Esperando Godot ou Cuba libre

América Latina · 11/12/2008 - 05h48 - 295 Comentários

Quando o ano virar, em primeiro de janeiro, Cuba completará 50 anos de sua revolução. E, meio século mais tarde, um Castro permanece no poder, não há liberdade de imprensa, quem se manifestar contra corre o risco de ser preso. Cuba permanece uma ilha pobre – e está na capa da revista dominical do New York Times, que perfila o resultado do meio século de regime.

Algumas das conquistas da ditadura impressionam.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a esperança de vida em Cuba é de 76 anos para homens e de 80 anos para mulheres. É equivalente à dos EUA. Nas ilhas vizinhas: 66 e 74 na República Dominicana, 59 e 63 no Haiti. Mortalidade infantil em Cuba segue o mesmo padrão. Segundo a ONU, 93,7% dos jovens completam o ensino secundário na ilha. Os EUA não chegam perto – é o padrão de países como a Coréia do Sul, o Japão, e algumas das democracias européias. Não há fome na ilha dos irmãos Castro.

Roger Cohen, autor da reportagem, perante os dados logo responde: Por que educá-los tão bem para depois negar-lhes acesso à Internet, a viagens e à oportunidade de aplicar o que aprenderam? Por que dar uma excelente educação e nenhuma vida? Por que não, ao menos, oferecer um modelo como o chinês ou o vietnamita, com uma economia de mercado mesmo que sob um regime de um só partido?

Cuba é um tema caro a parte das esquerdas no mundo e sempre desperta um jogo quando o assunto vem à tona – seja numa caixa de comentários, seja numa mesa de bar. ‘Você já esteve em Cuba?’, logo pergunta alguém. E de presto passa a contar sua experiência com os cubanos. Há dificuldades, logo reconhecem, mas educação, saúde, comida. Perante o argumento alguém contradiz: mas não há liberdade. Aquele que esteve em Cuba contesta: ‘mas o que é liberdade sem comida, sem educação?’ Não é raro que a discussão termine com um mal-humorado ’se é tão bom, se muda para lá’.

A discussão a respeito de Cuba ficou estereotipada. Repete-se na mesma batida de novo, de novo, de novo.

Liberdade começa pelo direito de poder fazer escolhas. Cohen tem razão: o que uma educação de excelência produz é a abertura de horizontes, o incrível número de possibilidades. Liberdade de dizer o que se pensa ou de se optar pelo caminho a seguir na vida estão na base da felicidade, daquilo que nos faz humanos. Em Cuba, os cidadão não tem este direito básico.

Um Estado tem sucesso quando oferece comida, educação, saúde e liberdade. Se é incapaz de oferecer um destes, é um Estado com problemas. Em um regime que precisa proibir seus cidadãos de sair do país é, por definição, um regime que fracassou.

É possível argumentar: o bloqueio norte-americano dificulta um bocado a vida para Cuba. É parcialmente verdade. A política dos EUA em relação a Cuba só pode ser descrita à perfeição com uma palavra em inglês: overreaction. E põe over nisso. É uma ditadurazinha que os soviéticos a um tempo gostaram de usar para provocar Washington mas que não representa real ameaça a ninguém que não aos próprios cubanos faz décadas.

No entanto, a Flórida também há décadas é um estado dividido entre republicanos e democratas e afagar os igualmente paranóicos cubanos anti-castristas de Miami sempre serviu para garantir vitórias eleitorais. Os irmãos Diaz-Balart, deputados federais que representam o anti-castrismo na Câmara norte-americana, são sobrinhos de Fidel. Cuba também tem suas elites. Mudanças demográficas na Flórida estão diminuindo o peso dos exilados-cubanos radicais e Barack Obama, mais de uma vez, prometeu em campanha mudar a política em relação a Cuba. A ver.

Também é possível argumentar que o bloqueio norte-americano mais alimentou o regime, que ganhou um inimigo a quem culpar pela dureza da vida, do que o atrapalhou.

Nos 50 anos da Revolução, o gosto que fica é um quê amargo. Foi romântica naquele princípio de anos 60, por certo, cheia de lendas e histórias bonitas de se contar. Marketing não é coisa exclusiva do capitalismo; o comunismo também tem o seu e, de marketing, de vender uma imagem que pouco tem a ver com a realidade, Fidel Castro e os seus entendem muito. Mas a passagem do tempo tem essa capacidade de deixar as coisas modorrentas.

Modorrento quer dizer o seguinte: aos cubanos não são outorgados os direitos inalienáveis de livre expressão, livre assembléia, privacidade, livre associação e as proteções de um poder Judiciário livre e independente. Em Cuba, opinião política pode levar à demissão, prisão, tortura, pressão policial, detenção domiciliar e restrições de viagens. Os cubanos não tem o direito de lutar por um salário melhor. Raramente podem mudar de emprego. Os cubanos estão presos em suas vidas sem poder mudá-las.

Fingir, como muitos fazem, que as liberdades políticas básicas são um luxo é não apenas autoritário; é também incrivelmente insensível, desrespeitoso até para com os tantos que lutam por liberdade no mundo. Há quem dê a vida por liberdade. Este é o tamanho de sua importância.

A experiência comunista não deu certo. Cuba não deu certo.

Já faz 50 anos. Depois de 50 anos, sugerir que Fulgencio Batista era pior não serve mais. Em Cuba, a vida é um eterno esperar que Fidel vá embora.

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