E Israel entrou com as tropas em Gaza

Israel e Palestina · 4/01/2009 - 16h15 - 120 Comentários

Durante uma semana, os líderes do Hamas prometeram aos palestinos de Gaza que, se Israel ousasse invadir por terra, o chão seria coberto por sangue ’sionista’. Começou ontem a invasão – e é hora de cumprir a promessa. Esta é a aposta de Israel. Pretendem enfraquecer o Hamas eliminando seu arsenal e matando seus homens. O Hamas vai reagir. Sua luta é por sobrevivência.

Israel não conseguirá manter as operações por muito mais tempo. Uma delegação europeia composta por diplomatas de Alemanha, França e Reino Unido chega no domingo que vem para visitar Gaza. A data é o prazo informal dado a Israel pela Europa. Segunda-feira, aterrissa em Tel Aviv o próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy.

A França sob Sarkozy é outra: está presente na diplomacia internacional e é respeitada. Sarkozy joga com isso, aposta nisso. Se vai pessoalmente a Israel é porque pretende sair de lá com um resultado para apresentar. A França não é mais, como já foi, ostensivamente anti-Israel, e tem lá seus próprios problemas com o radicalismo muçulmano. Agora mesmo, no início do ano, foi preso na Bélgica um grupo terrorista que planejava o assassinato de Bernard-Henri Lévy, um dos principais intelectuais franceses – e judeu. Mas a França também não são os EUA. Há ampla simpatia pela causa palestina, não é à toa que Yasser Arafat foi para Paris quando precisou de cuidados médicos, não é à toa que sua viúva mora no país. Sarkozy será isento. E só sai ganhando se sair de lá com a negociação de um cessar-fogo.

É tudo uma desgraça – gente demais morreu. Em meu último post, levantei algumas perguntas que, gentilmente, o Cosme Rondó tomou para si a missão de tentar respondê-las. Não eram perguntas simples, tampouco fáceis. Por coincidência, nesta semana, a Economist também encara a principal delas num editorial profundamente elegante de tão equilibrado:

É fácil chamar atenção para o fato de que menos de uma dúzia de israelenses foram mortos por foguetes palestinos desde que o país deixou Gaza. Mas poucos governos, perante uma eleição, deixariam cidades de seu país sofrerem constantes ataques, não importa quão ineficientes. Como observou Barack Obama em sua visita em julho, ’se alguém estivesse lançando foguetes contra a casa onde minhas filhas dormem à noites, eu faria de tudo para que isto parasse. Espero que os israelenses façam exatamente isto.’ Nos últimos meses, o Hamas contrabandeou foguetes ainda mais letais para Gaza e alguns estão caindo em cidades israelenses antes fora de sua área de alcance. Na fronteira com o Líbano, Israel já enfrenta um ator não-Estado, o Hizbolá, cujo objetivo formal é a destruição de Israel e que tem um arsenal poderoso cedido pelo Irã a sua disposição. Os israelenses não têm a intenção de permitir que algo parecido se forme em Gaza.

Ainda assim, Israel não deveria se surpreender com a indignação que surge em todo o mundo. Não é apenas porque as pessoas jamais simpatizam com o lado que tem caças F-16 a seu dispor. Em geral, uma guerra precisa passar por três testes para ser justificada. Primeiro, um país deve ter exaurido todos os outros meios de se defender. Segundo, o ataque deve ser proporcional a seu objetivo. E, terceiro, o país precisa ter chances reais de conquistar seu objetivo com a guerra. Em todos os três itens, Israel teria dificuldades de argumentar.

É verdade que Israel tolera os foguetes vindos de Gaza há um bom tempo. Mas poderia ter impedido seu lançamento de outra maneira. Afinal, não é verdade que a única demanda que Israel impõe a Gaza é silêncio na fronteira. Israel vem tentando enfraquecer o Hamas impondo um bloqueio econômico na faixa enquanto injeta dinheiro na Cisjordânia, local em que o Fatah governa. Mesmo durante o período de cessar-fogo, Israel impediu que tudo, menos alguma ajuda humanitária, chegasse à região. É verdade que Israel foi provocada à ação militar. Mas o Hamas pode dizer o mesmo. Se não houvesse bloqueio econômico, o Hamas teria renovado o cessar-fogo. Uma leitura dos motivos do Hamas pode ser perfeitamente a de que não aceitaram o novo cessar-fogo para forçar Israel a ceder no bloqueio, aliviando suas fronteiras.

Na questão da proporcionalidade, os números falam por si mesmos – ou quase. Nos primeiros três dias, uns 350 palestinos foram mortos e apenas quatro israelenses. Nem o bom senso, nem as leis da guerra, exigem que Israel se desvie da regra básica: matar a maior quantidade possível de inimigos enquanto evita sofrer o menor número possível de mortes. Foi estupidez do Hamas ter escolhido lutar esta batalha. Mas, dentre os mortos palestinos, há muitos civis e muitos policiais, que não são o mesmo que combatentes. É verdade que os exércitos do ocidente mataram muito mais civis no Afeganistão e no Iraque. Mas os interesses de Israel são diferentes. O país deveria minimizar o número de mortos porque os palestinos que bombardeia hoje serão seus vizinhos para sempre.

E há última questão leva ao problema das chances de que a guerra seja eficiente. O objetivo declarado de Israel, inicialmente, era derrubar o Hamas. Mas o que pretende no momento é fazer com que o Hamas cesse o lançamento de foguetes além de suas fronteiras. O que Israel aprendeu no Líbano, em 2006, é que esta não é uma meta trivial. Assim como ocorreu com o Hizbolá, a ‘resistência’ do Hamas a Israel é justamente o que o fez popular e o levou ao poder. Provavelmente o grupo continuará atacando, não importa quão dura seja a resposta, e seguirá desafiando Israel a entrar com suas tropas para uma luta sangrenta nas ruas congestionadas de Gaza e nos campos de refugiados.

Israel já entrou.

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