Israel só precisa de
alguém que tome a decisão

Israel e Palestina · 6/12/2008 - 05h33 - 26 Comentários

Por email, Fabio Storino indicou um artigo do International Herald Tribune que citava esta entrevista do premiê em exercício israelense Ehud Olmert. A entrevista já foi citada cá no Weblog. A diferença é que, antes, ela só existia em hebraico. Agora também está disponível em inglês.

É uma entrevista histórica.

Em alguns anos, meus netos vão perguntar o que o avô fez, que país ele deixou para eles. Nós temos uma janela de oportunidade, um tempo curto antes de chegarmos a uma situação muito perigosa. Precisamos dar um passo histórico em nossa relação com os palestinos e com os sírios. A decisão que temos que tomar é a decisão que passamos quarenta anos evitando encarar com os olhos abertos.

Precisamos chegar a um acordo com os palestinos, deixar dos os territórios ocupados. Talvez uma parte destes territórios continuem conosco, mas então precisamos recompensá-los com terras em outra parte. Sem isto, não haverá paz.

Isto inclui Jerusalém?

Inclui Jerusalém. Teríamos que ter um acordo especial para garantir acesso ao Monte do Templo e outros lugares históricos e sagrados. [...] Quem diz querer controlar toda Jerusalém terá que absorver 270.000 árabes dentro de Israel. Então temos que tomar uma decisão. É uma decisão difícil, uma decisão que contraria nossos instintos, nossos desejos, nossa memória coletiva e a reza que rezamos por Israel há dois mil anos.

Fui o primeiro a querer manter controle israelense sobre toda a cidade. Não estou tentando justificar retroativamente o que fiz nos últimos 35 anos. Por boa parte deste tempo, eu não estava preparado para encarar a realidade.

Se você fosse continuar seu governo, acredita que chegaria a esses acordos?

Estamos próximos de um acordo.

Com palestinos e sírios?

Com os sírios. O que precisamos é tomar uma decisão. Gostaria de saber se há alguém em Israel que acredite que a paz com a Síria é possível sem, no fim, devolver as Colinas de Golã.

Parece que os líderes de Israel sempre chegam a essa conclusão quando já não têm mais condições de tomar decisões.

Não no meu caso. Cheguei a essa conclusão quando ainda podia fazer algo. Fiz contato com os sírios em fevereiro de 2007, bem antes de a polícia começar a me investigar. Conduzi as conversas com discrição. Enviei diplomatas, tive várias pessoas trabalhando secretamente em meu nome com o objetivo de convencer os sírios de que eu queria conversar com sinceridade. Chegamos ao ponto em que precisamos nos perguntar se realmente queremos paz ou não. [...]

Você faz parecer que a culpa é toda de Israel.

Não. Carregamos as nossas culpas; eles carregam a deles. Não estou sugerindo que faremos a paz com a Síria apenas entregando as colinas. Os sírios sabem o que deverão parar de fazer para receber Golã. Devem abandonar seus contatos com o Irã como são hoje, devem largar o Hizbolá; devem parar de financiar o terrorismo, Hamas, al-Qaeda, a guerra santa no Iraque. Eles sabem. Deixamos estas questões claras para eles.

Se houvesse uma guerra regional no ano que vem ou no outro e se entrássemos em conflito direto com a Síria, não tenho dúvidas de que os venceríamos. Somos mais fortes do que eles. Israel é o país mais forte do Oriente Médio. Poderíamos enfrentar todos nossos inimigos unidos e ainda vencê-los. O que pergunto é: o que acontece após vencermos?

Para começar, pagaríamos um preço doloroso. Aí, o que diríamos a eles? ‘Vamos conversar.’ E o que os sírios diriam para nós? ‘Vamos conversar sobre as Colinas de Golã.’

Então pergunto: por que entrar em guerra com os sírios, enfrentar as perdas e a destruição de uma guerra, para no fim chegar ao ponto em que podemos chegar sem pagar esse preço?

Na ausência de paz, a probabilidade de guerra é sempre maior. Um primeiro-ministro deve se perguntar em que deve investir. Deve buscar a paz o deve fazer um país mais e mais forte para vencer guerras? O que estou dizendo nunca foi dito por um líder de Israel. Mas é hora de dizer estas coisas.

Leio relatórios de nossos generais e penso ‘mas eles não aprenderam nada?’ Uma vez, um oficial me explicou: ‘eles ainda estão vivendo a Guerra de Independência e a Campanha do Sinai’. Para eles, tudo se conta em tanques, em controlar territórios, tomar este morro, aquela montanha. Essas coisas não valem nada. [...]

Nosso objetivo deve ser, pela primeira vez, designar uma fronteira final e clara entre nós e os palestinos para que todo o mundo – os EUA, a ONU, a Europa – possam dizer ‘Estas são as fronteiras do Estado de Israel, nós a reconhecemos, e nós vamos tecer resoluções formais que envolvem todos os organismos internacionais e as firmem. E estas são as fronteiras reconhecidas do Estado da Palestina. [...]

Quero aprender com meus próprios erros. Trinta anos atrás, quando Menachem Begin voltou de Camp David, discursei contra o acordo e votei contra ele. Não estou fingindo que isso não aconteceu. Mas qual foi o movimento de mestre de Menachem Begin? Ele começou do fim. Começou dizendo ‘estou disposto a deixar o Sinai, então vamos negociar.

Olho para trás e vejo os primeiros-ministros que vieram antes de mim. Arik Sharon, Bibi Netanyahu, Ehud Barak, Yitzhak Rabin, de memória abençoada, cada um deles deu um passo na direção certa mas, em um momento determinado, quando uma decisão final foi necessária, essa decisão não foi tomada…

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