Jornal da Índia revela os bastidores
do cerco terrorista a Mumbai

Ásia Central · 2/12/2008 - 06h19 - 22 Comentários

O jornal indiano The Hindu conseguiu, com uma fonte na polícia de Mumbai, os primeiros detalhes exclusivos do depoimento de Mohammad Ajmal Amir Iman, o único dos terroristas preso:

Mohammad Ajmal Amir Iman começou sua viagem para Mumbai em 15 de setembro de 2008. Ele fazia parte de um grupo de dez homens que passaram meses treinando combate marítimo e técnicas de navegação na região da Caxemira e do Punjab administrada pelo Paquistão.

O comandante do Lashkar Zaki-ur-Rahman Lakhvi, disse Iman à polícia, apresentou ao grupo mapas detalhados do sul de Mumbai, além de filmes dos alvos selecionados. Iman e seu companheiro Abu Umar – cujo nome real, ele descobriu, era Mohammad Ismail – tinham por missão atacar a estação de trem Chhatrapati Shivaji.

Iman e os outros terroristas deviam partir para Mumbai em 27 de setembro. Por motivos que ele diz desconhecer, receberam ordens de esperar. Apenas em 22 de novembro, Lakhvi deu ordens para que seguissem. Às 4h15 do dia 23, Iman e Ismail lançaram-se ao mar com quatro outros grupos: homens que Iman conheceu por Abu Akasha e Abu Umar; ‘Bada’ Abdul Rehman e Abu Ali; ‘Chhota’ Abdul Rehman e Afadullah; Shoaib e Umar. [Bada quer dizer grande e chhota, pequeno; os apelidos são em um dos dialetos do hindi, falados no centro-norte indiano e no sul do Paquistão.]

Cada homem estava equipado com um rifle Kalashnikov, 200 balas e granadas. Eles também tinham um GPS e vários telefones celulares que, agora se sabe, foram comprados em Calcutá e Nova Delhi. Três deles tinham bolsas maiores, com explosivos ligados a timers.

Próximos à costa da Índia, os homens capturaram um barco pesqueiro. Chegando a Mumbai, remaram a última milha náutica em um bote inflável. Do Parque Budhwar, pegaram táxis em direção a seus alvos. Iman e Ismail chegaram à estação como planejado e abriram fogo contra os passageiros. Ismail foi morto por um policial, Iman foi ferido e encontra-se em um hospital da cidade. [...]

Iman disse à polícia que, durante a luta, o quartel-general do Lashkar manteve contato com o grupo, ligando para seus telefones utilizando um sistema de voz pela Internet. Os investigadores indianos chegaram a interceptar estas ligações, o que confirma a história contada por Iman. Além disto, fontes na polícia de Mumbai informam que já conseguiram reconstruir a trajetória do grupo utilizando o GPS Garmin que recuperaram.

O Lashkar-e-Taiba é o grupo terrorista treinado e financiado pela ISI, serviço secreto do Paquistão, e que atua na luta para separar a Caxemira da Índia. Falam urdu – um dialeto hindi. Zaki-ur-Rahman Lakhvi é o número dois do grupo. Já em 1999, ele mesmo prometia levar sua guerra da fronteira entre Índia e Paquistão para o interior do país.

O depoimento é importante porque confirma a história: não se trata de um processo de terrorismo internacional. É, isto sim, a antiga e sangrenta briga entre Índia e Paquistão pela posse da Caxemira.

Iman é paquistanês, foi criado no Punjab, província na fronteira com a Índia, acima da Caxemira. É um garoto pobre, expulso de casa pelo pai, quarta série primária completa que abandonado no início da adolescência descobriu abrigo com o Lashkar. Aí, umas boas doses de nacionalismo do tipo ‘a Caxemira é nossa’ misturado com radicalismo islâmico completaram o serviço. Completou 21 anos em julho último.

O que não está claro, ainda, é qual era o objetivo político do Lashkar. Amedrontar a população pode fazer sentido tático – mas, neste caso, deveriam assinar com o próprio nome, não com um ‘Deccan Mujahedin’. Os seqüestradores chegaram a pedir a libertação de prisioneiros – o que faria sentido. Mas jamais foram insistentes nisto. Pareciam dispostos ao suicídio. Talvez queiram mobilizar a população islâmica na Índia. Mas os muçulmanos da Índia não parecem querer morar no Paquistão.

Os comentaristas indianos concordam que eles procuraram atacar a Índia em seus pontos de orgulho: aqueles lugares, em Mumbai, onde a Índia é mais moderna e cosmopolita. Pelo menos 172 pessoas foram mortas. É verdade que, nos dois hotéis e no centro judaico, os terroristas buscaram estrangeiros em particular. Mas é importante lembrar que 141 dos mortos eram indianos. A Índia e indianos foram as principais vítimas, e o maior alvo. Mais que internacionalizar o ataque, o objetivo pareceu ser assustar homens de negócio. Grandes empresas continuarão na Índia. Pequenos empresários que cogitam estabelecer algum tipo de filial ali, no entanto, podem repensar seus planos. Nisto, pode ter sido um ataque eficiente.

Um ataque à Índia que pode ter conseqüências eleitorais sérias.

Eleições nacionais, na Índia, acontecerão em maio de 2009. O premiê Manmohan Singh é candidato a reeleição, mas Lal Krishna Advani, do BJP, tem fortes chances de compor maioria. Envolvido em escândalos de corrupção, suspeito de ter participado de um plano para assassinar o primeiro presidente paquistanês, foi o principal incentivador de um grupo hindu que, desobedecendo ordens da Suprema Corte, pôs abaixo a mesquita de Babri, em 1992. (Imagine 150.000 mil pessoas avançando contra um prédio; foi assim.)

Advani é um hindu da direita radical, anti-islâmico e anti-paquistanês até o último fio de cabelo.

É irônico. Um dos primeiros homens mortos pelos terroristas muçulmanos, na quarta-feira, foi o líder do Esquadrão Anti-Terrorista de Mumbai, Hermant Karkare. Advani o considerava um inimigo pessoal por conta de suas investigações a respeito do Terrorismo Hindu.

É fácil, hoje, ver a população muçulmana da Índia e classificá-la como pária, pobre, iletrada, propensa à violência. Até meados do século 19, no entanto, todo indiano islâmico era no mínimo alfabetizado e seu conjunto compunha uma vasta classe média. Até o início da década de 90, quando a violência do movimento nacionalista hindu eclodiu, muçulmanos e hindus moravam nas mesmas vizinhanças sem grandes conflitos. Também é difícil imaginar a população muçulmana da Índia cedendo ao apelo do Lashkar. Seus pais e avós tiveram a opção de se mudar para o Paquistão, um país muçulmano, no final dos anos 1940. Não quiseram. Sentem-se – e são – indianos.

Bom, também, é resistir à tentação de classificar todos os hindus como radicais à moda de Advani. Afinal, compõem 70% da população mas, como lembra o jornalista canadense Doug Saunders, seu premiê é Sikh, o presidente é muçulmano e a líder do partido do governo é católica. Elegeram um governo incrivelmente diverso.

Os radicais de ambos os lados estão lutando para criar uma armadilha que leve a Índia ao radicalismo. Mas aquele ainda é o país em que, no início de novembro – agora, agora – um grupo dos principais clérigos muçulmanos se juntou para declarar uma fatwa contra o terrorismo.

‘O Islã’, registrou o documento assinado por 6.000 líderes de mesquitas do país, ‘rejeita toda violência injusta, quebra de paz, derramamento de sangue, assassinato e saque e não permite nenhum destes atos. Cooperação entre homens deve servir à causa do bem comum e nunca à do pecado e opressão.’

Vários dos artigos citados no post são dica de Dionne Bunsha.

AtualizaçãoNo Estadão: Um cemitério islâmico se recusou a receber e sepultar os corpos de nove terroristas que fizeram parte do ataque a Mumbai na semana passada, que deixou mais de 170 pessoas mortas. De acordo com a influente associação islâmica Jama Masjid, que administra o cemitério de Badakabrastan, em Mumbai, os nove homens não são seguidores da verdadeira fé islâmica. “As pessoas que cometeram esse crime horrendo não podem ser chamadas de muçulmanas”, disse Hanif Nalkhande, um dos administradoras da associação. “O Islã não permite esse tipo de crime bárbaro”. dica do faraó

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