Tempo sufocante: o AI-5 no Jornal do Brasil
Há alguns dias, encabecei o Open Thread com a previsão do tempo publicada na primeira página do Jornal do Brasil em 14 de dezembro de 1968. Naquela mesma edição, à direita, fizeram publicar ‘Ontem foi o Dia dos Cegos’.
No comando do JB, a dupla Alberto Dines e Carlos Lemos publicaram algumas das primeiras páginas mais memoráveis da história da imprensa brasileira. O trabalho não era só deles, era de toda uma equipe de excepcional qualidade que aquele jornal um dia teve. Juntos, fizeram parte da geração de jornalistas que inspiraram minha geração a seguir carreira.
Roberto Quintaes, leitor deste Weblog, era um dos copidesques do JB presentes naquela noite. É ele quem conta a história, por email:
O Editor-Chefe Alberto Dines, por volta da meia-noite, procurava soluções, com o Chefe de Redação Carlos Lemos, para as muitas intervenções dos militares que haviam ‘ocupado’ o JB naquela noite.
O editorial foi substituído por uma foto, vertical, em que o campeão mundial de judô era derrubado pelo seu filho, brincadeira doméstica. Muitas outras fotos com legendas ambíguas substituíram textos vetados.
Num certo instante, Dines me pediu que recriasse a previsão do tempo, usando o 5 do Ato Institucional e o 37 do Ato Complementar assinados naquele 13 Dezembro.
E saiu então a seguinte ‘previsão’:
Tempo negro. Temperatura sufocante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima – 5 graus, no Palácio Laranjeiras. Máxima = 37, em Brasília.
A primeira página foi vista e revista pelos militares ainda com a previsão do Serviço de Meteorologia. A ‘previsão0′ de que aqui se fala foi incluída na capa do JB depois de todos os vetos dos militares terem sido executados. A atenção deles não mais pousou, ao final, sobre a previsão do tempo, … e fez-se história.
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Muito legal a história…
Uma vez, fiz uma montagem de como seria seria um portal de notícias na Internet em 1968. Se lhe interessar…
http://www.prolixo.com/2008/11/mil-novecentos-e-sessenta-e-oito.html
No balaio do kotscho ele reproduz a capa do estadão de 14 de dezembro. Muito boa, também. Entre as manchetes:
- “Estado” é apreendido.
você leia como quiser.
A capa da última hora do dia 14. Neste, nenhuma surpresa.
Eu lembro do Coriolano.
A imprensa foi um dos pilares do golpe. Ridícula essa vitimização promovida agora, tantos anos depois. A imprensa fez a cama e reclama de ter sido obrigada a deitar nela?
o episódio rende uma crônica. não mais que isso. três linhas de meteorologia “contestadora” não muda a história nem produz heróis.
Muito bom. Ter criatividade é bom demais.
O site do Grupo de Estudos sobre a Ditadura data o Ato Complementar 37 em 14/03/67. Alguém me explica?
Darw,
pelo que me lembro, havia Atos Institucionais e Atos Complementares. Alguém lembra a diferença?
9000,
a imprensa era a favor do golpe e apoiou a ditadura. Mas isto por cima, lá pelos patrões. Da redação, a maioria fez o correto: tentou noticiar. Muitos jornalistas foram presos, torturados e obrigados a se exilarem por conta disto.
Rolando,
Para quem viveu aquela época, estas três linhas na primeira página do JB eram o máximo. Por serem o máximo de contestação possível na imprensa da época.
Radical,
Minha dúvida é que o Roberto Quintaes afirma que o 37 foi assinado em 68, mas o site que consultei passa a data de 67…
O >9000 falou bem……mas se formos falar do pós 64 temos que lembrar que a maioria da classe média e boa parte da elite intelectual deram ensejo a que os nossos capitalistas , plutocratas e oligarcas subsidiassem o movimento do conservadorismo militar…..óbvio que por tras de tudo havia os EUA, mas a classe média e boa parte da imprensa irão receber um choque de 220 volts e voltar a realidade só depois do AI 5……com a casa caída ficará a mostra a cara dos que torturariam, matariam e “trucidariam” toda uma geração…
Como com o fenomeno Collor, ninguém ,Hoje, votou nele, e ninguém, ontem , apoiou a ditadura!
Ah… estes revisionistas… Não se lê a história com ideologia, mas como fato.
+ Minha professora de história contava sobre essa previsão do tempo. Foi minha primeira lição de ironia.
De lá para cá foi ladeira abaixo.
Achei na Internet uma referência ao texto, mas nesta referecência consta 38º, e não 37º. O, texto, infelizmente, não está mais online, mas pode acessado pelo cache do Google:
http://74.125.47.132/search?q=cache:1oUUP0FOCzwJ:www.cambiassu.ufma.br/rosa.php+%22Roberto+Quintaes%22+jb+ai-5&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=2&gl=br
Porra PD, tu só tem falado de política… assim fica chato! ;)
Mais um post da série: olha como nós éramos heróis…
Cesar,
você preferia um post dedicado ao outro lado, tipo a série: olha como nós abrimos as pernas…?
de que lado você estava em 1968?
Todas as profissões comportam agentes competentes, outros medíocres e muitos ineptos. O jornalismo não é exceção.
Quando um arquiteto, um médico, um marceneiro ou um advogado querem divulgar algo que sabem ter interesse noticioso, precisam contatar órgãos de mídia para alcançar o intento. Jornalistas, como estão dentro da mídia, têm maior facilidade para louvar seus feitos pessoais e os de seus interesses.
Nas últimas décadas assistimos um “filme” constantemente reprisado. Seu enredo trata da glorificação do jornalismo, sempre com menção às figuras douradas, como se houvesse, de fato, algo palpável e homogêneo conhecido como “geração”.
Antes, durante e depois da ditadura existem exemplos de grandes profissionais, seja no jornalismo ou em outras áreas. Mas a realidade mostra que que nenhuma geração, em nenhuma área de atuação, goza de homogeneidade capaz de ser tomada como exemplo dignificante.
Outro dia, neste blog, alguém mencionou a famigerada campanha “Ouro para o bem do Brasil”. Pois bem, aquela farsa teve, com trama até hoje mal esclarecida, vários jornalistas envolvidos. Todos da mesma geração “gloriosa.
É lugar comum atribuir às empresas jornalísticas o apoio à ditadura, enquanto aos jornalistas é reservado o trono da honra e da coragem. Esse mesmo raciocínio permitiria culpabilizar os doi-codi e inocentar agentes e coronéis torturadores.
Erros cirúrgicos são cometidos por médicos. Edificações grotescas são perpetradas por arquitetos. Prédios que desabam são construidos por engenheiros. Processos são inutilizados por advogados relapsos. Todas as iniquidades da imprensa têm as mãos de jornalistas.
PD, “… a dupla Alberto Dines e Carlos Lemos publicaram …” e …”fizeram parte da geração de jornalistas que inspiraram…” podem ser construções corretas, ou como preferem alguns, aceitas. Mas que ficaria melhor concordar, respectivamente, com ” a dupla” e com “geração” , isso lá ficaria.
well….a censura do governo militar era burra por ser explícita. Mas também não vamos transformar profissionais eventualmente cerceados na sua tarefa de informar em “heróis” ou paladinos da liberdade de informação. Devagar com o andor.
Todos nós sabemos que a pior censura é aquela acertada e apalavrada por interesses outros. Hoje vemos uma auto-censura melindrosa e cismada, uma meia palavra que fica ali no terreiro da informação dirigida e tutelada.
O AI-5 foi editado 3 dias depois da Declaração dos Direitos do Homem ter completado 20 anos.
Veja nasceu um pouco antes, setembro de 68.
Talvez os donos da imprensa acreditassem que o regime autoritário que se seguiria ao golpe não fosse tão drástico em relação à imprensa, como de fato não o foi até o AI-5.
Aí foi o diabo, descambando para a necessidade de jornalistas fundarem os seus próprios jornais, a chamada imprensa nanica ou alternativa.
Essa imprensa, seguidora do exemplo do Pasquim, de junho de 69, alternava a luta contra o regime ditatorial com as cacetadas na grande imprensa.
Como exemplo, o artigo de Paulo Francis, no Pasquim, contra Roberto Marinho, chamado “Um homem chamado porcaria”.
O Francis morreu bastante mudado, né mesmo?
Eu, josef mario, devo dizer que o companheiro, com estes posts de merda e repetitivos, deve estar sofrendo uma espécie de prisão de ventre intelectual. É bem verdade que este cérebro de bosta do companheiro sempre produziu verdadeiros cagalhões, intelectualmente falando e, também, cagando. Antigamente, ao contrário de agora, o companheiro devia sofrer de caganeira mental porque as merdas dos seus posts saíam fluídas, rápidas e muito mais digeríveis.
Muito obrigado
Josef Mario 3.110.000 resultados no google…
Quem é mesmo a Dercy Gonçalves da filosofia?
Só para colocar o pingo direitinho em cima do i, acho indispensável um acrescentamento aos comentários do Roberto Quintaes sobre a previsão do tempo metafórica publicada quando o JB foi invadido por censores fardados, em 1968. O texto original, depois modificado, foi meu, na época repórter C do JB, na Av. Rio Branco. O que me lembro do episódio é o seguinte: decidida a tática de tentar caracterizar a censura, a notícia espalhou-se na redação e cada repórter tentava dar sua colaboração, às vezes em trabalho conjunto, tentando dar um tom ridículo a matérias, títulos, legendas. Tudo para dar a entender aos leitores que algo anormal estava acontecendo. Lá pelas tantas, veio alguém lá da sala do copy, dizendo que faltava a previsão do tempo. A edição estava atrasada pela censura, foi tudo muito rápido. Como isto frequentemente era atribuição minha _ na época houve chuvas fortíssimas, a previsão meteorológica tinha destaque incomum _ sentei diante da máquina e mandei brasa: tempo negro, etc. uma frase que escrevi foi cortada. Não lembro exatamente os termos, mas era algo no sentido de que não havia perspectiva de melhoria a curto prazo. No lugar disso, foi enxertada a quase hermética citação das temperaturas em brasília e nas laranjeiras. Era isto.
Saudações
Ubirajara Loureiro