O que é haikai
O texto abaixo, cedido tão gentilmente ao Weblog para publicação, é da poeta Alice Ruiz.
O haikai se faz com três linhas, ou versos, e não mais que 17 sílabas.
Seu tema é a natureza, e não nossos sentimentos e pensamentos.
Se faz com simplicidade, leveza, desapego, sutileza, objetividade, integração com o todo.
Sua melhor definição, na opinião de muitos, é uma fotografia em palavras.
Grava o instante. O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim.
O mesmo no haikai.
É como se as coisas falassem por si mesmas. Sem adjetivos, sem a impressão do poeta, exatamente como são.
Só o real, sem comparar a nada e, talvez por isso mesmo, tão incomparável.
Porque, descrevendo a coisa apenas como ela é, desperta a sensação de própria coisa.
A sensação, por exemplo, da estação em que ela acontece, nos fazendo lembrar de que tudo está sempre mudando, tem o seu próprio tempo, que é cíclico.
É essencial, isto é, capta a essência das coisas e a essa característica se dá o nome de haimi, que significa “sabor do haikai”.
Não é difícil de entender, quando se volta à comparação com fotografia.
Qualquer um é capaz de perceber se uma foto é boa ou não, além dos aspectos técnicos. Ela é boa se nos toca, se capta um instante especial, se provoca uma sensação.
O haikai é uma forma poética que nasceu no Japão e chegou ao Brasil há exatos 100 anos, em 1908, no navio Kassato Maru, com a primeira leva de imigrantes japoneses.
Diferente, em muitos sentidos, da poesia que se faz no Ocidente, o haikai nos ensina coisas fundamentais para nosso momento atual.
Em primeiro lugar, a síntese.
Com apenas três versos, nem um a mais, nem um a menos, e com 17 sílabas, no máximo, exercitamos o dom de dizer o suficiente, como um mínimo de palavras.
Como vivemos cada vez mais, um tempo sem tempo, em que não é possível absorver toda informação que nos chega – nem transmiti-la – ser sintético e aprender a concentrar conteúdos é fundamental.
Mas também aprendemos a olhar para fora de nós mesmos, a observar a natureza, as mudanças de estação, e assim nos sentimos mais integrados com o todo e ficamos menos absorvidos com nossos próprios problemas pessoais, que passam a ser menos importantes.
Sair do próprio umbigo, como Buda avisou, é o caminho para a cessação do sofrimento.
O nome mais conhecido na história do haikai no Japão e, portanto, no mundo, é Matsuo Bashô.
Ele era um guerreiro, ou samurai, e como tal, aprendeu muitas artes zen, que são os caminhos para uma atitude de vida.
Além das artes marciais, judô (o caminho da suavidade), karatê dô (caminho das mãos vazias), kyu dô, (caminho do arco e flecha), kendô (o caminho de manejar a espada), os samurais no Japão antigo aprendiam ikebana, ou ka dô, que é a arte do arranjo floral, o cha-dô, que é a cerimônia do chá, e outras mais, como o haikai dô, ou caminho do haikai.
Quando seu senhor morreu, de morte natural, Bashô escolheu, entre tantas artes, ensinar o haikai e chegou a ter 3.000 discípulos. Mas, como haikai é feito sobre a natureza, Bashô decidiu sair de sua cidade e viajar para ver outras paisagens de seu país.
Seus alunos inconformados lhe pediram pra ficar porque achavam que ainda tinham muito a aprender, e Bashô lhes disse:
— Não tenho mais nada pra ensinar a vocês, qualquer dúvida que vocês tenham, perguntem para uma criança de 8 anos.
Porque, não importa que idade se tenha, é a criança que existe em cada um de nós, que sabe ler, entender e escrever haikai.
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Doria querendo nos orientalizar!
Mas Japão pode, não é do eixo do mal, devem ser ocidentais budistas.
Você gostou mesmo desse texto, PD?
É uma visão romântica demais. Menos do que a inocência de uma criança de oito anos, para apreciar o haikai é necessária uma educação de intelecto e sensibilidade.
Do Millôr:
Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua
Da própria:
“Cerimônia do chá
três convidados
e um mosquito.”
Alessandro, #2, confesso que tive a mesma sensação. É um texto meio meloso, o que é irônico: um texto com gosto europeu, romãntico no sentido histórico, para falar do objetivismo do haikai…
Agora, se a afirmação
for realmente de Basho, não podemos culpar a autora, né, não?
Agora, eu que não tenho a inocência de uma criança de oito anos, achei algo estranho. A autora fala que os samurais treinavam caratê, mas caratê é uma arte marcial tardia, de Okinawa (e não do Japão central), de forte influência chinesa e que só veio a ser popularizada no Japão, até onde vi, no século XX. Enfim, essa afirmaçaõ de que samurais praticavam caratê procede de onde?
Agradeco por toda a sabedoria adquirida em seu blog, sou um blogueiro amador e simples( para que todos entendam) e estudo em Londres ciencias politicas com o interesse em aplicar a rigidez da Inglaterra e a bondade do meu coracao na politica do meu estado, tenho interesse no raciocinio de pessoas como voce e estou a disposicao.
http://revolucionarioracional.blogspot.com/
Cecília Meirelles traduz assim um conhecido haikai de Bashô:
Velho tanque
Uma rã mergulha
Barulho da água
No link, reportagem contendo traduções alternativas do mesmo haikai para o português e informações várias, inclusive sobre a recepção do gênero no Brasil.
http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/haicai_a_insustentavel_leveza_do_zen_imprimir.html
Pound, poema em duas linhas mais título, no espírito de um haikai:
In A Station Of The Metro
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.
Ele próprio comenta:
http://7fatcow.com/2008/06/30/ezra-pound-haiku/
No endereço linkado lá embaixo, Felipe Fortuna escreve sobre Joaquim Cardozo, autor de
HAIKU
Como era: Botei um covo no
Fundo da gamboa.
No outro dia
encontrei um
telescopio
Cheio de estrelas.
Como deve ser: Cheiinho de estrelas
Na funda camboa
um covo:
Mas, um telescopio.
http://www.joaquimcardozo.com/paginas/joaquim/depoimentos/fortuna.htm
À luz da manhã
cigarras cantam uníssonas:
homenagem ao sol.
–Ronaldo Bomfim
Alguns nomes que fizeram bons haikais por aí:
Oswald de Andrade, Drummond, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Haroldo de Campos, Érico Veríssimo, Paulo Leminski, Pedro Xisto, Millôr e outros, muitos outros.
Time de primeira.
“comentaristas lêem,
mas,
querem mais,
parecer saber que o PB”
meus 5 centavos….
PB=PD
Distantes por milhas
Olavão e PD
Qual nuvem e relva
PD,
gostei muito do texto…
Ricardo…
mais uma vez adorei os links…obrigada.
minha tentativa
noite cai
esperanca ilumina
o ano termina
noite cai
esperanca ilumina
o ano termina
desculpas, saiu duplicado…
Haikus are easy
But sometimes they don’t make sense!
Refrigerator