia sido arruinada pelos soviéticos e de quem era o problema? Do Paquistão. Então, em 1999, os mesmos radicais começaram a se estruturar na Caxemira, na Índia. E o Paquistão continua tendo que lidar com a situação toda.

Só quando aconteceu o Onze de Setembro é que o mundo decidiu prestar atenção no que estava ocorrendo. Ainda assim, os Estados Unidos já investiram 1 trilhão de dólares no Iraque. Quanto investiram no Paquistão desde então? 10 bilhões. O problema continua lá e tem o mesmo tamanho.

A. Q. Khan

A. Q. Khan, o pai da bomba paquistanesa, que vendeu seus segredos para a Coréia do Norte e Irã, está em prisão domiciliar. Não creio que tenha sido extremismo que o moveu. Ele não teria tido contato com os norte-coreanos, caso tivesse sido isso. Foi ganância. Não permitimos que fale com investigadores de outras nações porque, para nós, a questão é sensível. Há segredos envolvidos e ele é um homem muito popular nas ruas do Paquistão. Os EUA também têm sob sua custódia homens que venderam segredos nucleares para nações estrangeiras. Alguma vez os EUA cogitaram permitir que investigadores de outros países os interrogassem? Claro que não. Funciona da mesma maneira.

Relações com a Índia

Se houver provas de que paquistaneses estiveram envolvidos nos ataques a Mumbai, é evidente que devem ser punidos. Mas não culpe o governo por isso. A comunidade internacional não está contribuindo, como deveria, para abrandar as tensões na região da Caxemira. Algumas nações fazem uma campanha contra a ISI, serviço secreto paquistanês. A ISI funciona sob ordens do governo e de ninguém mais. Sua função é garantir a integridade do Paquistão. Suas técnicas são as mesmas técnicas de qualquer serviço secreto. O serviço secreto da Índia faz o mesmo mas ninguém lhes cobra mudança. A Índia é um grande país. É um país poderoso. Todos os países na região sabem disso – ninguém tem dúvidas. E a Índia pressiona. O que a Índia tem que compreender é que não pode sair por aí pressionando os menores. O Paquistão também é um grande país.

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