G20 ou Como uma reunião de burocratas
pode até mesmo mudar o mundo
É bom prestar atenção nesta sigla: G20. Grupo dos 20. Ainda ouviremos muito falar dela – talvez tanto ou mais quanto ouvimos, nas últimas décadas, falar do G7/G8.
União Européia e EUA não gostam desta substituição.
Nas últimas semanas, participei de vários seminários, muitos incluindo gente graúda que pertenceu ao governo de George W. Bush e assessores de política externa do presidente-eleito Barack Obama. Eles, assim como pensadores diversos de Europa e EUA, sabem que o G8 não decide mais nada. Os líderes daqueles oito países, sozinhos, já não têm poder para impor decisões. Mas eles não gostam do G20. Em um dos seminários, o brilhante intelectual britânico Timothy Garton Ash propôs um G14. Os mestres do Brookings Institute querem um G16.
Todos sabem que qualquer discussão no mundo, hoje, tem que incluir China, Índia, Brasil e África do Sul. Mas quanto menos países estiverem no grupo, mais fácil é para os países desenvolvidos imporem seu peso.
Mas não custa lembrar uma distinção: há dois G20 por aí.
Este G20 que se encontrou em Washington, nascido em 1999, inclui os ministros da Fazenda das 20 maiores economias. Era um grupo de pouca importância. Foi fortalecido por outro G20 – aquele inventado pelo chanceler brasileiro Celso Amorim, em 2003, para enfrentar os oito mais ricos na reunião da OMC de Cancún. O segundo G20 é o grupo dos 20 maiores países em desenvolvimento.
A despeito das manchetes nos jornais de hoje, é cedo para dizer que a reunião deste fim de semana, em Washington, deu resultados. Dois pontos da pauta são interessantes.
O primeiro é o acordo por mais rigor na fiscalização de empresas das finanças. Bancos serão obrigados a ter mais dinheiro em caixa para garantir suas operações. O Wall Street Journal critica: neste momento de crise, bancos precisam emprestar mais para que o dinheiro circule e a economia seja aquecida. Obrigá-los a ter mais reservas pode piorar o problema. Não deixa de ser irônico que uma instituição liberal como o WSJ cite um professor do MIT para sugerir que a criação de um déficit maior seja a saída do buraco. No céu, Lorde Keynes sorri e Milton Friedman franze o cenho.
O segundo resultado é que a OMC já marcou para dezembro uma reunião extraordinária para, quem sabe, encerrar a fatídica rodada de Doha. (Aquela mesma que um dia foi emperrada pelo G20.) As negociações estão emperradas desde julho por conta da agricultura. China e Índia não abrem mão do direito de proteger seus mercados internos em caso de falta de alimentos no mundo. Em compensação, uma penca de países europeus se recusam a rever os subsídios a seus próprios fazendeiros ou as tarifas que impõem ao alimento que vem de fora. Os EUA, por sua vez, que um dia fingiram lutar pelo livre comércio no mundo, não ficam atrás. Escondem-se atrás da Europa – enquanto a UE não ceder, eles não precisam se movimentar.
Estes encontros multilaterais dão sempre em reuniões entediantes. Mas as coisas estão mudando.
Em Bali, no início do ano, enquanto discutia-se aquecimento global, os EUA usaram da mesma tática que usam na OMC. Não cediam no compromisso pelo corte de emissões de carbono enquanto a China não fizesse o mesmo. Repentinamente, a China cedeu. Por muito pouco um acordo não foi bloqueado porque os EUA, solitários perante as nações do mundo, não sabiam o que fazer. Por fim, cederam também.
Não é difícil fazer a China ceder um quê na OMC. Com a Índia é mais complicado – mas se ela se mover um pouco, União Européia e EUA podem se encontrar no pior dos cenários. Defendendo seu protecionismo contra os mais pobres.
G20 é o nome que dois grupos diferentes têm. Um é o G20 de 1999, que reúne os ministros da fazenda das 20 maiores economias. Outro é o G20 de 2003, dos vinte maiores países em desenvolvimento. Importante não confundir um com o outro. Mas G20 quer dizer também uma idéia: o mundo está mudando e rápido.
Barack Obama se elegeu com um discurso protecionista. Periga o mundo mudar tão rápido que, antes mesmo de sua posse, ele já não tenha mais muitas escolhas.
Atualização – O mestre Sergio Leo – que entende muito do assunto – faz duas observações pertinentes por email. A primeira é que não dá para chamar o G20 do chanceler Celso Amorim de os 20 maiores países em desenvolvimento. A Colômbia, já alinhada com os EUA, não aderiu. A Turquia aderiu mas os europeus fizeram cara feia e ela, com vontades de Europa, saiu. Os países do Leste Europeu não estão. Ainda assim, o grupo – por conta de seu núcleo forte África do Sul, Brasil, China e Índia – conseguiu e consegue pressionar EUA e EU.
A segunda observação transcrevo ipsis litteris: E cuidado com a China. Ela fez muitas concessões para entrar na OMC e argumenta não ter muito mais o que fazer. Espertos, os chineses ficaram calados, por trás da Índia, mais vocal. Mas, na última reunião, um dos obstáculos foi a recusa da China em aceitar os termos do acordo costurado entre Brasil, EUA e Europa. A Índia, por motivos eleitorais, fez mais barulho, e saiu como vilão. Mas os chineses ainda não mostraram a cara, inteligentemente reservando-se para o momento certo.
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ótimo texto, PD, mas vc repetiu a explicação sobre a existência de dois G20.
ótimo texto, mesmo.
Eu entendi a repetição da explicação como uma forma de reforçar a diferença e ao mesmo tempo chamar a atenção para o fato de que o “conceito” G20 é um só e de que as mudanças que esses dois grupos podem realizar estarão dentro desse conceito de novo mundo.
Agora, sem sacanagem, explicar para pessoas que não leem informações cotidianamente que existem dois G20 é muito difícil e engraçado…outro dia uma amiga achou que eu já tinha bebido muito quando comecei a explicar kkkk
Minha opinião, sei que não interessa, mas vá lá…é que isso será bom e que o brasil está tendo uma excelente oportunidade de se colocar como uma das lideranças do “novo mundo”…e, por enquanto, aparece como a liderança do bem - disposto a abrir mão em vários pontos para conseguir acordos que sejam bons para o mundo. Acho muito boa essa atitude budista - tá tudo interligado!
Ótimo texto.
Realmente, pra explicar os dois “G-20″ precisa reforçar, não é qualquer leigo que entende, precisa ser muito antenado na geopolítica.
:-)
“Os EUA, por sua vez, que um dia fingiram lutar pelo livre comércio no mundo, não ficam atrás. Escondem-se atrás da Europa – enquanto a UE não ceder, eles não precisam se movimentar.”
Gostei da reflexão. Parece que está virando consenso. Faz muito tempo que penso assim.
Mas ainda há muito direitões que ficam repetindo a cantilena monocórdia que ” o Brasil “escolhe” seus parceiros comerciais por ediologia, em lugar de visar apenas interesses comerciais.”
Como se diz que “para resolver um problema, o primeiro passo é identificá-lo claramente”, creio que já executamos o primeiro movimento.
Os pessoal que ficava repetindo, “a reunião do G-20 é apenas uma churrrascada de fim de semana”, deve estar chocado.
idiologia = ideologia
Muito bom o seu comentário. Aqui no Brasil analistas com complexo de vira-latas ficam depreciando o g 20. O embaixador Ricúpero foi além, disse que o que conta mesmo é o que o Obama irá fazer, e o resto é resto.
É sabido que o Ricúpero fala demais.
Pedro, acho que ao menos uma das intenções levantadas nesta reunião do G20 será bastante interessante. Um grupo de trabalho chefiado por Brasil, Coréia do Sul e Reino Unido tentará estabelecer as diretrizes para que haja uma fiscalização supranacional sobre os 30 maiores conglomerados bancários do mundo.
Creio que muitos obstáculos existirão no caminho para que isso saia do plano das idéias e venha para a realidade. Mas se realmente for levado adiante, é uma idéia excelente: bancos grandes demais trazem riscos sistêmicos não só para seus países de origem mas sim para todo o mundo. Que eles sejam supervisionados pelo mundo como um todo, através de um organismo multilateral, é uma idéia, a priori, bem bacana.
Abraço
O sistema financeiro internacional tem várias faces.
Uma diz respeito às relações existentes nas transações comerciais entre os diversos países, onde bancos têm participação expressiva, seja no financiamento, seja nas transferências monetárias. Importação e exportação, com exceção das mercadorias envolvidas, são operações financeiras.
Nos mercados domésticos, as finanças obedecem às respectivas legislações. No mercado internacional, existem regras comerciais que disciplinam os procedimentos, mediante acordos bi ou multilaterais.
Pretender a regulamentação estrita em termos internacionais equivale a criar uma espécie de “ONU” financeira. A ONU diplomática não consegue implementar suas próprias funções. Um organismo financeiro internacional seria mera instância burocrática, incapaz de implementar seus formais objetivos.
Disciplinar o sistema financeiro, em termos internacionais, significa cambiar as bases de funcionamento das transações econômicas. Isto não é o mesmo que fiscalizar tais bases.
O que traz problemas financeiros em escala mundial é o atrelamento do comércio e do padrão monetário internacional às decisões do Tesouro e do banco central dos USA.
Isso vai mudar.
Esqueci de comentar que nem todos os 20 são os maiores, mas a essência do que v. disse vale: os maiores países em desenvolvimento estão lá entre os vinte do grupo da OMC.
Essa discussão é da hora mesmo, estre Dória: a crise trará de volta um multilateralismo que ameaçava desmoronar?
Se fosse para resumir eu diria que vocês são otimistas demais.
Não sou economista, mas para certas coisas basta a história, lógica e bom senso ao seu lado.
A crise foi deflagrada pela bolha imobiliária americana e vocês sabem para onde todos correm para por o seu dinheiro? No dólar.
Quais as alternativas? A ditadura chinesa; a AL bolivariana; A UE lenta, preguiçosa e em crise (anterior à mundial); A ditadura russa saudosista do comunismo que nem a China mais quer; O mundo islâmico, seja em qual continente estiver? É, melhor comprar doletas mesmo…
Crises sempre acontecem no capitalismo, é inerente ao sistema. Mas aonde é que se pratica o capitalismo mais forte no mundo de hoje?
Só porque, devido a uma das maiores crises da história, estes pobres coitados acharam meia dúzia de pontos em comum vocês acham que já é a semente da governança global? Pra o tamanho da crise e do desespero econômico, só foram estabelecidas umas metas bem safadas e, o mais importante, não foi definido quem vai por o guizo no pescoço do gato.
Grandes países se forjam por si só. Esse chororô que “o sinhôzinho não deixa nosso país progredir” é chato de doer. Qualquer país que é e já foi potência encontrou muita resistência externa para sua expansão.
Olhem para a China e procurem-na pelos cantos chorando as pitangas, procurando coleguinha pobre para fazer bloquinho contra o Nhonhô. Nada mais terceiromundista que colocar um inimigo alienígena para encobrir a sua corrupção, incompetência e populismo
Volto a dizer, todo esquerdista confunde a dura realidade com os seus desejos idílicos mais profundos.
Eu tenho um exemplo aqui em casa. Minha esposa, à despeito das várias pancadas que a vida lhe dá, ainda acredita infalivelmente nas pessoas. É o triunfo da esperança sobre a experiência. Não quero outra pessoa para ficar comigo até o fim dos meus dias, mas não é capaz de administrar nem uma barraquinha de pipocas…
Desculpem se me alonguei muito, é o meu último dia de férias, então estou aproveitando. ;-)
Emerson Viana – os indícios de que o G8 está com menos poderes e que algo maior vai substituí-lo não é esta reunião. É o que vem acontecendo nos últimos 10 anos.
O fato de esta reunião ser um encontro do G20 e não do G8 é conseqüência.
Caro PD,
que o G8 pode ser substituído por um, sei lá, G12 não é nada difícil de acontecer. Inclusive com a troca de alguns membros com menos poderio econômico. O que não vai acontecer é mudança de procedimentos e filosofia. Os novos membros alinham-se com suas novas “posições” no mundo e pronto.
O que eu não posso concordar é com o título do post: “…até mesmo mudar o mundo”. O fato de temporariamente deixarem os “pobres” opinarem (e por enquanto é só isso, opinar), não significa que haverá alteração da estrutura de poder. Manda quem tem poder de barganha. Simples assim. Momentaneamente, veja bem, momentaneamente os países em desenvolvimento tem papel no abrandar da crise. Se, após e devido a crise, alguém subir de nível e passar ao “Top G” mudará o script de acordo com sua o patamar de sua “promoção”, senão não estaria neste grupo.
Os interesses de ricos e pobres são distintos, às vezes opostos. Uma vez no grupo dos ricos, você não age como pobre só para ser “libertário”. Os interesses práticos (até mesmo eleitorais) determinam a imediata supressão destas idealizações.
Assim penso eu.
Abraços.
Pedro Dória, excelente texto!
Uma análise limpa e bem escrita, sem fazer uso de apelações antipartidárias em qualquer uma das direções do espectro político.
Excelente!
Emerson,
eu sou bobo, mas não tão bobo como a sua mulher…caramba! como a pobrezinha foi casar com um porco como vc?!
Fiquei com mais pena dela do que dos caras que perderam seus empregos e casas nos eua. Estes, como vc disse, vão se recuperar já já. Aquela, pelo jeito, está fadada a conviver com um chato o resto da vida!
Não entendo bem essa coisa toda sobre o problema do “livre mercado” e do “neo-liberalismo”.
Li o livro do Friedman, Capitalism and Freedom, e pode ser que eu não entenda nada do assunto - mas me parece que o “livre mercado” está simplesmente há séculos de se tornar realidade.
E o que as pessoas criticam no neo-liberalismo não tem absolutamente nada a ver com isso.
De fato os “neo-liberais” são fortemente intervencionistas. São liberais só “no dos outros”.
O que estamos passando hoje (já disse Delfim Neto) é apenas a passagem de uma forma de intervenção para outra.
abraço,
lucas
Caro caceta,
seu resumo não poderia ser melhor o retrato do que são os esquerdistas politicamente corretos. Você obviamente não me conhece, mas já sabe que eu sou porco e chato. Como você ficou com pena dos americanos sem casa e sem emprego, obviamente você tem uma alma pura e benevolente. Você deve defender a paz mundial, etc e tal… desde que eu tenha a mesma opinião que você, porque senão, aí já viu, eu sou um porco, chato e similares. Sei, sei…
O ideal de tolerância desta turma me comove.
16 de novembro de 2008
Não se assuste. Ela já foi cinza escuro antes do incêndio de 1814.
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Por Antonio Ribeiro - 17:54 | Enviar Comentário
REVISTA VEJA
EXCLUSIVO: Mikhail Gorbachev fala à VEJA
A vida como ela é.
Ou,a nudez crua da verdade sob o delicado véu das conferências internacionais.
” No dia 12 de agosto, os tanques russos estavam a cerca de 50 quilômetros de Tibilisi. Em Moscou, para intermediar o cessar-fogo no Caucásio, ainda que Bush tenha urgido para evitar a missão, Nicolas Sarkozy disse a Vladimir Putin que o mundo não aceitaria a invasão Geórgia, antiga republica soviética. Jean-David Levitte, conselheiro diplomático de Sarkozy, conta ter havido o seguinte diálogo entre o russo e o francês sobre Mikhail Saakashvili, presidente da Geórgia :
Putin: Vou pendurar Saakashvili pelos culhões.
Sarkozy: Pendurá-lo?
Putin: Por quê não? Os americanos penduraram Saddam Hussein.
Sarkozy: Sim, mas você quer terminar como o Bush?
Breve silêncio.
Putin: Ah! Agora, você marcou um ponto.
Em 1999, Putin ameaçou os separatistas chechenos de “varrer-los das suas casas de merda”. Em 2002, durante uma entrevista coletiva à imprensa em Bruxelas, ainda sobre os independentistas da Chechenia, Putin disse: “Vou recomendar uma operação militar de modo que nada cresça depois.””
Antonio Ribeiro.
Desculpem, saiu coisa demais.
Definitivamente não sei lidar com computadores.
Mas a essência dos G-8, G-20, G34 é a a cima.
” Mas os chineses ainda não mostraram a cara, inteligentemente reservando-se para o momento certo”
O mestre Sergio Leo há de convir: o momento certo anda meio perdido depois da Crise do Fim do Mundo.
Meu Deus, PD está acometido de “acute wishfull thinkitis”….
Acreditar que esse G20 não passa de pirotecnia é muita ingenuidade. Como bem disse Vinicius torres da Folha em artigo recente, quem decide mesmo são os verdadeiros G( EUA, UK, França, Alemanha e Japão e agora China). É a regra de ouro: quem tem o ouro faz as regras… it sad but true
Barak, o primeiro presidente queniano dos EUA
(link a seguir, se o PD deixar passar)
link
http://www.youtube.com/watch?v=-4FqVRWgrNw&eurl=http://blog.barofintegrity.us/2008/11/01/barack-nate-dhalani.aspx?ref=rss
como o pD não deixa passar, é só clicar no meu nickname…
O problema, Márcio, como diz o texto do PD, é que os caras até podem decidir, mas não estão conseguindo impor. Esta é a grande mudança.
como mudançca, manda quem pode, obedece quem tem juizo. Se alguem quer ter voz ativa, tem que colocar seu dinheiro no lugar do papo-furado.
Fora de tema — PD
fora do tema? Fora do tema do G20?
Acho que deveria ser reecriado o G20 mas com 14 países permanentes e os 6 com os melhores desempenhos do ano .
Os permanentes : Eua,Japão,Alemanha,Fran-ça,Grã-Bretanha,Itália,Canadá,Índia,China ,Bra-sil,África do sul,México,Argentina e Coréia do sul.
caralho!!!