Corrupção em Illinois, nos EUA,
e a briga entre Obama e Blagojevich

EUA · 13/12/2008 - 06h44 - 19 Comentários

Poucas histórias seguem tão confusas aqui nos EUA quanto o caso de grassa corrupção envolvendo o governador democrata de Illinois, Rod Blagojevich. A história fica mais feia por conta de Illinois ser o estado do presidente eleito, Barack Obama, e um dos escândalos envolver justamente a vaga que Obama deixa no Senado. Quando um senador morre ou renuncia ao cargo, é o governador do Estado quem indica seu substituto. Blagojevich pôs a vaga de Obama à venda.

Não só.

Além de ser gravado ao telefone dizendo que negociaria a vaga por dinheiro ou favores, também há provas de que Blagojevich pediu dinheiro em troca de enviar fundos para um grande hospital e começou a negociar com o Chicago Tribune, um dos jornais mais importantes do país, a demissão de editorialistas em troca de incentivos fiscais.

Illinois é um estado com histórico de corrupção. O antecessor de Blagojevich, o republicano George Ryan, está na cadeia. É uma disputa entre os dois partidos. Além de Ryan, o republicano William Stratton também foi preso, e a ambos se juntam na história os democratas Otto Kerner e Dan Walker. Todos de 1953 para cá. Blagojevich desempata o jogo partidário. Aliás, corrupção no governo é uma tradição norte-americana. A Louisiana é o estado mais famoso pela corrupção. Mas, curiosamente, o estado que prendeu mais governadores no curso de seus mandatos foi o Arizona, com dois: os republicanos Fife Symington III e Evan Mecham. Lá, eles costumam dizer que imediatamente cassam o mandato dos suspeitos, prendem, não esperam para depois.

E aí está uma diferença honrável entre Brasil e EUA: o número de governadores da cadeia mostra que, sim, corrupção existe por toda parte. O que não existe por toda parte é Justiça.

Não é certo que Blagojevich vá se juntar a tantos na prisão. Existem as gravações, por certo, mas provar corrupção é bem mais complicado do que isso. Aí entram documentos, testemunhos – o governador por certo terá os melhores advogados. Há muita gente se perguntando por que o procurador-geral Patrick Fitzgerald se antecipou às investigações e deu ordem de prisão antes que o caso estivesse bem estruturado e as provas fossem imbatíveis perante uma corte de Justiça. A razão parece ter sido impedir que ele nomeasse um senador da República vendendo o cargo.

Para que exista o corrupto, é preciso um corruptor.

O principal suspeito de ter sugerido pagar pela cátedra no Senado é o deputado federal Jesse Jackson Jr, filho do herdeiro do reverendo Martin Luther King. Jackson nega. Mesmo que não passe de suspeita, já atrapalhou seus planos e provavelmente perdeu a oportunidade de conseguir a cadeira. Emil Jones, um protegido de Obama, seu sucessor no Senado estadual, deixou a disputa pelo cargo cedo. Parece evidente, agora, qual o motivo. Que o cargo estava sendo negociado, ao que parece, era um segredo aberto nos círculos políticos de Illinois. E que Blagojevich estava sendo investigado, também. Só arrogância explica seu comportamento. Nos corredores, há quem sugira que Barack Obama intercedeu para que Fitzgerald antecipasse a prisão. Quanto mais evidente Blagojevich se tornava, pior ficava para o presidente eleito. Melhor se livrar do inconveniente o quanto antes.

A participação de Obama no caso – se é que houve – não é clara. Se alguém de sua equipe se reuniu ou não com o governador para discutir a sucessão, o que é possível, também é uma pergunta em aberto. Há suspeitas de que Rahm Emmanuel, seu chefe-de-gabinete, tenha tido algum tipo de contato. Ninguém acusa Obama de ter boa relação com o governador. Aliás, bem o contrário – eram inimigos notórios. Emmanuel, no entanto, trabalhou na campanha eleitoral de Blagojevich e ambos eram próximos. O Partido Democrata de Illinois é um só e política sempre deixa um rastro de sujeira. No mínimo, de promiscuidade.

As chances de o caso abalar o início da presidência de Obama, ao que parece, são mínimas. Mas não quer dizer que não existam.

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