Jornal da Índia revela os bastidores
do cerco terrorista a Mumbai
O jornal indiano The Hindu conseguiu, com uma fonte na polícia de Mumbai, os primeiros detalhes exclusivos do depoimento de Mohammad Ajmal Amir Iman, o único dos terroristas preso:
Mohammad Ajmal Amir Iman começou sua viagem para Mumbai em 15 de setembro de 2008. Ele fazia parte de um grupo de dez homens que passaram meses treinando combate marítimo e técnicas de navegação na região da Caxemira e do Punjab administrada pelo Paquistão.
O comandante do Lashkar Zaki-ur-Rahman Lakhvi, disse Iman à polícia, apresentou ao grupo mapas detalhados do sul de Mumbai, além de filmes dos alvos selecionados. Iman e seu companheiro Abu Umar – cujo nome real, ele descobriu, era Mohammad Ismail – tinham por missão atacar a estação de trem Chhatrapati Shivaji.
Iman e os outros terroristas deviam partir para Mumbai em 27 de setembro. Por motivos que ele diz desconhecer, receberam ordens de esperar. Apenas em 22 de novembro, Lakhvi deu ordens para que seguissem. Às 4h15 do dia 23, Iman e Ismail lançaram-se ao mar com quatro outros grupos: homens que Iman conheceu por Abu Akasha e Abu Umar; ‘Bada’ Abdul Rehman e Abu Ali; ‘Chhota’ Abdul Rehman e Afadullah; Shoaib e Umar. [Bada quer dizer grande e chhota, pequeno; os apelidos são em um dos dialetos do hindi, falados no centro-norte indiano e no sul do Paquistão.]
Cada homem estava equipado com um rifle Kalashnikov, 200 balas e granadas. Eles também tinham um GPS e vários telefones celulares que, agora se sabe, foram comprados em Calcutá e Nova Delhi. Três deles tinham bolsas maiores, com explosivos ligados a timers.
Próximos à costa da Índia, os homens capturaram um barco pesqueiro. Chegando a Mumbai, remaram a última milha náutica em um bote inflável. Do Parque Budhwar, pegaram táxis em direção a seus alvos. Iman e Ismail chegaram à estação como planejado e abriram fogo contra os passageiros. Ismail foi morto por um policial, Iman foi ferido e encontra-se em um hospital da cidade. [...]
Iman disse à polícia que, durante a luta, o quartel-general do Lashkar manteve contato com o grupo, ligando para seus telefones utilizando um sistema de voz pela Internet. Os investigadores indianos chegaram a interceptar estas ligações, o que confirma a história contada por Iman. Além disto, fontes na polícia de Mumbai informam que já conseguiram reconstruir a trajetória do grupo utilizando o GPS Garmin que recuperaram.
O Lashkar-e-Taiba é o grupo terrorista treinado e financiado pela ISI, serviço secreto do Paquistão, e que atua na luta para separar a Caxemira da Índia. Falam urdu – um dialeto hindi. Zaki-ur-Rahman Lakhvi é o número dois do grupo. Já em 1999, ele mesmo prometia levar sua guerra da fronteira entre Índia e Paquistão para o interior do país.
O depoimento é importante porque confirma a história: não se trata de um processo de terrorismo internacional. É, isto sim, a antiga e sangrenta briga entre Índia e Paquistão pela posse da Caxemira.
Iman é paquistanês, foi criado no Punjab, província na fronteira com a Índia, acima da Caxemira. É um garoto pobre, expulso de casa pelo pai, quarta série primária completa que abandonado no início da adolescência descobriu abrigo com o Lashkar. Aí, umas boas doses de nacionalismo do tipo ‘a Caxemira é nossa’ misturado com radicalismo islâmico completaram o serviço. Completou 21 anos em julho último.
O que não está claro, ainda, é qual era o objetivo político do Lashkar. Amedrontar a população pode fazer sentido tático – mas, neste caso, deveriam assinar com o próprio nome, não com um ‘Deccan Mujahedin’. Os seqüestradores chegaram a pedir a libertação de prisioneiros – o que faria sentido. Mas jamais foram insistentes nisto. Pareciam dispostos ao suicídio. Talvez queiram mobilizar a população islâmica na Índia. Mas os muçulmanos da Índia não parecem querer morar no Paquistão.
Os comentaristas indianos concordam que eles procuraram atacar a Índia em seus pontos de orgulho: aqueles lugares, em Mumbai, onde a Índia é mais moderna e cosmopolita. Pelo menos 172 pessoas foram mortas. É verdade que, nos dois hotéis e no centro judaico, os terroristas buscaram estrangeiros em particular. Mas é importante lembrar que 141 dos mortos eram indianos. A Índia e indianos foram as principais vítimas, e o maior alvo. Mais que internacionalizar o ataque, o objetivo pareceu ser assustar homens de negócio. Grandes empresas continuarão na Índia. Pequenos empresários que cogitam estabelecer algum tipo de filial ali, no entanto, podem repensar seus planos. Nisto, pode ter sido um ataque eficiente.
Um ataque à Índia que pode ter conseqüências eleitorais sérias.
Eleições nacionais, na Índia, acontecerão em maio de 2009. O premiê Manmohan Singh é candidato a reeleição, mas Lal Krishna Advani, do BJP, tem fortes chances de compor maioria. Envolvido em escândalos de corrupção, suspeito de ter participado de um plano para assassinar o primeiro presidente paquistanês, foi o principal incentivador de um grupo hindu que, desobedecendo ordens da Suprema Corte, pôs abaixo a mesquita de Babri, em 1992. (Imagine 150.000 mil pessoas avançando contra um prédio; foi assim.)
Advani é um hindu da direita radical, anti-islâmico e anti-paquistanês até o último fio de cabelo.
É irônico. Um dos primeiros homens mortos pelos terroristas muçulmanos, na quarta-feira, foi o líder do Esquadrão Anti-Terrorista de Mumbai, Hermant Karkare. Advani o considerava um inimigo pessoal por conta de suas investigações a respeito do Terrorismo Hindu.
É fácil, hoje, ver a população muçulmana da Índia e classificá-la como pária, pobre, iletrada, propensa à violência. Até meados do século 19, no entanto, todo indiano islâmico era no mínimo alfabetizado e seu conjunto compunha uma vasta classe média. Até o início da década de 90, quando a violência do movimento nacionalista hindu eclodiu, muçulmanos e hindus moravam nas mesmas vizinhanças sem grandes conflitos. Também é difícil imaginar a população muçulmana da Índia cedendo ao apelo do Lashkar. Seus pais e avós tiveram a opção de se mudar para o Paquistão, um país muçulmano, no final dos anos 1940. Não quiseram. Sentem-se – e são – indianos.
Bom, também, é resistir à tentação de classificar todos os hindus como radicais à moda de Advani. Afinal, compõem 70% da população mas, como lembra o jornalista canadense Doug Saunders, seu premiê é Sikh, o presidente é muçulmano e a líder do partido do governo é católica. Elegeram um governo incrivelmente diverso.
Os radicais de ambos os lados estão lutando para criar uma armadilha que leve a Índia ao radicalismo. Mas aquele ainda é o país em que, no início de novembro – agora, agora – um grupo dos principais clérigos muçulmanos se juntou para declarar uma fatwa contra o terrorismo.
‘O Islã’, registrou o documento assinado por 6.000 líderes de mesquitas do país, ‘rejeita toda violência injusta, quebra de paz, derramamento de sangue, assassinato e saque e não permite nenhum destes atos. Cooperação entre homens deve servir à causa do bem comum e nunca à do pecado e opressão.’
Vários dos artigos citados no post são dica de Dionne Bunsha.
Atualização – No Estadão: Um cemitério islâmico se recusou a receber e sepultar os corpos de nove terroristas que fizeram parte do ataque a Mumbai na semana passada, que deixou mais de 170 pessoas mortas. De acordo com a influente associação islâmica Jama Masjid, que administra o cemitério de Badakabrastan, em Mumbai, os nove homens não são seguidores da verdadeira fé islâmica. “As pessoas que cometeram esse crime horrendo não podem ser chamadas de muçulmanas”, disse Hanif Nalkhande, um dos administradoras da associação. “O Islã não permite esse tipo de crime bárbaro”. dica do faraó
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Sobre o último parágrafo, ontem saiu um link no Estadão que mostra algo que eu ainda não tinha visto.
http://www.estadao.com.br/internacional/not_int286652,0.htm
A atitude dos muçulmanos indianos servem para mostrar que o islã não é uma religião violenta, como não é o budismo, cristianismo nem o hinduísmo. Mas em todas essas religiões há radicais e grupos terroristas.
Acho que o mundo vai acabar aderindo a uma guerra contra o terror, mas não aquela que planejou o Bushinho. Uma guerra pelos corações da humanidade.
Pelo menos agora a reaçada encontrou um motivo para dar vazão aos seus instintos mais primitivos.
Já tão até querendo fazer campo de concentração pra muçulmano…
O tópico é muito interessante e vem repetir o que estudiosos responsáveis do assunto dizem há muito tempo: a maior parte do terrorismo rotulado irresponsavelmente como “islâmico” é terrorismo político e tem razões tão diversas quanto os diferentes locais onde acontece. Se existe um terrorismo islâmico, ele é uma reação à política assassina de Bush et caterva, portanto foi gerado em Washington, como, por exemplo, a Al Qaeda e Bin Laden. E agora, como os EUA vão lidar com a nova situação Índia/Paquistão, depois que tiveram de encher a bola do último para tentar “resolver” a bagunça que os próprios EUA criaram no Afeganistão?
Enquanto isso, Bushinho faz uma “auto-crítica” pelo “erro” da inteligência que apontou armas de destruição em massa no Iraque e ele, coitadinho, acreditou. Seria profundamente hilariante, não fossem as centenas de milhares de iraquianos mortos. Mas Bushinho se arrependeu, é o que importa, mais uma vez triunfa a “democracia americana” (já que a economia vai de mal a pior). Nada mudará com Obama, esperem e verão.
João Daltro, o terrorismo islamico é uma reação ao Bush? Mas que disparate. Não sabia que Bush era um Matusalém……
well….me parece que os terroristas islâmicos do Paquistão estão tentando abrir uma franquia terrorista na Índia, e esse ataque deve ter sido o “vestibular”.
A partir de agora, gozarão de “reconhecimento e solidariedade’” de outros movimentos terroristas islâmicos (ou anti-ocidentais) no mundo. Conseguiram entrar no clube.
aparentemente. a maior conquista, ou talvez o próprio objetivo, do atentado foi botar fogo nas relações India/Paquistão.
e o que o Paquistão menos precisa neste momento é ser encurralado num canto.
eles podem desmobilizar todas as tropas ao norte (na fronteira com o Afeganistão) e trazê-las ao sul pra se bicarem com os indianos, inclusive os talibans e as milícias pashtuns já ofereceram uma trégua e mais: aliar-se ao exército paquistanês no combate ao inimigo comum
uhm… não tem uma certa linha de suprimentos da Otan que passa pelo norte do Paquistão?
a origem do terrorista capturado não é clara e só aumenta o mistério:
http://www.mcclatchydc.com/227/story/56808.html
A questão é localizada. São os malucos do LeT. A diferença é que dessa vez chamou atenção do mundo inteiro. Fora essa vez, teve um monte de ataques (ainda à época que “oficialmente” eram ligados ao ISI), mas como eram incidentes locais, não passaram nota de rodapé.
Colocar o Bush nessa história é simplismo rasteiro. O conflito já acontece há décadas, antes do Bush.
O problema é o Paquistão. Sempre apresenta duas caras. Senão, como um evento desse, tão bem planejado, consegue passar despercebido no próprio território? Pode - e eventualmente deve - ser descontrole sobre seu próprio território, o que não é muito alentador.
A atitude dos muçulmanos de Mumbai tem um quê de simbólico, pois arrefece um pouco o sentimento negativo contra eles (o que é muito significativo, uma vez o sentimento negativo leva a turbas/hordas ensandecidas), evitando confrontos maiores.
Agora a história que era pobre, coitadinho etc.
não cola. Pois essa é a história mais comum por aquelas bandas e nem por isso as pessoas são terroristas.
Apenas corrigindo, o urdu é uma língua e não um dialeto do hindi. O Punjab é uma região fronteiriça entre Índia e Paquistão, semelhante à Kashemira e tem o lado indiano do Punjab e o lado paquistanês do Punjab (algo vagamente semelhante ocorre em relacão aos pampas no Brasil e Argentina). Em tempo, Punjab é a terra dos sikhs na Índia. Veja quantos sikhs há no Paquistão e aí vocês começarão a entender o que foi a cisão entre Índia e Paquistão.
Sobre a demolição da mesquita de Babri, a história é que os hindus afirmavam que havia um templo importante de Rama (um dos avatares de Vishnu, da trivindade do hinduísmo) e que a mesquita fora construida por cima dela. Apesar da demolição, não houve mortes nesse conflito em particular. O que se seguiu foi um reacendimento do conflito hindu-muçulmano por toda a Índia, com mortes e origem da violência pelos dois lados, sendo o ápice terrorismo por bombas em Mumbai em 1993. De lá para cá, esse tipo de conflito acontece pontualmente.
Paralelamente a isso, há o conflito da Kashemira, em que há atentados à população local.
Talvez a idéia desse conflito fosse uma fusão de ambos conflitos. Quem sabe o que se passa na cabeça de um terrorista?
Suponho que para isso não render um novo round das guerras indo-paquistanesas no mínimo o Paquistão vai ter de oferecer uma série de cabeças dos responsáveis.
Mesmo assim não me surpreenderia se o quebra-pau entre os dois países, que rola desde o fim do domínio britânico, recomeçar.
O conflito Índia-Paquistão recede à época da Independência. Antes da cisão pelos britânicos (contra a vontade do Gandhi e articulada por Jinnah) só existia a Índia com seus reinados (origem dos maharajas - marajás) e subordinado incondicionalmente à coroa britânica. Segue um link com um mapa britânico do final do século 19 mostrando isso.
http://www.britishempire.co.uk/maproom/india/indiamap1893.htm
Já o conflito hindu-muçulmano recede ao século 14 ou 15, pela invasão do território indiano pelos Mughals - imperadores muçulmanos. Essa época marca o maciço aumento da população muçulmana e o início dos conflitos.
É engraçado que muçulmanos e indianos lutaram lado a lado pela independência.
“o conflito acontece há décadas, antes do Bush…”
…se bem me lembro foi outro cowboy, reagan, que injetou milhões no Paquistão pra apoiar os freedom fighters, hoje terroristas, no Afeganistão… dando aquela corrompida gostosa no ISI
o Obama prometeu mudar o foco da War on Terror™ pro Afeganistão…
com o Paquistão derretendo, a India ensandecida*, e um Império sem nenhuma noção, vamos bem
*o parlamento hindu tinha bloqueado o patriotic act local, mas parece que agora vai: POTA (Prevention of Terrorism Act)
AFGHANISTAN = GRAVEYARD OF EMPIRES
vai que é sua, Obama!
George Friedman: motivações estratégicas para o ataque de Mumbai (em ingles)
http://www.stratfor.com/weekly/20081201_strategic_motivations_mumbai_attack
“Ao realizar um ataque que o governo indiano não pode ignorar, os perpetradores puseram em marcha uma crise existencial ao Paquistão. A realidade do Paquistão não pode ser transformada, preso como está entre Estados Unidos e India. Qualquer evolução adiante beneficiará os Islamistas. Estrategicamente, o ataque de Mumbai foi um tiro preciso ao conseguir um desenlace incerto porém politicamente favorável aos Islamistas.”
A Índia e o Paquistão se meteram em guerras na década de 70 por conta disso. Portanto, até antes do Bush ou do Reagan. Não vou negar que o financiamento americano ao Paquistão não resvala na Índia, mas a ligação não é direta ou intencional. Difícil confirmar esta última parte, uma vez que a postura da Índia foi de não-alinhamento e contar com armamento de origem Russa.
Então ficamos assim: a culpa é de Bush.
E os “jovens ” eram católicos apostólicos romanos, devotos de São Francisco de Assis e foram treinados em uma das sete colinas de Roma.
Pedro Dória vai dormir bem, alguns comentarista idem.
Nossa preocupação agora deverá ser centrada nesse ” jovem “, que por azar, caiu prisioneiro da polícia hindu. Ele precisa, além de muito carinho e cuidados psicanaliticos, um bom advogado que consiga rapidamente um habeas corpus.
Caso encerrado.
Se foram os malucos do LeT, e nao se trata de um processo de terrorismo internacional, entao qual a razao de atacarem o Chabad ?
Como disse, vai entender cabeça de terrorista. Talvez para ser simbólico (para dizer que o oposto de muçulmano é o judeu?)? Foi de uma estupidez sem precedentes.
Para dar um ar de conflito religioso uma outra questão, de fundo político.
Apenas uma dúvida, o PD fala no texto que o urdu é um dialeto do hindi. Eu sempre achei que o urdu surgira da fusão do persa, punjabi, hindi e era usada como uma espécie de língua franca militar do subcontinente indiano. Eu também achava que uma das principais razões do Paquistão adotar o urdu como língua oficial era justamente para se diferenciar da Índia.
Excelente post PD, esclareceu bastante sobre o cerco. Bom tambem para mostrar aos Mr X’s e chesters da vida que o terrorismo tem em sua essência motivo político, e que o extremismo religioso serve mais como um artifício para recrutar jovens sem nenhuma estrutura como o que foi preso pela policia de mumbai. Os líderes msm do movimento nao tao nem ai pra jihad ou qlqer coisa do tipo.
Muito bons tambem os comentarios do SK, os diversos países em que moram os leitores desse blog contribuem bastante para a riqueza dos comentarios que lemos aqui, principalmente em questoes como essa de ambito internacional.
[...] Leia mais direto na fonte: pedrodoria.com.br [...]
Pedro,
A sua página continua “dez”, parabéns!
O artigo é bem interessante e vem para desmistificar essa história de “terrorismo islãmico”. Índia e Paquistão sempre tiveram conflitos, como o da Cachemira.
Muito oportuna, também, a notícia sobre a “fatwa” dos clérigos muçulmanos da Índia, contra o terror, e a notícia que saiu no estadão sobre o cemitério islãmico que não aceitou os corpos de nove terroristas.
OBS: Quando a imprensa mundial (e, principalmente a brasileira) usa o termo “terrorismo islâmico”, passa a idéia (errada) de conspiração mundial, como se existisse uma conexão político-ideológica entre todos esses atentados.
[...] fase de correções – hoje é um dia ‘erramos’ no Weblog – classifiquei o urdu, num post recente, como um dialeto do [...]