Corrupção em Illinois, nos EUA,
e a briga entre Obama e Blagojevich
Poucas histórias seguem tão confusas aqui nos EUA quanto o caso de grassa corrupção envolvendo o governador democrata de Illinois, Rod Blagojevich. A história fica mais feia por conta de Illinois ser o estado do presidente eleito, Barack Obama, e um dos escândalos envolver justamente a vaga que Obama deixa no Senado. Quando um senador morre ou renuncia ao cargo, é o governador do Estado quem indica seu substituto. Blagojevich pôs a vaga de Obama à venda.
Não só.
Além de ser gravado ao telefone dizendo que negociaria a vaga por dinheiro ou favores, também há provas de que Blagojevich pediu dinheiro em troca de enviar fundos para um grande hospital e começou a negociar com o Chicago Tribune, um dos jornais mais importantes do país, a demissão de editorialistas em troca de incentivos fiscais.
Illinois é um estado com histórico de corrupção. O antecessor de Blagojevich, o republicano George Ryan, está na cadeia. É uma disputa entre os dois partidos. Além de Ryan, o republicano William Stratton também foi preso, e a ambos se juntam na história os democratas Otto Kerner e Dan Walker. Todos de 1953 para cá. Blagojevich desempata o jogo partidário. Aliás, corrupção no governo é uma tradição norte-americana. A Louisiana é o estado mais famoso pela corrupção. Mas, curiosamente, o estado que prendeu mais governadores no curso de seus mandatos foi o Arizona, com dois: os republicanos Fife Symington III e Evan Mecham. Lá, eles costumam dizer que imediatamente cassam o mandato dos suspeitos, prendem, não esperam para depois.
E aí está uma diferença honrável entre Brasil e EUA: o número de governadores da cadeia mostra que, sim, corrupção existe por toda parte. O que não existe por toda parte é Justiça.
Não é certo que Blagojevich vá se juntar a tantos na prisão. Existem as gravações, por certo, mas provar corrupção é bem mais complicado do que isso. Aí entram documentos, testemunhos – o governador por certo terá os melhores advogados. Há muita gente se perguntando por que o procurador-geral Patrick Fitzgerald se antecipou às investigações e deu ordem de prisão antes que o caso estivesse bem estruturado e as provas fossem imbatíveis perante uma corte de Justiça. A razão parece ter sido impedir que ele nomeasse um senador da República vendendo o cargo.
Para que exista o corrupto, é preciso um corruptor.
O principal suspeito de ter sugerido pagar pela cátedra no Senado é o deputado federal Jesse Jackson Jr, filho do herdeiro do reverendo Martin Luther King. Jackson nega. Mesmo que não passe de suspeita, já atrapalhou seus planos e provavelmente perdeu a oportunidade de conseguir a cadeira. Emil Jones, um protegido de Obama, seu sucessor no Senado estadual, deixou a disputa pelo cargo cedo. Parece evidente, agora, qual o motivo. Que o cargo estava sendo negociado, ao que parece, era um segredo aberto nos círculos políticos de Illinois. E que Blagojevich estava sendo investigado, também. Só arrogância explica seu comportamento. Nos corredores, há quem sugira que Barack Obama intercedeu para que Fitzgerald antecipasse a prisão. Quanto mais evidente Blagojevich se tornava, pior ficava para o presidente eleito. Melhor se livrar do inconveniente o quanto antes.
A participação de Obama no caso – se é que houve – não é clara. Se alguém de sua equipe se reuniu ou não com o governador para discutir a sucessão, o que é possível, também é uma pergunta em aberto. Há suspeitas de que Rahm Emmanuel, seu chefe-de-gabinete, tenha tido algum tipo de contato. Ninguém acusa Obama de ter boa relação com o governador. Aliás, bem o contrário – eram inimigos notórios. Emmanuel, no entanto, trabalhou na campanha eleitoral de Blagojevich e ambos eram próximos. O Partido Democrata de Illinois é um só e política sempre deixa um rastro de sujeira. No mínimo, de promiscuidade.
As chances de o caso abalar o início da presidência de Obama, ao que parece, são mínimas. Mas não quer dizer que não existam.
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O mais engraçado é que o Blagojevich sabia estar sendo grampeado, e fez piada com isso mais de uma vez… Cara de pau completo.
Tem gente até se perguntando se, além de corrupto, o governador não tem vários parafusos a menos…
E no Brasil o STJ afrouxou a prisão preventiva dos desembargadores do ES…Ta ai a diferença, prender a Federal prende igual o FBI agora ficar preso são outros quinhentos…
Gabriel, o Blagojevich pagou fiança e saiu da cadeia no mesmo dia…
Aliás, uma fiança bem chifrim: 4.500 dólares …
O caso Blagojevich é uma prova de que não basta reforma política para acabar com a corrupção. A corrupção tem a ver com caráter, e com as fraquezas humanas (Santo Agostinho já dizia que não há pecado que não possamos cometer), e não com este ou aquele sistema político. Também não muda o fato de que os pedidos de punição geralmente estão mais relacionados às lutas entre partidos do que a algum desejo de decência. Agora, que no Brasil a punição aos políticos corruptos anda fraca, isto é verdade. Quando se vê notórios ex-governadores de São Paulo tendo seu apoio disputado a tapa por grupos que antes eram seus adversários, dá para entender o tamanho da encrenca.
Aí eu fico pensando como seriam as negociações para a escolha do nome que ia ser indicado por Geisel (que era um homem honesto) senador-biônico.
Geisel era um homem honrado.
Obama nem começou a já se envolve em escândalos, … tempestade à vista.
Politico ligando pra dono de jornal pedindo pra demitir jornalista?
Ufa! Ainda bem que isso não acontece no Brasil, né?
Isto é uma ver-go-nha!
Frase espetacular deste seu post, Pedro:
“E aí está uma diferença honrável entre Brasil e EUA: o número de governadores da cadeia mostra que, sim, corrupção existe por toda parte. O que não existe por toda parte é Justiça.”
Criticamos tanto o Executivo e o Legislativo no Brasil por causa da corrupção existente nestes poderes - e esta crítica tem total razão de ser feita. Mas a injustiça que impera nas decisões do Judiciário nacional é incrível. Se você tem um advogado bom e é rico pra dedéu, o juiz já não vai ser tão duro com você. Claro que existem exceções, mas o senso de injustiça existente no país é bem grande. Deixa-se uma moça de 23 anos por mais de 40 dias na cadeia por ter pichado uma parede da Bienal (quando a mensagem dada era de que os espectadores deveriam “interagir” naquele espaço vazio) mas liberta-se Dantas duas vezes em menos de 48 horas e ainda arma-se o maior escarcéu para se combater o “estado policial” no país (supostamente, o responsável por perseguir o banqueiro).
Creio que as coisas estejam melhorando, mesmo que lentamente. Mas dá raiva ver um Celso Pitta da vida, por exemplo, pagando de bonzão na TV nacional, livre, leve e solto - veja o vídeo dele sendo “achado” pelo CQC neste link - http://www.youtube.com/watch?v=DgcvvIzh7qk
Quanto a este escândalo abalar o início do governo Obama, ha-ha-ha. Mais uma vez, concordo contigo Pedro: as chances de isso ocorrer são mínimas.
Abraço
E eu que pensei que na gringolândia éra só flores…
Mas, pelo menos lá, diferente de cá, vagabundo vai pro xilindró e não tem meritíssimo bondoso pra soltar…
Pelo menos lá, o cara pagou alguma coisa pra sair da prisão. Deve ser uma merreca pra o Blagojevich, mas pagou alguma coisa.
Já aqui… Gilmar Mendes soltaria sem fiança.
Luiz
Sou da opinião que juiz ,governador ou qualquer criminoso que não seja uma ameça quando solto à sociedade tem o direito de responder ao processo em liberdade pela simples presunção de inocência, resalvados os casos de flagrante delito ou risco de fuga. O ficar preso a que me refiro é punição devida aos corruptos e não Sursis, progressão de regime com um sexto da pena que na minha opinião já é baixa ou Subistitução de Pena como ocorre no Brasil.
PD, agora é minha vez de criar teoria da conspiração. O cara tem uma folha de dar inveja a político brasileiro, umas cinquenta acusações, desde nomeações vendidas, negócios imobiliários escusos e obras em troca de propina, o cara é advogado, pra lá de malandro, sabe que o FBI está lhe rastreando, de repente o sujeito começa anunciar o cargo de senador até pelo eBay, isso não está cheirando a armação de quem a casa já caiu e fez um “acerto”?
Gabriel, um cara desses solto tem um potencial enorme de destruir provas e intimidar testemunhas. Pelo menos por uns dias ele deferia ficar “guardado”.
Quanto à nossa tendência de impunidade, concordo com você.
Dino, você tem razão, pode ser acerto.
Tenho uma amiga que é repórter do Chicago Tribune — o jornal mais importante do estado e aparentemente envolvido no esquema. O que ela diz, e que circula entre os repórteres locais, é que o cara é arrogante pacas. Senso de impunidade puro. Delirante.
Mas, evidentemente, não dá pra ter certeza.
valeria a pena um post sobre os assassinatos que tais esquemas provacam nos Eua. Pela lembrança do que li na imprensa mundial ao longo dos anos, não foram poucos. Como a punição é forte, aumenta o estímulo a queima de arquivo. Não tenho dúvida de que é por isso também que o cinema estadunidense gosta tanto da temática.
Vantagens e desvantagens de diferentes sistemas.
O sistema brasileiro garante benefícios demais a réus sob a guisa de “civilizado”. Pessoalmente, acho que tem que pegar pesado, especialmente com político e empresário corrupto.
Os americanos não se iludem, mas lá tem um monte de corrupto na cadeia, pelo menos.
comparando com o caso brasileiro demonstra que nosso problema não é corrupção (isso até os EUA tem) mas impunidade. Essa merda brasileira de não punir, dar um jeito de quebrar o galho se o sujeito prometer não fazer mais é que nos mata.
[...] pelo post do Dória a respeito, é razoável concluir que é outro assunto que ele se mete a palpitar sem ter [...]