Você já foi à Bahia, Raúl? E você Hugo? Lugo?
Castro, Chávez e Lula na Cúpula baiana

América Latina · Argentina · Brasil · 17/12/2008 - 14h09 - 72 Comentários

Há duas maneiras de ver a Cúpula da América Latina e Caribe, realizada na Bahia a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A primeira é a do press release. Raúl Castro todo lépido, ‘Cuba convidada pela primeira vez a um evento deste porte’; Lula fazendo elogios à ascensão da esquerda na região; Hugo Chávez, como de hábito, arriscando uma declaração bombástica ou outra entre sorrisos, sempre com aquele ar de que o coração disparou no instante em que lhe apontam câmeras; só não havia Néstor Kirchner mal-humorado, para completar o clichê, porque a Kirchner na presidência argentina, agora, é a outra.

O press release, aquilo que a cúpula adoraria ver publicado nos jornais, é uma América Latina unida, críticas salpicadas (e, a essas alturas do campeonato, fáceis de fazer) a George W. Bush – os oprimidos e o opressor. É a história que a esquerda adora ouvir e repetir, a mesma que a direita paranóide vibra em ter como pesadelo seu pesadelo particular, a eterna comprovação de que estava certa.

A segunda maneira de ver a Cúpula é pelo que de fato ocorre: as conversas realmente importantes para o Brasil não parecem que vão sair. É questão de aguardar.

É fácil condenar o (estúpido) embargo norte-americano a Cuba. E não há rigorosamente nada de audaz em convidar Raúl Castro. Desde que José Sarney chegou à presidência do Brasil que Fidel vive passeando por aqui.

As conversas com o Paraguai estão enguiçadas, mas os presidentes Lula e Fernando Lugo ainda não conversaram. Os paraguaios querem mais dinheiro pela energia elétrica que cabe a sua parte de Itaipu e é revendida ao Brasil. Eles reclamam que o contrato que existe foi assinado por duas ditaduras e que seu país foi lesado. É verdade. E a energia revendida ao Brasil realmente é barata. Mas quem contraiu uma dívida externa elevada para construir a usina inteira foi o Brasil, não o Paraguai. E, até o Plano Real, o Brasil sofreu um bocado por conta das dívidas angariadas pelos militares. A contrapartida de o Brasil pagar a obra inteira foi comprar energia barata.

alguns posts onde o assunto foi mais detalhado, cá no Weblog.

Apesar do discurso de união das esquerdas, o Itamaraty não quer ceder às pressões paraguaias por renegociação. E está certo: é um contrato comercial assinado. Nos anos 1970, os dois países jogaram os dados. O Paraguai ganhou energia praticamente de graça, o Brasil correu um risco. Ganhou. Mas política é matéria delicada. O ex-bispo católico Fernando Lugo tem a renegociação deste contrato como sua principal promessa de campanha. Se não conseguir rigorosamente nada, não terá o que explicar em casa. Político pressionado pelo apoio popular em baixa pode fazer besteira. Fechar a usina, ele não consegue. O Brasil já andou fazendo exercícios militares próximos à fronteira. Seria loucura para Lugo fazer o mesmo. Há uma bomba relógio em potencial tocando.

Rafael Corrêa, presidente do Equador, terá uma conversa com Lula hoje. Quer dinheiro – seu país está falido.

Estas duas discussões levam a uma questão mais importante: às vezes, pode ser do interesse do Brasil levar prejuízo numa negociação deste tipo com o Paraguai.

A questão se chama Mercosul ou um futuro mercado livre que englobe toda América do Sul.

A estrutura básica que a geopolítica está tomando já nos é conhecida: Brasil, China e Índia – talvez África do Sul – ganham espaço e voz nas decisões mundiais. O problema, para nós, é que descontando-se a África do Sul, o Brasil é o caçula entre China e Índia. Pode ser o de maior renda per capita, pode ser o menos violento, com menor quantidade de problemas internos, mas é também o menor economicamente. Não é absurdo imaginar um cenário no qual o Brasil chegue a 2010 como a sexta ou sétima economia do mundo. Com alguma sorte, e dependendo de como a crise bater individualmente em cada país, é possível. Ainda assim, permanecerá o caçula.

Mas há uma lição da União Européia: a Zona do Euro, hoje, tem o segundo PIB do mundo. Se um dia o Reino Unido entrar, será muito difícil ultrapassá-la. E ter nas mãos uma moeda com este peso a sustentando é extremamente valioso na hora de negociar com o mundo. O Real não será essa moeda. Portanto, o Mercosul está em nosso futuro e nos interessa. O Brasil será o país mais poderoso do grupo, mas isso não quer dizer que vencerá todas. Um mercado comum não interessa a ninguém se só há vantagens para um deles. Para que o Mercosul aconteça, será preciso seduzir o mais ardiloso e enciumado de nossos vizinhos: a Argentina. E, se ele tiver alguma chance de existir realmente, o Brasil terá de correr atrás do seu desenvolvimento ainda em curso ao passo em que ajuda os vizinhos. Exatamente como os países ricos da Europa fizeram.

Um grande bloco sul-americano alavancaria mundialmente em muito os interesses de toda região. O Brasil sobrevive sem o Mercosul. Melhor com ele, mas há vida sem. Tem sobrevivido bem, diga-se. Quem precisa do Mercosul são os outros.

Como, no entanto, não parece haver espaço de diálogo a respeito de uma real integração regional, todos vão brincando de discursar sobre as união das esquerdas enquanto posam para fotos. Esta Reunião de Cúpula para ser mais uma daquele tipo no qual, em uma semana, todos já esqueceram.

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