Perante a tragédia em Gaza,
Três perguntas

Israel e Palestina · 1/01/2009 - 07h54 - 467 Comentários

Sou eu quem deve a vocês um pedido de desculpas, trazer assunto assim desagradável no primeiro dia do ano. É mundo que nos impõe.

Minha mãe costumava dizer, não sem ironia, que Israel é coisa de coração. Às vezes parece que traz o irracional em nós. Por outro lado, Israel é coisa de coração não apenas para quem quer seu bem. Também é para quem a considera o foco de todo o desequilíbrio no Oriente Médio.

De minha parte, não tenho como argumentar contra 400 mortos em Gaza pelos bombardeios das Forças de Defesa de Israel. É gente demais. E há crianças, ainda por cima.

Não tem como justificar.

Em novembro, pelo menos 381 pessoas morreram na Nigéria, em um confronto entre cristãos e muçulmanos. A maioria das vítimas eram islâmicos.

Em Darfur, no Sudão, morreram 250 muçulmanos na primeira semana de dezembro. Foram vítimas de outros muçulmanos. No Sudão, este número é mais ou menos rotineiro.

Na província de Sa’ada, no Iêmen, a guerra civil também custou a vida de algumas centenas de pessoas em 2008. O número, no entanto, é incerto. Lá, não há imprensa, ong, ONU, apenas os relatórios mais ou menos regulares da Human Rights Watch. É possível dizer que os desabrigados são 100.000. Mas as mortes ficam assim no vago ‘centenas’. Talvez chegue ao milhar. Ninguém sabe.

Um relatório do Instituto de Direitos Humanos do Cairo, publicado em dezembro, dá conta da situação nos doze países árabes. Israel, no caso dos palestinos, e os EUA, no caso do Iraque, são co-responsáveis pela piora da situação dos direitos humanos no universo investigado. Mas não estão sozinhos, muito pelo contrário.

As mortes de muçulmanos e árabes noutros cantos do mundo não despertam posts carregados de fotos sangrentas na blogosfera. Não provocam a indignação de jornalistas. Às vezes, mal merecem uma nota ao pé de página.

Não cito estes exemplos para dizer que é comum, que não quer dizer nada. Centenas de mortos são uma tragédia sempre. Mas há uma piada comum de redação: o editor chega para o responsável pela primeira página dizendo que um acidente matou 500. Onde?, pergunta o chefe. Se for na China, 500 não é nada. Se for em Luxemburgo, é uma tragédia nacional. Um não rende nota; outro é chamada de primeira, acima da dobra.

Palestino morto por Israel vende jornal. Israelense morto por palestino, também. E, justiça seja feita, um homem bomba que mate três israelenses vale primeira página. Para os palestinos chegarem lá, é preciso contar na casa das dezenas. Veja-se por outro lado: somalis, mesmo às centenas, às vezes não entram. Quem liga para a África?

Nós, jornalistas, costumamos dizer que nossos critérios de seleção de notícias importantes, e portanto de mortos relevantes, não são nossos. São do público. Talvez seja verdade. Talvez, não.

Muitos dos indignados habituais com Israel não sabiam que no Sudão sai uma Gaza em mortos por mês. (Ou a cada dois meses.) Este Weblog também é culpado pela falta de cobertura. Mas não há indignados com a China, que apóia o regime (este sim) genocida do Sudão.

Guerras não prestam. Guerras matam, ferem, sangram, deixam aleijados. Entre as vítimas de guerras, há crianças. Observe uma guerra com uma lente de aumento e fica difícil para qualquer ser humano justificá-las. Parece ser preciso um cinismo monstro para assistir às fotos dos resultados da guerra e ainda assim dizer: ‘foi necessário’.

Mas ainda assim: que bom que a União Soviética e os EUA enfrentaram Hitler. Os soviéticos sabem o quanto custou. Ainda bem que o fizeram.

Nós, que acreditamos que Israel é sobretudo necessária para a sobrevivência de um povo, achamos que o país não acerta sempre. Mas acreditamos também que o país está em guerra. E as guerras, às vezes, são necessárias à sobrevivência.

Minha opinião? Me alinho com David Grossman, o grande escritor israelense. Era preciso enfrentar o Hamas, era preciso bombardear Gaza – agora basta. O governo de Israel precisa aprender a parar. Conheci Grossman numa noite, há alguns meses. É um dos sujeitos mais sensíveis, mais sensatos, mais empáticos com os palestinos, mais dedicados à esperança de paz que pode haver. Mesmo. Ele perdeu um filho no exército israelense.

Mas gostaria, com franqueza, de entender a opinião de quem rejeita Israel. Tenho algumas perguntas, estou curioso para as respostas.

1. Israel tem o direito de existir onde existe?

Os israelenses que conheço aceitam na hora que lhes for oferecido um acordo de paz que preserve as fronteiras de 1967 e divida Jerusalém em dois. O governo de Israel, se os países árabes oferecerem algo assim em troca de paz, assina na hora. Pessoalmente, acredito que até um governo do Likud assina um acordo definitivo de paz assim. Basta suspender as agressões de parte a parte. (Não estou sugerindo, com isso, que tal oferta é simples de fazer ou que Israel seja inocente; Israel é paranóica.)

2. Um acordo assim é justo?

Cai foguete, cai foguete, cai foguete. Os foguetes que partem de Gaza mantém em suspenso a vida de pouco mais de um milhão de pessoas. De uma hora para a outra, as crianças têm que deixar a escola, todos têm que se abrigar, as ruas se esvaziam. Como tecnologia não falta, o alerta quase sempre vem em tempo e as vítimas são raras. O estresse, no entanto, está lá. Presente. Constante. Todo dia, toda hora, a qualquer momento. Isto não é vida. É muito pior do que morar de frente ao Pavãozinho, no Rio.

3. Mas o que é uma reação proporcional justa? O que quero dizer é: Israel pode se defender? E, ao se defender, o que pode fazer?

Respostas a estas três perguntas, acredito, vão nos ajudar a nos compreender uns aos outros.

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