Promessas que Obama não cumprirá (2 de 3)
Deixar o Iraque em 16 meses

EUA · Energia e Aquecimento global · Iraque · 21/10/2008 - 07h15 - 81 Comentários

A avó de Barack Obama, Madelyn Dunham, está mal. Ela deixou o hospital na última sexta-feira e o candidato interromperá a campanha por dois dias, quinta e sexta, para estar com ela. Os rumores são de que Madelyn, que tem 85 anos, está à beira da morte. A campanha presidencial continua com Michelle Obama e Joe Biden, em comícios por todo o país.

Isto posto, vamos à segunda promessa que, caso seja eleito, Obama provavelmente não conseguirá cumprir. Ele garante que conseguirá retirar as tropas norte-americanas do Iraque em 16 meses.

Dificilmente Barack Obama conseguirá deixar o Iraque em 16 meses.

Para entender o porquê, é preciso compreender antes o que aconteceu no Iraque nos últimos anos.

A guerra foi um erro, uma distração no enfrentamento da al-Qaeda. A origem do extremismo islâmico que levou ao Onze de Setembro não é a Síria, não é o Irã, não é a Palestina. Não são nem mesmo Afeganistão ou Paquistão. É a Arábia Saudita. O dinheiro que financia a al-Qaeda é saudita. Os principais terroristas do Onze de Setembro, sauditas. O dinheiro que financia a construção de mesquitas radicais na Europa, saudita. Boa parte do dinheiro do Hamas? Provavelmente saudita. Mas boa parte do petróleo do mundo – e dos EUA – é também saudita. Sem este petróleo, os EUA param. A Arábia Saudita também precisa dos EUA e a ironia é que é o dinheiro do petróleo que sustenta a cepa mais radical de islamismo que existe.

Donald Rumsfeld, contrariando a vontade dos líderes militares, entrou no Iraque sem batalhões o suficiente para manter a segurança do país e o controle de fronteiras após o previsível colapso do regime Saddam Hussein. Após tal colapso, instaurou uma caça aos membros do partido Baath, que comandava o Iraque fazia trinta anos. Num país de partido único, todo funcionário público pertence ao tal partido. Não é uma escolha. O resultado é que repentinamente não havia quem soubesse governar o país: manter hospitais, escolas, cartórios, sinais de transito, rede elétrica, e tudo o mais funcionando. E não havia segurança.

O Iraque se fragmentou em vários grupos. Os curdos, ao norte, brigam entre si pelo controle de um país que talvez exista um dia. Os sunitas, aproximadamente 40% da população, se dividiram em facções. Alguns, membros do antigo regime, lutavam porque sentiam-se perseguidos e queriam sobreviver. Tinham armas e algum dinheiro próprio, que haviam pego dos cofres públicos. Outros, mais religiosos, principalmente na região de Fallujah, lutavam pela instauração de pureza religiosa. Um terceiro grupo, nacionalista, queria manter o poder sunita no Iraque e expulsar o invasor norte-americano. À esta sopa, juntaram-se jovens vindos pela fronteira síria para lutar na jihad, a Guerra Santa. Fizeram parte do grupo que ficou conhecido como al-Qaeda no Iraque. Na época, muito se reclamou de como a Síria ‘incentivava’ estes jovens. O que raramente se disse, mas era um segredo aberto entre jornalistas e militares norte-americanos na região, é que eram praticamente todos sauditas.

Não bastasse a confusão entre sunitas, havia ainda a maioria da população xiita, que fora oprimida durante os anos do regime baathista. O principal líder revoltoso foi o jovem Moqtada al-Sadr, carismático, filho de um chefe político importante, agressivo. Al-Sadr ficou importante, principalmente, porque suas milícias começaram a expulsar sunitas dos gigantescos bairros pobres de Bagdá. Houve muito disso em todo o país: sunitas expulsando xiitas e vice-versa de regiões onde pessoas moravam fazia décadas.

O fato é que o Iraque está melhor, agora. Por vários motivos. Os grupos muçulmanos radicais iraquianos e a al-Qaeda no Iraque perderam apelo perante a população quando começaram a atacar iraquianos. Um vestido que mostrasse o calcanhar, um casal de namorados na rua, qualquer motivo era suficiente para atrair a ira de quem desejava pureza religiosa. O Iraque é, e sempre foi, um país de natureza mais laica na região. (Mais laico, entenda-se, no contexto do Oriente Médio. Bagdá não é Paris ou Nova York. Não chega nem a ser Beirute.)

Já os grupos nacionalistas e os ex-membros do Baath, que tinham muito dinheiro, ficaram sem. A fonte secou. Ninguém sabe explicar ao certo de onde vinha tal dinheiro. Em parte, era dos cofres do regime. Mas não apenas. Vinha também dinheiro de fora. A desconfiança é que vinha de onde sempre vem: milionários sauditas. Fato é que os EUA, sem explicar bem o como, conseguiram bloquear este fluxo de receita e, por sua vez, começaram a pagar os principais chefes de clãs sunitas. Suborno, pois é. Some-se a isso o fato de que há muito mais soldados norte-americanos mantendo a segurança e o naco sunita está mais calmo.

Um cansaço da violência semelhante ocorreu no sul xiita. A população começou a voltar-se contra as milícias do jovem al-Sadr, principalmente após o vazamento de vídeos que mostravam seus militantes provocando confusão e briga em várias regiões. Os xiitas iraquianos são mais religiosos que os sunitas e a falta de conhecimento teológico de Moqtada o fez perder respeito. Moqtada retirou-se estrategicamente para completar os estudos com o objetivo de virar um líder religioso como foram seu pai, seu tio, seu avô. É o destino dos al-Sadrs há mais de século e aquela é uma região na qual a tradição é seguida à risca.

Mas o Iraque é de uma fragilidade só. Outro dos motivos pelos quais o país está mais organizado é que, depois de quatro ou cinco anos, os norte-americanos instauraram um sistema de administração pública lá. Os antigos funcionários voltaram apenas em parte e quem toca o dia-a-dia são os EUA. Luz, água, escolas, hospitais – o trânsito caótico. O país sempre foi corrupto e, se os EUA conseguiram a paz subornando chefes sunitas, por exemplo, é porque, antes, Saddam Hussein fazia o mesmo. E outro antes dele. (Não é diferente no Iraque xiita.)

O resultado, no fim, é que para organizar minimamente o Iraque, diplomatas e militares norte-americanos gastaram cinco anos aprendendo como o país funcionava. Descobriram. E ocuparam o espaço que, noutros tempos, ditadores corruptos e fortes ocupavam. Para deixar o Iraque, terão que botar alguém no lugar. Se não puserem, o tênue equilíbrio desaparece repentinamente. Quais as experiências passadas dos EUA? Na Europa Ocidental, após a Segunda Guerra, deixaram a administração para países nos quais em geral já havia uma cultura iluminista, muitas vezes democrática. No Japão, a cultura pesadamente hierarquizada, organizada e intolerante à desobediência manteve a ordem. O Vietnã entrou em colapso. Na Sérvia, Croácia, Bósnia etc., a OTAN assumiu a organização, mas era de interesse da Europa, afinal. O Iraque é uma situação nova. E, conforme aprenderam os britânicos há uns 60 anos, no fim de seu Império, deixar aquela região é mais difícil do que entrar nela.

Obama talvez consiga retirar metade das tropas dos EUA do Iraque. Talvez consiga retirar dois terços. Ninguém sabe realmente como fazê-lo. Esta é uma receita que será aprendida um dia após o outro.

Aqui em Stanford, seja no Instituto Hoover, seja no Departamento de Estudos da Democracia, seja entre meus colegas jornalistas norte-americanos que moraram nos últimos anos no Iraque, seja com minha colega iraquiana, só há um consenso: se sair sem cuidado ou muito rápido, virá um banho de sangue. Ninguém tem dúvidas de que é preciso sair. Mas este será um processo muito delicado, muito difícil. E tanto o presidente Obama quanto o presidente McCain terão de enfrentar a impaciência da população norte-americana que quer sair. O Iraque é o maior desastre realizado por George W. Bush. Resolvê-lo não tem nada de trivial.

O motivo pelo qual Obama não conseguirá cumprir esta promessa é o mesmo que faz de outro compromisso dele o mais importante que o próximo presidente norte-americano pode assumir: diminuir o uso de petróleo nos EUA e no mundo incentivando novas tecnologias. Ele quer eliminar a exigência de petróleo estrangeiro em dez anos. Propõe um investimento semelhante ao que John Kennedy fez em 1960 na corrida espacial. Parecia impossível – mas em 1969, após Laica e Gagarin, os norte-americanos passaram os soviéticos e pisaram na Lua. O Aquecimento Global e o isolamento da Arábia Saudita são motivos o suficiente para que não exista maior prioridade do que esta. Não importa se não conseguir eliminar completamente. Se todo esforço for nesta direção, já é o bastante.

Ainda sobre o assunto:

  1. Promessas que Obama não cumprirá (3 de 3)
    Entregar um superávit fiscal
    A terceira promessa que Obama não vai cumprir é econômica. Os EUA têm um déficit orçamentário de 455 bilhões de...
  2. Promessas que Obama não cumprirá (1 de 3)
    Conversas incondicionais com inimigos
    Como todo político, durante sua campanha Barack Obama fez promessas e algumas delas definiram como ele é percebido pelo eleitorado....
  3. A violência no Iraque aumenta
    (Como vai a estratégia Obama?)
    Mais de 50 pessoas morreram na quinta-feira, em Bagdá, após explosões de carros bombas pela cidade. No mês de abril,...
  4. O Iraque espatifado Na semana passada, incontáveis especialistas testemunharam perante o Senado norte-americano a respeito do Iraque. O argumento defendido pelo presidente George...
  5. O Iraque, os EUA e o petróleo Na London Review of Books, o escritor Jim Holt faz as contas para chegar a uma velha conclusão: o Iraque...