O que Israel deveria ter feito?

Israel e Palestina · 14/01/2009 - 14h17 - 382 Comentários

Há uma pergunta justa posta por vários de vocês ao longo dos últimos posts: então o que Israel deveria ter feito? Jogar fósforo – uma substância de legalidade dúbia quando usada em ambientes urbanos e que provoca queimaduras horripilantes sobre a cidade de Gaza, certamente não.

Mas, enquanto Israel ataca Gaza, é importante ressaltar o contexto deste bombardeio. Gaza tem duas fronteiras – a segunda, é com o Egito. Se jornalistas não conseguem entrar em Gaza, não é apenas porque Israel não o permite. O Egito também não o faz. No Irã e no Líbano do Hizbolá também há um silêncio sepulcral. Alguns foguetes partiram, sim, do Líbano contra Israel. Poucos e provavelmente vindos da FPLP, Frente Popular pela Libertação da Palestina, um grupo nanico que vez por outra dá sinais de vida.

Irã e Hizbolá estão se lixando para os palestinos. Egito, idem. Isto é algo que os palestinos um dia terão que perceber: estão sozinhos. Precisarão decidir seu próprio destino.

Irã, e por conseqüência Hizbolá, estão em silêncio por dois motivos. Um é que o petróleo está baixo e a crise econômica no país está apertando. Precisa de recursos internacionais. Portanto, negar o Holocausto e sugerir a destruição total de Israel não são mais possibilidades. Tem que se comportar. O segundo motivo é Barack Obama. O Irã não o diz, mas sofre com o bloqueio econômico imposto pelos EUA. Se há uma chance, ainda que vaga, de finalmente sentar-se à mesa, eles querem esta chance. Não é o presidente Mahmoud Ahmadinejad que a quer. É quem manda: o aiatolá Ali Khamenei.

Quanto a Israel, o país tem uma penca de problemas nas mãos. Começa pela falta de liderança. Um líder é muito mais do que aquela pessoa eleita para ocupar a chefia de governo. Um líder inspira, um grande líder é capaz de arrancar sacrifícios de seu povo; um líder é uma pessoa em quem o povo confia mesmo quando ele faz algo que vai na contra-mão dos desejos populares. E líderes têm coragem. Não é difícil imaginar pessoas assim: Winston Churchill. Franklin Roosevelt. John Kennedy. Ronald Reagan. Israel teve três destes: David ben-Gurion, Golda Meir, Yitzhak Rabin. Ariel Sharon talvez estivesse a caminho de ser um quarto. Mas não foi.

Israel têm líderes covardes e ineptos, à esquerda e à direita. Eles simplesmente não têm coragem de tomar decisões difíceis, morrem de medo da opinião pública, consequentemente não inspiram segurança. O resultado é que, inseguro, o povo reage como povos reagem: se tudo está perdido, às armas. Os políticos sabem que isto não resolve. Mas sentem-se eles próprios acuados eleitoralmente e lançam-se às armas. Após mil palestinos mortos, o problema de Israel continua lá e tem o mesmo tamanho. Terão ganho alguns meses sem foguetes? Talvez. Provavelmente não. Certamente terão ampliado o ódio e distanciado qualquer possibilidade de paz.

Alguns dizem: ‘mas a paz não é possível de qualquer jeito.’ É evidente que a paz é possível. Porque, se a paz não é possível, Israel não vale a pena. Se cada pai israelense pensar que a vida toda de seus filhos e netos será o eterno defender-se dos ataques externos, um eterno construir muros, um eterno ocupar da terra dos outros e temê-los para sempre, para que Israel? Para que viver assim? Ou se acredita que a paz é possível, ou é melhor se mudar.

A paz é difícil. E ela só virá com uma negociação complicada na qual ambas as partes terão que ceder. Onde Israel errou? Errou no momento da eleição do Hamas.

Israel não escolhe com quem conversa do lado palestino. Aceita o que tem ou não há conversa. Os palestinos são o que são e é com eles que a paz deve ser negociada. Mas a maioria, lá, quer paz assim como a maioria dos israelenses. E eles também não têm grandes líderes. Nem Yasser Arafat o foi. Se tivesse sido, já haveria Palestina. Assim como os atuais líderes israelenses, morria de medo de dizer para o povo algo impopular.

O Hamas não existiria se Israel não tivesse enchido o grupo de dinheiro nos anos 1980. Agora o Hamas existe. O Hamas não é apenas um grupo terrorista. É também um grupo terrorista. Mas é uma filantropia e é um partido político. Margaret Thatcher negociou com os políticos do IRA. Não é agradável, mas faz parte do processo que leva ao fim da violência. Como lembra o jornalista palestino Daoud Kuttab, o Hamas são muitos. Políticos querem poder. Extremistas querem morte. Os políticos do Hamas não podem dizer que não desejam mais a destruição de Israel. Poderão dizer um dia, quando já houve Palestina; agora, não podem.

O importante é que, a portas fechadas, podem dar garantias de cessar-fogo a diplomatas israelenses. A Guerra da Coréia ainda não terminou. Mas o cessar-fogo dura já tanto tempo que ninguém lembra disto. O que querem em troca são condições de exercer seu poder. Poder, diga-se, outorgado pela população palestina através do voto. E um poder, é importante sempre lembrar, que eles estavam quase perdendo legitimamente. Tanto em Gaza quanto na Cisjordânia o Hamas estava a caminho de uma estrondosa derrota eleitoral ainda no primeiro semestre deste ano. Israel não permitiu que o processo político democrático punisse o Hamas. Mais alguns meses de foguetes que não matam ninguém e a situação palestina seria outra.

Quando o Hamas foi eleito, Israel e EUA se recusaram a reconhecê-lo. Isto deu forças para que o Fatah criasse problemas, trouxe instabilidade ao governo, golpe em Gaza. Ações têm conseqüências. O braço político do Hamas tinha que ter alguma força e alguma prova de que política traz resultados. Em caso contrário, os extremistas sempre vencerão a queda de braço interna.

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