O adeus a Samuel Huntington

Brasil · EUA · Ideologias · Iraque · Islã · Mundo · 30/12/2008 - 05h03 - 60 Comentários

Samuel Huntington morreu na quarta-feira passada e já deveria ter aparecido por aqui, no Weblog. Mas aí houve o bombardeio de Gaza.

Ele é um dos mais influentes cientistas políticos do tempo em que vivemos. Seu livro mais lembrado, nos últimos tempos, é O Choque de Civilizações, mas ele escreveu muito durante mais de 50 anos de carreira como pensador.

Para ele, democracia não funcionaria para qualquer um. Houve o tempo em que, considerou, a cultura católica ibérica por exemplo seria incompatível com democracia. E, com Salazar e Franco, com milicos vários América Latina afora, os fatos faziam parecer que estava certo. Até que deixou de estar.

Huntington ocupa um lugar na história do Brasil: ele serviu como consultor dos generais no período de transição. E se gabava de ter feito um bom trabalho, do tipo que garantiu ao Brasil uma democracia estável.

Suas teorias se punham em oposição às chamadas teorias da Modernização. Um bom grupo de cientistas políticos considera que uma mistura de elementos como maior nível educacional da população, melhor distribuição econômica, enriquecimento do país, infra-estrutura etc. levam naturalmente ao desenvolvimento. Huntington, não. Para ele, a receita ideal para países em desenvolvimento são ordem e estabilidade. Democracia e liberdade podem ser dispensados para um futuro longínquo. Sua fórmula foi aplicada entre os governos Médici e Figueiredo no processo de abertura brasileiro. Anos depois, olhando para o Brasil, o velho cientista costumava dizer que tinha acertado.

Há quem sugira que simplesmente teoriza justificativas racionais para a opressão.

Suas teorias a respeito de democratização costumam ficar restritas aos ambientes acadêmicos. Seu trabalho a respeito do choque entre civilizações, não.

A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, sugeriu Francis Fukuyama, teria posto fim à história. Para Huntington, um novo ciclo teria tido início. Nele, não seriam nem razões primordialmente econômicas, muito menos ideológicas, que provocariam os conflitos militares. Os novos conflitos seriam culturais, partindo da fricção entre as ‘oito civilizações’: a ocidental (EUA, Canadá, Europa e Austrália), latino-americana, islâmica, chinesa, hindu, japonesa e africana.

O livro saiu em meados da década de 1990 mas, dado o que disse, não é à toa que virou herói de quatro em cada cinco neoconservadores quando houve o Onze de Setembro. Ter-se tornado o principal ideólogo da visão de mundo do governo George W. Bush é uma triste ironia. Democrata convicto, Huntington foi assessor das campanhas derrotadas de Adlai Stevenson (1956) e Hubert Humphrey (1968) e, pasme, foi um dos idealizadores da Doutrina Carter para o Irã.

Um homem absolutamente perspicaz? Ou o homem que costurou em 1995 uma teoria sob medida para justificar um possível ataque norte-americano à China que, por acidente, serviu ao enfrentamento do terror islâmico? A principal crítica a seu trabalho é que, apesar da aparente perspicácia, a teoria é simplista. É como se ela ignorasse o fato de que a globalização fez com que entre as ‘civilizações’ houvesse intensa troca de informação. Como se ele considerasse que suas ‘civilizações’ fossem entidades homogêneas e não cheias de conflitos internos.

(Aliás: alguém aí se sente ‘latino-americano’ ao invés de ocidental?)

Cumpre não transformar suas idéias em caricatura: Huntington considerou a guerra contra o Iraque um equívoco desde que foi anunciada. Ele argumentava o seguinte: embora seja verdade que o conflito entre civilizações esteja presente, aos EUA não cabe aumentar as feridas. O objetivo do país, por ser bem mais poderoso, deveria ser reconciliar as culturas.

Nos últimos anos, não era o Islã que o preocupava mais. Éramos nós, latino-americanos. As ondas migratórias da América colonizada pela Ibéria em direção aos EUA, ele sugeria, poderiam rachar definitivamente seu país, descaracterizar sua cultura, talvez até criar uma nação com duas línguas.

Talvez.

Samuel Huntington tinha 81 anos e deu aulas em Harvard dos 23 até o ano passado.

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