Cerco a Mumbai: Conflito interno da Índia?

Islã · Terror · Ásia Central · 27/11/2008 - 15h59 - 32 Comentários

Uma atualização, posto que a informação vinda de Mumbai ainda é pouca. Ainda há reféns tanto no Taj Mahal Palace & Tower quanto no Hotel Oberoi. Também há reféns na sinagoga do grupo Chabad Lubavitch, a principal comunidade de judeus ortodoxos da cidade. É noite na Índia, os ataques já duram mais de vinte e quatro horas, e reféns vem sendo soltos paulatinamente. Parece tratar-se de tática: há muita gente nos hotéis. Manter um grupo pequeno mas importante de reféns pode ser a melhor maneira de gerenciar a situação por até dias.

Os terroristas do Deccan Mujahedin ainda não foram identificados. Um grupo com este nome, informa a revista britânica The Economist, já havia se manifestado uma vez anteriormente. Em setembro, assinaram um email às agências de notícias indianas informando que ‘nós estamos mantendo o olho em vocês e apenas esperamos o momento certo para o banho de sangue’, escreveram. ‘Alertem a todos de Mumbai que qualquer ataque sangrento que sofram no futuro terá sido responsabilidade da polícia de Mumbai e de seus líderes.’

Os atacantes, segundo testemunhas, falam hindi e têm uma tez mais clara, indicando serem ou indianos do norte ou paquistaneses do sul. Alguns especulam ligações com o grupo terrorista Lashkar-e-Toiba, que opera na região indiana da Caxemira. A Caxemira, na qual a maior parte da população é muçulmana, é disputada por Paquistão e Índia. Segundo o governo da Índia, o Lashkar-e-Toiba é financiado e treinado pelo ISI, serviço secreto paquistanês. Em seu discurso à nação, o premiê indiano Manmohan Singh declarou que os ataques têm influência estrangeira.

Não é necessariamente verdade mas é certamente possível. O que parece bastante seguro afirmar é que não se trata de um ataque da al-Qaeda. É um ataque extremamente bem organizado, mas de baixa tecnologia. São guerrilheiros com armas de guerrilheiros. Terrorismo hindu (ou terrorismo de açafrão, como é apelidado no país) e terrorismo islâmico fazem parte da história corrente do país. A diferença, e aí entra inspiração da al-Qaeda, é que desta vez escolheram vítimas diferentes: principalmente norte-americanos, britânicos e a comunidade judaica local. Parece ser uma busca por ligar os ataques ao terrorismo internacional e chamar a atenção do mundo inteiro para o conflito interno de seu país.

Neste quesito, certamente tiveram sucesso.

A carta dos Deccan Mujahedin liga o ataque em progresso à cidade de Mumbai e à sua região. Portanto, pode haver um elo aí com os diversos ataques que a comunidade muçulmana vem sofrendo nos últimos anos impetrados pelo terrorismo de açafrão. Na Índia, o poder político é mais estadual do que nacional. Não há grandes partidos nacionais. Nova Delhi é acusada de complacência com o terrorismo hindu porque ele é visto com simpatia pela população de algumas regiões ao norte e isto poderia comprometer seu sucesso eleitoral ou a produção de coalizões que sustentem o gabinete do primeiro-ministro. De qualquer primeiro-ministro.

Mas uma ligação com o conflito na Caxemira e, portanto, indiretamente, com o governo paquistanês não pode ser ignorada. Não custa lembrar que a ISI – que auxiliou o Talibã no Afeganistão e certamente incentiva os levantes muçulmanos na Caxemira – não é totalmente controlada pelo presidente paquistanês. Funciona, muitas vezes, por conta própria.

O mundo todo está de olho em Mumbai, hoje – e este é o primeiro sucesso deste ataque terrorista. Mas o conflito que ele representa é interno, talvez no máximo da Ásia Central.

Ainda sobre o assunto:

  1. Cerco a Mumbai: Direto da Índia O leitor Ricardo, que mora na Índia, está respondendo várias dúvidas na caixa de comentários abaixo. ...
  2. Jornal da Índia revela os bastidores
    do cerco terrorista a Mumbai
    O jornal indiano The Hindu conseguiu, com uma fonte na polícia de Mumbai, os primeiros detalhes exclusivos do depoimento de...
  3. Índia: Mumbai cercada O grupo que assumiu o ataque terrorista generalizado a Mumbai, Índia, atende pelo nome Deccan Mujahedin. Ninguém os conhece. Deccan...
  4. Cerco a Mumbai: Como medir a vitória do Terror Li os comentários com atenção. Alguns questionam a existência de um terrorismo hindu. Talvez por cinismo, talvez por apenas buscar...
  5. Conflito étnico entre Hans e Uighurs? É a crise econômica à chinesa Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas sem esperar pelo encontro do G8, enquanto a crise na...