Se é para listar vilões, Israel não está sozinha
Egito, Arábia Saudita e o Hamas estão juntos

Israel e Palestina · Oriente Médio · 29/12/2008 - 04h47 - 415 Comentários

Não existe um único conflito armado no mundo no qual há mais diplomatas envolvidos e recursos internacionais voltados do que aquele entre Israel e seus vizinhos palestinos. Tais recursos provavelmente seriam melhor empregados alhures. Afinal, há muitos cantos do mundo onde há conflitos mais sérios e para os quais quase nenhum recurso é dedicado.

Isto posto: é difícil justificar a morte de 280 pessoas. Há muitos civis na conta.

Mas, para compreender esta história, é preciso escapar ao maniqueísmo da Israel cruel contra palestinos indefesos. Este ataque a Gaza é um jogo de cartas marcadas onde no comando de um lado, do outro, e nos arredores, não há um só inocente.

No sábado à noite, o ministro das relações exteriores egípcio, assim como todos seus pares árabes, mostrou sua indignação contra Israel. Mas, quando perguntado especificamente, Ahmed Aboul Gheit disse: Israel havia deixado claro que se o lançamento de foguetes continuasse, haveria retaliação. O aviso foi feito mais de uma vez. ‘O responsável pelo ataque é o Hamas.’

Quando começou a despejar foguetes contra Israel, o Hamas esperava um contra-ataque. O Hamas precisa de Israel no ataque, porque raiva de Israel alimenta suas vitórias eleitorais. O Hamas precisa do Likud no poder em Israel porque isto garante o confronto. Negociações de paz, hoje, favorecem ao Fatah.

O Fatah, no comando da Cisjordânia, imediatamente condenou o ‘ataque covarde’ de Israel a Gaza. Mas também de presto fez informar à imprensa israelense que estava pronto para assumir o governo de Gaza tão logo o Hamas caísse. Não há nada que o Fatah deseje mais do que a derrubada do Hamas.

Israel é, freqüentemente, condenada internacionalmente pelo bloqueio que impõe a Gaza. A vida fica muito difícil na faixa, por conta. Mas Gaza faz fronteira com o Egito que também lhe impõe um bloqueio. O Egito, país árabe, raramente é lembrado quando as críticas aparecem. O Hamas, no entanto, é filhote da Irmandade Muçulmana egípcia e a ditadura do país não quer a irmandade nem longe. O Egito, parece claro, foi informado anteriormente por Israel que o ataque viria e as condenações são só isso: um aceno para as ruas árabes. Israel sai como vilã mas cumpre o papel que o Egito deseja.

O Egito não está sozinho. Também a Arábia Saudita faz críticas a meia boca mas bem preferia ver o Hamas pelas costas. Ambos os países, como inúmeras outras nações árabes, vêem o grupo político e terrorista como uma extensão do governo iraniano. E o Irã é uma ameaça para os árabes.

E: Israel ofereceu negociação. O governo Kadima-Trabalhista queria a renovação do cessar-fogo. A continuidade do lançamento de foguetes os faz parecer fracos; a ofensiva militar não é seu forte, o Likud sempre parece melhor nisso. Israel ofereceu afrouxar o bloqueio, pediu ao Egito que interviesse, sugeriu soltar mais prisioneiros. Foi uma opção do Hamas não atender aos pedidos.

Reação desproporcional? Trezentos mortos é a conta da política. Com eleição pela frente, um governo fraco quer parecer ao menos tão forte quanto quem promete sangue.

É uma encurralada política da qual não há saída. O Hamas não é vítima – vítimas são os palestinos civis mortos. Vítimas, diga-se, não apenas de Israel, mas também de uma opção política de seus líderes. No cálculo do Hamas, sua sobrevivência política depende de seu povo continuar sangrando. O ataque de Israel, no entanto, desperta a raiva na rua árabe. E mais inimigos lhe cria. Países como Egito e Arábia Saudita não vêem opção que não condenar, chamar de desproporcional – mas as palavras nada têm a ver com suas opiniões reais.

Há diplomatas demais, dinheiro demais, organizações demais, dedicadas ao conflito entre Israel e Palestina. O nó continua lá. O nó continua com o mesmo tamanho. Melhor seria dedicar o esforço a outros conflitos às vezes bem mais sangrentos, uns tantos na África, onde talvez haja alguma chance de encerrar o problema.

Uma correção: No post de sábado, afirmei que desde o cessar-fogo, quase 60 foguetes haviam sido lançados contra Israel. A informação estava errada. Desde o fim do cessar-fogo, dia 21 de dezembro, é que quase 60 foguetes foram lançados.

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