Joschka Fischer e sua União Européia ideal
entre EUA, Rússia, G20 e o mundo que muda

Alemanha · Europa · 18/11/2008 - 09h44 - 18 Comentários

O El País de hoje publica uma entrevista com o ex-chanceler alemão Joschka Fischer, um dos mais influentes políticos europeus. Fischer é um dos proponentes da idéia de que a União Européia deve ser fortalecida para que a Europa continue a ter influência, no futuro.

Como vê a UE em meio à tormenta financeira? E a Comissão Européia?

Precisamos fazer referência ao euro. Não entendo porque os líderes europeus não são mais agressivos em sublinhar para a opinião pública a importância do euro e do Banco Central. Onde estaríamos agora sem eles? Este é o maior bem que temos e esta é a hora de convencer os europeus do que é a UE: nossa força, nossa proteção, nosso interesse, nossa voz comum no mundo de amanhã. O que vimos no sábado em Washington foi histórico. O G8 é o passado. O G20 é o futuro. Nosso futuro é a Europa, mas a Europa vai mal. Perdemos a constituição. O Tratado de Lisboa está no limbo. Os EUA elegeram o futuro, sabem se reinventar perante suas piores crises. A Europa está no caminho contrário.

O Tratado de Lisboa tinha por objetivo aumentar a relevância política da União Européia. O Parlamento teria mais poderes, entre outras questões, ampliando a importância da União em detrimento das nações individuais. O Tratado entraria em vigor no primeiro de janeiro próximo após, este ano, ser ratificado pelos eleitores em todo o continente. República Checa e Suécia ainda devem votar por sua aceitação. Em junho, os irlandeses o rejeitaram, bloqueando todo o processo.

Cada vez mais pensamos em todo o processo como nações. E a Comissão Européia é fraca. Seu presidente é ainda mais fraco. E sua fraqueza será premiada com outro mandato. É preocupante porque o mundo está mudando muito rápido. É este o momento de decidir. A Europa, dividida e fraca, corre o risco de terminar sendo um lugar agradável para viver e visitar, mas sem qualquer influência no mundo de amanhã.

A Europa também aparece dividida perante a Rússia, principalmente após a crise na Geórgia. Por um lado, os defensores de uma atitude mais dura, por outro os que propõem uma saída pelo diálogo.

Sempre teremos interesses distintos. Internamente, os EUA também têm impulsos diferentes. Mas, no fim do processo, falam com uma só voz. Alemanha, Itália, França e Reino Unido têm interesses importantes na Rússia. É claro que não podemos aceitar que a Rússia volte à dinâmica imperialista que um dia teve. Mas o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili deu a Putin uma oportunidade de ouro. Antes, Sarkozy e Merkel fizeram bem em bloquear a adesão da Geórgia à OTAN. Não estava madura. Para o futuro, a melhor resposta ao desafio russo é a formação de um mercado de gás europeu plenamente integrado. E o desenvolvimento de um fórum de política energética. Juntos, temos interesses comuns. Só desta forma podemos impedir que a Rússia jogue uma partida de divide et impera.

Independência do Kosovo. Ampliação da OTAN. Escudo antimísseis. Você crê…

[Interrompe.] O Kosovo é idferente. Conheço a posição espanhola. Mas o Kosovo é outro assunto, não o misturaria com o escudo etc.

Fischer está falando a um jornal espanhol – por isso sua informação. A Espanha viu e vê com maus olhos qualquer movimento separatista por conta de suas questões com os bascos.

Mas todos esses itens são percebidos como provocações pela Rússia.

Não. Não. O Kosovo não foi uma provocação. O Kosovo foi o resultado das ações de Milosevic.

E o escudo? E a ampliação?

Essas são políticas dos EUA. O Kosovo é fruto de um amplo debate internacional que deu uma resposta realista a um problema. A Rússia interpretou a independência como uma provocação de uma forma míope, burra. E sejamos claros: o escudo antimísseis também é uma política míope.

Fischer é um homem ouvido e respeitado – mas não tem mais poder. Atualmente, presta serviços à empresa de consultoria da ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Allbright. Persiste sendo um dos políticos mais populares da Alemanha. É a melhor voz para se ouvir o que pensam os melhores dentre os defensores do Projeto Europeu. Ele imagina uma UE que não tem qualquer animosidade em relação aos EUA mas que age de forma independente, de acordo com seus interesses. Tem uma visão aguda de como funciona a geopolítica.

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