Quem é melhor para o Brasil? Obama? McCain?

Brasil · EUA · México · 23/10/2008 - 13h34 - 42 Comentários

Quem seria o melhor presidente dos EUA para o Brasil? Esta é uma pergunta que pode ser respondida de várias maneiras. Durante a campanha eleitoral, estes dois candidatos precisam parecer diferentes um do outro então, por isso, falam muito a respeito do que os distinguem. Uma vez na Casa Branca, entretanto, boa parte da política externa norte-americana é política de Estado. Eu pretendia, inicialmente, fazer um post falando de cada um. Mas acho que é mais fácil compará-los em um só texto.

McCain é, dos dois, quem mais cita tanto o Brasil quanto a América Latina. Em seu programa de governo, em seus discursos, o Brasil é sempre lembrado como exemplo na questão energética. Para o candidato republicano, os EUA deveriam seguir o exemplo tupinambá da produção de carros flex, que aceitam tanto álcool quanto gasolina. E McCain promete levar a zero o imposto de importação do etanol brasileiro.

Mas é importante compreender de onde vêm essas promessas. Por que McCain cita tanto o etanol brasileiro? Nos massageia o ego, por certo, mas há um motivo que tem a ver mais com política interna norte-americana do que com o bem-estar brasileiro. É que Obama é senador por Illinois, um dos maiores produtores de milho e, portanto, estado interessado nos subsídios para produção de etanol de milho. Obama não pode, em campanha, falar contra o etanol de milho. E, como senador, sempre o defendeu. Como o etanol de cana é muito mais eficiente e a política de subsidiar o milho para produção de etanol é, basicamente, estúpida, citar constantemente o exemplo brasileiro é uma maneira que McCain tem de criticar Obama com razão. E o candidato democrata não tem como reagir.

A questão é: como presidente, McCain cumpriria esta promessa? Provavelmente não, e não por sua culpa. Tanto Câmara quanto Senado serão democratas e quem tem real poder para decidir subsídios é o Congresso, não o Executivo. Após esta campanha e dois mandatos de um presidente polarizador como George W. Bush, haverá rancor no Congresso contra um presidente republicano. McCain será um presidente de mãos atadas. Curiosamente, se alguém terá real poder para mudar a política de subsídios, será Barack Obama. Ele não será mais o senador de Illinois mas o presidente de todos os Estados Unidos. E isto virá de uma negociação entre Estados, no momento em que os EUA quiserem algo do Brasil. Alguma hora, vão querer. É importante agradar o Brasil por alguns motivos. (Mais nisso adiante.)

Uma presidência é também moldada por aqueles que financiam a campanha. O dinheiro da indústria petroleira está com os republicanos. McCain sabe que a promessa de perfurar em alto-mar é pura demagogia. Há pouco petróleo lá, que não faria qualquer diferença para a independência energética dos EUA, e demoraria pelo menos uma década para a produção ter início. (Plataformas não se constroem em dois anos.) McCain, por conta de seus patrocinadores, não promoveria uma grande mudança na base energética dos EUA.

Que tipo de política energética interessa ao Brasil? Não somos uma república de bananas que vive de uma indústria só e nossos interesses, nessa história, não são apenas comerciais. O Brasil sai ganhando mais com uma política que favoreça o nascimento de uma indústria mundial e de larga escala de combustíveis alternativos. Se os EUA investirem pesado neste tipo de indústria, haverá um mercado maior em todo o mundo. E o Brasil já tem tecnologias prontas na mão para vender. O fomento de uma grande indústria de combustíveis não-fósseis é o ponto chave do governo Obama. Este será seu principal compromisso quando, logo após jurar fidelidade à Constituição, fizer seu discurso inaugural. Se ele for capaz desta mudança, é uma revolução no mundo.

Ambos os presidentes terão uma boa relação com Brasil, China e Índia. Isto é política de Estado. São países citados imediatamente em qualquer análise a respeito do estado geral do planeta. O Brasil é importante. Globalmente, regionalmente. E, desta lista de três, o Brasil é o mais fácil para os EUA. Está no mesmo hemisfério e jamais houve grandes tensões na relação. A rodada de Doha na OMC mostrou o poder diplomático do país, as tecnologias energéticas são vistas com um quê de inveja, e a produção de alimentos é acachapante.

O Brasil é importante, também, por causa de Chávez, Morales e seus pares. É bom ter um parceiro com quem conversar. Do ponto de vista norte-americano, o Brasil mantém seus vizinhos sob controle e, assim, os EUA não precisam se preocupar tanto. Mas há, nesta nossa política regional, um ponto que será importante no próximo governo: a questão das drogas. E, aí, poderemos ver alguma diferença entre as decisões do presidente McCain e as do presidente Obama.

O problema começa no México. Nos últimos anos, a violência da disputa entre cartéis no México aumentou para níveis absurdos. Só na pequena Ciudad Juarez, na fronteira, mais de 1.000 pessoas foram assassinadas este ano. Se há perigo de o México mergulhar num estado de violência sistemática e continuada, os EUA não gostam. Instabilidade no vizinho, não. Mas não se ataca o problema das drogas no México olhando apenas para o México. John McCain tem citado muito a Colômbia e a necessidade de investir mais dinheiro no Plano Colômbia. Obama seguiria um caminho diferente. A partir de um relatório publicado esta semana, pressionaria o governo colombiano a prestar mais atenção aos abusos de direitos humanos e o incentivaria a levar os serviços públicos à região de conflito armado. Em suma, mais governo civil, menos militares. As Farc estão enfraquecidas, neste momento, e um projeto de por fim ao conflito tem chances.

O que não se sabe é quem assumiria o controle dos cartéis de drogas no momento em que as Farc deixarem o cenário. Mas – e isto tem aparecido em seus debates – McCain investiria no conflito e Obama tentaria estancá-lo. Há repercussão em todo o continente. O próprio Brasil tem um problema de criminalidade excessiva vinculado ao conflito na Colômbia e ao tráfico para EUA e Europa. Se a política contra drogas mudar efetivamente, a situação muda embaixo. (Mas seria exagero, hoje, dizer que a ‘Guerra contra as Drogas’ terminará.)

Mas, no fim das contas, o Brasil faz parte do mundo. Se a economia dos EUA cresce, a do Brasil cresce. Se os EUA no Oriente Médio produzem instabilidade mundial, o Brasil é afetado de mais maneiras do que podemos imaginar. Se os EUA estão agindo decididamente para combater o aumento do nível de carbono na atmosfera, melhor para todo o mundo.

Tanto John McCain quanto Barack Obama reconhecem o problema do aquecimento global e dizem com todas as letras que o causador é o homem. (Joe Biden também o faz, Sarah Palin, não.) Deste ponto de vista, o mundo estará melhor do que com George W. Bush. Mas o fato de McCain ser financiado pela indústria petroleira fará, inevitavelmente, com que ele não seja tão agressivo contra quem o apoiou. E isto, para o Brasil, também fará diferença.

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