G20 ou Como uma reunião de burocratas
pode até mesmo mudar o mundo

Mundo · 17/11/2008 - 07h05 - 31 Comentários

É bom prestar atenção nesta sigla: G20. Grupo dos 20. Ainda ouviremos muito falar dela – talvez tanto ou mais quanto ouvimos, nas últimas décadas, falar do G7/G8.

União Européia e EUA não gostam desta substituição.

Nas últimas semanas, participei de vários seminários, muitos incluindo gente graúda que pertenceu ao governo de George W. Bush e assessores de política externa do presidente-eleito Barack Obama. Eles, assim como pensadores diversos de Europa e EUA, sabem que o G8 não decide mais nada. Os líderes daqueles oito países, sozinhos, já não têm poder para impor decisões. Mas eles não gostam do G20. Em um dos seminários, o brilhante intelectual britânico Timothy Garton Ash propôs um G14. Os mestres do Brookings Institute querem um G16.

Todos sabem que qualquer discussão no mundo, hoje, tem que incluir China, Índia, Brasil e África do Sul. Mas quanto menos países estiverem no grupo, mais fácil é para os países desenvolvidos imporem seu peso.

Mas não custa lembrar uma distinção: há dois G20 por aí.

Este G20 que se encontrou em Washington, nascido em 1999, inclui os ministros da Fazenda das 20 maiores economias. Era um grupo de pouca importância. Foi fortalecido por outro G20 – aquele inventado pelo chanceler brasileiro Celso Amorim, em 2003, para enfrentar os oito mais ricos na reunião da OMC de Cancún. O segundo G20 é o grupo dos 20 maiores países em desenvolvimento.

A despeito das manchetes nos jornais de hoje, é cedo para dizer que a reunião deste fim de semana, em Washington, deu resultados. Dois pontos da pauta são interessantes.

O primeiro é o acordo por mais rigor na fiscalização de empresas das finanças. Bancos serão obrigados a ter mais dinheiro em caixa para garantir suas operações. O Wall Street Journal critica: neste momento de crise, bancos precisam emprestar mais para que o dinheiro circule e a economia seja aquecida. Obrigá-los a ter mais reservas pode piorar o problema. Não deixa de ser irônico que uma instituição liberal como o WSJ cite um professor do MIT para sugerir que a criação de um déficit maior seja a saída do buraco. No céu, Lorde Keynes sorri e Milton Friedman franze o cenho.

O segundo resultado é que a OMC já marcou para dezembro uma reunião extraordinária para, quem sabe, encerrar a fatídica rodada de Doha. (Aquela mesma que um dia foi emperrada pelo G20.) As negociações estão emperradas desde julho por conta da agricultura. China e Índia não abrem mão do direito de proteger seus mercados internos em caso de falta de alimentos no mundo. Em compensação, uma penca de países europeus se recusam a rever os subsídios a seus próprios fazendeiros ou as tarifas que impõem ao alimento que vem de fora. Os EUA, por sua vez, que um dia fingiram lutar pelo livre comércio no mundo, não ficam atrás. Escondem-se atrás da Europa – enquanto a UE não ceder, eles não precisam se movimentar.

Estes encontros multilaterais dão sempre em reuniões entediantes. Mas as coisas estão mudando.

Em Bali, no início do ano, enquanto discutia-se aquecimento global, os EUA usaram da mesma tática que usam na OMC. Não cediam no compromisso pelo corte de emissões de carbono enquanto a China não fizesse o mesmo. Repentinamente, a China cedeu. Por muito pouco um acordo não foi bloqueado porque os EUA, solitários perante as nações do mundo, não sabiam o que fazer. Por fim, cederam também.

Não é difícil fazer a China ceder um quê na OMC. Com a Índia é mais complicado – mas se ela se mover um pouco, União Européia e EUA podem se encontrar no pior dos cenários. Defendendo seu protecionismo contra os mais pobres.

G20 é o nome que dois grupos diferentes têm. Um é o G20 de 1999, que reúne os ministros da fazenda das 20 maiores economias. Outro é o G20 de 2003, dos vinte maiores países em desenvolvimento. Importante não confundir um com o outro. Mas G20 quer dizer também uma idéia: o mundo está mudando e rápido.

Barack Obama se elegeu com um discurso protecionista. Periga o mundo mudar tão rápido que, antes mesmo de sua posse, ele já não tenha mais muitas escolhas.

Atualização – O mestre Sergio Leo – que entende muito do assunto – faz duas observações pertinentes por email. A primeira é que não dá para chamar o G20 do chanceler Celso Amorim de os 20 maiores países em desenvolvimento. A Colômbia, já alinhada com os EUA, não aderiu. A Turquia aderiu mas os europeus fizeram cara feia e ela, com vontades de Europa, saiu. Os países do Leste Europeu não estão. Ainda assim, o grupo – por conta de seu núcleo forte África do Sul, Brasil, China e Índia – conseguiu e consegue pressionar EUA e EU.

A segunda observação transcrevo ipsis litteris: E cuidado com a China. Ela fez muitas concessões para entrar na OMC e argumenta não ter muito mais o que fazer. Espertos, os chineses ficaram calados, por trás da Índia, mais vocal. Mas, na última reunião, um dos obstáculos foi a recusa da China em aceitar os termos do acordo costurado entre Brasil, EUA e Europa. A Índia, por motivos eleitorais, fez mais barulho, e saiu como vilão. Mas os chineses ainda não mostraram a cara, inteligentemente reservando-se para o momento certo.

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