Cerco a Mumbai: Como medir a vitória do Terror

Islã · Terror · Ásia Central · 28/11/2008 - 01h07 - 68 Comentários

Li os comentários com atenção. Alguns questionam a existência de um terrorismo hindu. Talvez por cinismo, talvez por apenas buscar a informação que confirma seus próprios preconceitos e nenhuma outra, repetem uma discussão que se dá na Índia. O ódio religioso é intenso, no norte do país. Terrorismo hindu é uma expressão cunhada pela imprensa de língua inglesa de Mumbai e agressivamente criticada pela elite política hindu. Dizem que não existe. A página a respeito do terrorismo hindu foi apagada quatro vezes da Wikipedia. Não custa lembrar que não há maniqueísmo, aqui: a imprensa de língua inglesa da Índia é composta, em geral, por jornalistas hindus.

Mas vale a pena ler, nos comentários do post abaixo, aqueles escritos pelo leitor SK. Ele entende do que fala, é de origem indiana e discorda da leitura que faço aqui em alguns pontos.

A violência contra a comunidade muçulmana na Índia não é pequena e vem de décadas. Em 2002, no estado Gujarat, 790 muçulmanos foram mortos, assim como 254 hindus, em confrontos após o incêndio do trem Godhra. O governo afirma que o trem foi atacado por muçulmanos, a afirmação é contestada. Difícil afirmar o que houve. Mas o resultado daqueles confrontos ainda está evidente, nos campos de refugiados a céu aberto do estado. Os muçulmanos expulsos de suas casas então até hoje vivem em tendas. Conheço o assunto bem graças a uma companheira de Knight Fellowship em Stanford, a jornalista Dionne Bunsha, ela própria hindu de Mumbai, repórter premiada, com mestrado pela London School of Economics e, à época, a serviço da principal revista semanal indiana, Frontline. Dionne é autora do livro Scarred, que denuncia os constantes maus-tratos e a insegurança continuada imposta aos indianos muçulmanos no estado.

Não custa lembrar: até a quarta-feira, o Esquadrão Anti-Terrorismo da polícia de Mumbai havia tido mais trabalho investigando ataques contra muçulmanos do que impetrados por eles. Do último ataque, em setembro, prenderam entre outros uma sacerdotisa hindu e acusaram o exército local de ter fornecido treinamento para os atacantes.

Reitero que os partidos nacionais indianos são fracos e que evitam enfrentar a política hindu local, que acoberta a violência. Dionne não é minha única fonte, aqui. A mesma descrição é feita por Fareed Zakaria em seu livro mais recente, O Mundo Pós-Americano. Zakaria, indiano, PhD por Harvard, foi diretor de redação da mais conceituada revista de relações internacionais – a Foreign Affairs – antes de assumir a editoria de internacional da Newsweek e um programa semanal na CNN. O livro já tem edição brasileira – e é excelente.

Mas é evidente que o cerco a Mumbai, imposto por terroristas muçulmanos, internacionalizou o conflito. Repetindo o que já estava no post abaixo, adotaram táticas da al-Qaeda, buscando conquistar atenção da imprensa estrangeira e querendo vincular a briga interna, na Índia, com o conflito internacional que se dá no Oriente Médio. Não é claro, ainda, se os terroristas têm relação com o conflito na Caxemira, ou se o enfoque é apenas nacional.

No momento em que escrevo este post, a polícia indiana entrou nos dois hotéis e preparava uma ofensiva contra a sinagoga. Já são 119 mortos em dois dias de cerco.

A questão, agora, é tratar das conseqüências do ataque. Os terroristas tinham objetivos políticos – eles sempre têm. Diferentemente do que ocorre em vários países do Oriente Médio ou mesmo no Paquistão vizinho, os muçulmanos da Índia não se radicalizaram. Com exceção da Caxemira, que vive um ambiente próximo ao de uma guerra civil constante, não existem gritos por jihad ou fatwas soltas a torto e a direito pedindo a morte de inimigos. Um dos objetivos dos terroristas de hoje é certamente acirrar o conflito entre muçulmanos e hindus e, se possível, envolvê-los na jihad global abrindo mais uma frente de batalha.

Não custa lembrar que a jihad global recruta menos e menos jovens no árabe.

Há outro objetivo que pode estar entre as intenções dos Deccan Mujahedin: recentemente, a Índia se aproximou ainda mais dos EUA, com a assinatura de um acordo nuclear. Parte do processo de sedução do país vem da tentativa de pôr panos quentes nas relações da Índia com o Paquistão. Para que seja possível controlar o Talibã, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, é preciso antes de um governo paquistanês estável. Para tal governo existir, idealmente as relações entre Paquistão e Índia devem estar nos melhores termos possíveis. E vinham melhorando a olhos vistos. Quando o premiê indiano Manmohan Singh aludiu a pressões vindas do exterior, hoje, ele falava do Paquistão e dois passos foram dados para trás. Sem controlar o Talibã, ninguém controla a al-Qaeda, Osama bin-Laden continua solto e as possibilidades do terrorismo egípcio-saudita permanecem abertas. O mundo é um só e todos estamos conectados uns aos outros.

Assim se medirá o sucesso dos terroristas: se os muçulmanos da Índia se radicalizarem e as relações entre Índia e Paquistão desandarem de forma séria.

É só quando o cerco terminar e ficar claro quem são os Deccan Mujahedin que começaremos a ter melhores informações sobre quais interesses realmente representam. Dá para sentir no hálito de alguns dos companheiros leitores, aí no post abaixo, a sede de mais sangue em troca do sangue derramado nos últimos dias, em Mumbai. O anti-islamismo radical e os terroristas islâmicos, ironicamente, têm o mesmo objetivo.

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