Israel, Palestina, Irã e a surpresa de novembro

EUA · Irã · Israel e Palestina · Oriente Médio · 28/10/2008 - 17h22 - 39 Comentários

Alguns neoconservadores aqui nos EUA e um bocado de gente na imprensa e na política de Israel vem falando muito de uma ‘surpresa de novembro’. É um ataque israelense, com a benção de Washington, aos possíveis laboratórios iranianos no quais estão desenvolvendo armas nucleares.

Mas fora as opiniões de analistas, nada no mundo real indica que a possibilidade existe. Pouco antes de deixar o cargo de premiê, Ehud Olmert deu uma entrevista ao Yedioth Ahronoth, maior diário do país, falando o que nenhum primeiro ministro jamais havia dito. Primeiro, que Israel tem que deixar a Cisjordânia. Idealmente, deixar a Cisjordânia toda. E, segundo, que bombardear o Irã não é uma alternativa realista. Com os EUA à beira de uma recessão (ou já em meio a ela, depende de quem vê), Israel não teria apoio logístico ou militar.

O problema é de ordem prática: o Irã já sabe enriquecer urânio e isso não vai mudar. Qual a opção? Se os EUA, que são de longe a maior potência militar do planeta, mal agüentam com o Iraque e o Afeganistão, quem arriscará botar abaixo mais um país na região? Após o ataque, o Irã entrará em crise. (E não custa lembrar um fato curioso mas poucas vezes mencionado: a população de mais islâmico no Oriente Médio mais pró-EUA é a do Irã.)

Há variáveis na história, evidentemente. Ainda não se sabe quem será o próximo presidente norte-americano, se Barack Obama ou John McCain. Um já deixou claro que vai negociar; o outro, que considera carinhosamente a opção militar. Também não se sabe quem estará no governo israelense em 2009. Se for Tzipi Livi, o resultado e o Kadima se mantiver no poder, a negociação estará aberta. Se, no entanto, Benjamin Netaniahu voltar ao poder com seu Likud, os tambores belicistas estarão à toda.

(Mahmoud Abbas também está para deixar o governo, na Cisjordânia.)

Muitos dos principais assessores de Barack Obama nas relações internacionais são professores aqui de Stanford que, em janeiro, devem se mudar para Washington enquanto Condolleezza Rice prepara seu retorno. Quando perguntados – e tomando a cautela de não identificar quem o diz pelo nome –, a avaliação que fazem do conflito entre Israel e Palestina é o seguinte: em nenhum outro conflito do mundo há tanto empenho diplomático. Alguns dos melhores diplomatas do mundo já se debruçaram sobre a questão. É hora de se perguntar se não é hora de parar.

O raciocínio não é dos mais complicados: israelenses e palestinos são um problema. E não param de causar problemas. E, às vezes parece, se recusam a encontrar uma solução. Mas o deles não é o único conflito sério no mundo, tampouco é o único que deixa mortes. Talvez os melhores recursos diplomáticos estejam sendo jogados fora quando poderiam estar sendo melhor aplicados em outros cantos.

Um homem como Ehud Olmert não diz que é hora de fazer a paz com a Síria, deixar a Cisjordânia, indenizar os palestinos e cogitar outra solução para o Irã à toa. Ele percebe que, se Obama vencer, o foco de preocupação norte-americana pode mudar.

Isso não quer dizer que vá mudar. Não é o lobby judaico nos EUA que é forte, embora tenha influência. Boa parte dos eleitores judeus, aqui, são democratas e, embora se preocupem com Israel, querem a paz com a Palestina como prioridade. Mas os velhinhos judeus da Flórida são mais conservadores, equilibram-se entre um partido e outro, e aquele é um estado decisivo para a eleição presidencial. Os velhinhos judeus da Flórida, assim como os cubanos da Flórida ou os militares aposentados da Flórida e tantos outros grupos demográficos daquele estado deixam as campanhas de McCain e Obama em pânico. E, a cada quatro anos, eles são necessários novamente. Obama precisaria vencer por uma larga margem para poder dispensar este apoio em sua (talvez) campanha de reeleição, daqui a quatro anos.

Por uma larga margem, ele provavelmente não vencerá.

No caso do Irã, há uma boa notícia: além de a Síria estar (aparentemente) cada vez mais envolvida num processo de paz, o preço do petróleo está baixando. Isto quer dizer que o poder de Vladimir Putin vai lentamente desaparecendo. Se o barril cair mais uns vinte dólares, o governo russo estará mais preocupado em manter-se no poder do que em incentivar o pior lado iraniano.

Cá está um fim de ano com muitas variáveis. Qualquer chute vale.

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