O Pingüim e Mary Poppins

Cinema · HQ · Livros · 2/01/2009 - 06h07 - 14 Comentários

Neste primeiro dia do ano, como no último do ano passado, outro algo de diferente cá no Weblog: um conto. O autor é Jonathan Goldstein.

Muito antes de se mudar para Gotham City, antes de ficar gordo, obsessivo, o sádico no qual se tornou em seus últimos anos, o Pingüim era um poeta grã-fino que morava em Londres. Ele escrevia contos complexos e dava excelentes festas nas quais ia ficando cada vez mais encantador conforme bebia. Usava um monóculo, cartola e carregava sempre um guarda-chuvas.

Uma noite, em uma de suas festas, após horas de muito absinto, o Pingüim correu para o terraço de seu prédio, abriu seu grande guarda-chuvas, e lançou-se no ar. Conforme flutuava rumo ao chão, recitava versos de Blake; falava de agarrar sua vida pelas tripas do estômago para então poder virá-la ao avesso. Era um louco. E estava cheio de vida.

Desde aquela noite, ele tomou por hábito pular de prédios cada vez mais altos com seu guarda-chuvas. E com o tempo foi ficando bom nisso. Aprendeu, por exemplo, que se balançasse os pés e contorcesse as costas, poderia prolongar o vôo enquanto fazia piruetas por vários e vários minutos.

Foi após alguns meses que o Pingüim começou a ouvir de outra entusiasta. Ela também, lhe disseram, era vista flutuando por Londres pendurada num guarda-chuvas. Em todo lugar ao qual ia ele ouvia dela, de como era inacreditável que nunca tivessem sido apresentados. Então, por fim, alguém que conhecia a ambos decidiu dar uma festa para que se conhecessem. No dia, o Pingüim chegou à sala do anfitrião, viu Mary Poppins sentada ao divã, ergueu sua cartola e inclinou-se com elegância – era assim seu estilo, naquele tempo.

Ele havia preparado algumas coisas para fazer, outras para falar, quando se encontrasse com Mary Poppins. Ele pensou em levantar seu guarda-chuvas e desafiá-la a um duelo. E então ela levantaria o dela, que talvez fosse rosa, e entrariam num embate sala afora, derrubando móveis, talvez até levantando um vento, ofegantes, nariz tocando nariz.

Mas aconteceu de o Pingüim ficar nervoso, muito quieto, tímido até. Sua cartola repentinamente pareceu desengonçada à cabeça. Seu monóculo, sentiu-o pequeno demais em seu rosto, e o aperto que ele imprimia para manter a peça no lugar começou a dar-lhe uma dor de cabeça. Pela primeira vez em sua vida, o Pingüim se sentiu ridículo.

‘Imagino que os dois tenham uma quantidade infinita de assuntos sobre os quais conversar’, disse o anfitrião, conforme os sentava um ao lado do outro à mesa de jantar.

O Pingüim fez um sim inseguro. E após três ou quatro minutos, ficou evidente que nem ele, nem Mary Poppins, tinham qualquer assunto em comum que não o de vôos de guarda-chuvas; o se emaranhar em árvores, as dores nos ombros, o medo de que um pé-de-vento os virasse.

Todos à mesa observavam a ambos sem conversar, o que fez de toda situação ainda mais desconfortável.

Na tentativa de levar a conversa adiante, Mary Poppins perguntou ao Pingüim se ele gostava de cantar. ‘Apenas quando bêbado’, ele respondeu.

Então ela perguntou se ele gostava de crianças.

‘Sim’, ele disse, ‘crianças ao vinho.’

O Pingüim perguntou a Mary Poppins, na seqüência o que ela fazia para que as pessoas não vissem por debaixo de sua saia. Ela sorriu educada e virou-se para o homem à esquerda, perguntando-lhe se a comida estava boa.

O homem à esquerda vestia uma capa aristocrática. Mary, um quê altinha por conta do xerez, observou que se ele espalhasse a capa talvez pudesse deslizar pelo ar como um morcego. O homem à esquerda sorriu simpático e sugeriu que após o jantar, talvez, pudessem ir ao terraço para tentar. E assim o fizeram.

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